Como fã de The Gilded Age, confesso que poucas notícias recentes me deram um prazer tão genuíno quanto ver a série enfim reconhecida pelo Critics’ Choice. Não apenas por uma questão de premiação — mas porque essas indicações refletem algo que quem acompanha a produção desde o início já sente há tempos: a série cresce em popularidade porque cresce em densidade dramática, ambição narrativa e, sobretudo, em atuações.
Nesta temporada, duas das melhores performances do elenco foram oficialmente reconhecidas: Carrie Coon, indicada como Melhor Atriz em Série de Drama por sua Bertha Russell, e Denée Benton, indicada como Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama por Peggy Scott. Não é pouco. É cirúrgico.

Claro que minha opinião pessoal permanece: Cynthia Nixon vem dando um verdadeiro show como Ada Forte, assim como Christine Baranski segue impecável, afiada e elegante como Agnes van Rhijn. Mas talvez essas duas ainda precisem esperar um pouco mais. Por ora, as indicações refletem personagens cujos conflitos são mais “realistas”, menos codificados pelo humor ácido ou pela contenção emocional — personagens que vivem dramas mais frontalmente reconhecíveis pela lógica das premiações.
No caso de Carrie Coon, o reconhecimento parece inevitável. Bertha Russell, em mãos menos precisas, seria facilmente rotulada como vilã: ambiciosa demais, inescrupulosa, fria. Sendo generosa, pragmática e visionária. Mas Coon faz algo muito mais complexo. Desde a primeira temporada, Bertha divide o público — mas todos acabam unidos pela força da atuação. Há uma inteligência emocional ali que impede qualquer leitura rasa.
Na temporada mais recente, o arco de Bertha foi particularmente desafiador: a personagem passa a lidar não apenas com o embate social externo — o velho dinheiro versus o novo —, mas também com fissuras internas, tensões conjugais, limites impostos à sua própria estratégia de ascensão. O que antes parecia pura força de vontade passa a cobrar um preço. Bertha não recua, mas sofre. Não cede, mas paga. E Carrie Coon sustenta tudo isso com nuances, silêncios e um controle impressionante do tom.
Já a indicação de Denée Benton carrega um peso simbólico ainda maior. The Gilded Age vem sendo justamente elogiada — e com razão — por retratar a sociedade negra do pós-escravidão com dignidade, realismo e alcance narrativo. Aqui, as histórias não se restringem ao racismo como único motor dramático. Peggy Scott não é apenas um elo entre dois mundos da série; ela é um mundo em si.

Ao longo das temporadas, Peggy se constrói como uma mulher profundamente traumatizada, intelectualmente engajada, emocionalmente resiliente. Seu arco não se limita à dor: envolve luto, maternidade, vocação, pertencimento e, finalmente, a possibilidade de um futuro que não seja apenas resistência. Nesta temporada, vê-la caminhar para algo que se assemelha à felicidade — sem apagar o que foi perdido — é um dos movimentos mais delicados e bem resolvidos da série.
Denée Benton traz a esse percurso uma atuação de enorme sensibilidade, sem nunca cair no excesso ou na complacência. E não é por acaso. Assim como boa parte do elenco de The Gilded Age, Benton tem uma trajetória sólida na Broadway, com performances elogiadas e premiadas que moldaram sua presença cênica, sua precisão emocional e sua capacidade de sustentar personagens complexas em longos arcos narrativos. Na série, ela se afirma como uma das grandes estrelas — e só a indicação já é, por si, uma vitória.
O elenco, aliás, celebrou unido esse reconhecimento crítico, reforçando algo que sempre transpareceu fora de cena: The Gilded Age é uma série construída coletivamente, com respeito ao texto, ao histórico e às personagens. Não há sensação de competição interna, mas de um grupo que cresce junto — e isso se reflete na tela.
Minha torcida? Já é dupla. Porque quando uma série acerta tanto em suas protagonistas — em mundos tão diferentes, mas igualmente densos —, o prêmio deixa de ser apenas individual. Passa a ser um reconhecimento de que The Gilded Age encontrou, enfim, o lugar que sempre mereceu.
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