Há uma regra simplista que meio que determina que um bom drama depende mais de um vilão bem construído do que o herói. Se não há essa regra, é uma minha de julgamento. E Down Cemetery Road tem um dos antagonistas mais assustadores da TV em muitos anos, graças ao talento do ator Fehinti Balogun.

Isso porque há atores que chegam à tela carregando mais do que um personagem e Balogun é um deles. Seu trabalho — no cinema, na televisão ou no palco — nunca se limita à função narrativa imediata. Ele atua como quem ocupa espaço conscientemente, sabendo que o corpo negro em cena ainda é, por si só, uma afirmação política.
Britânico, filho de mãe nigeriana, Balogun cresceu no Reino Unido atravessado pela experiência da diáspora africana. Essa origem — cultural, política e afetiva — molda seu olhar de mundo e explica por que raça, pertencimento e desigualdade surgem em sua obra não como temas abstratos, mas como vivência incorporada. Antes de conquistar a televisão e o cinema, ele se formou no teatro britânico, onde desenvolveu uma relação física e intelectual com a interpretação — atenção ao corpo, ao silêncio e à escuta — que ainda hoje define sua presença cênica.

Balogun é conhecido do grande público por Duna, por I May Destroy You, por A Gentleman in Moscow e, mais recentemente, por Down Cemetery Road. Mas reduzir sua trajetória à atuação seria ignorar uma camada essencial do que ele constrói: um diálogo contínuo entre arte, ativismo e identidade. Seja interpretando um antagonista perturbador, seja criando uma obra híbrida como Can I Live?, ele trabalha sempre a partir da mesma pergunta fundamental: quem pode falar, quem é ouvido e quem paga o preço do silêncio?
Essa intersecção ficou ainda mais evidente em sua passagem pelo Brasil, em 2023, onde apresentou Can I Live? e participou de debates que cruzam emergência climática, desigualdade racial e experiências de comunidades vulnerabilizadas. Foi uma troca que iluminou o quanto sua obra conversa com realidades globais, especialmente no Sul Global, onde clima, raça e classe são inseparáveis.
O vilão que desestabiliza o centro da cena
Em Down Cemetery Road, Balogun vive Amos Crane, um personagem que poderia facilmente cair no clichê do vilão funcional e só não cai porque ele não é apenas ameaça: é um desconforto letal. Sua presença reorganiza o ritmo da série, cria tensão física e psicológica e obriga o espectador a permanecer alerta.
Nada nele é excessivo; tudo é calculado. Balogun constrói Amos com economia de gestos, mudanças sutis de registro e uma calma inquietante, capaz de transformar até cenas silenciosas em momentos de eletricidade. Ao contracenar com Emma Thompson e Ruth Wilson, ele não apenas se sustenta como antagonista, mas amplia o alcance dramático das protagonistas, um feito raro e revelador de maturidade artística. A sequência da viagem de trem até a Escócia, onde ele e Emma não trocam uma palavra e dizem tudo com o olhar, é uma das mais apavorantes e brilhantes da TV.

Arte como tradução da desigualdade
Esse rigor encontra eco fora da ficção tradicional. Can I Live?, projeto autoral que mistura música, spoken word e documentário, nasceu de conversas com sua mãe e de um choque geracional sobre ativismo e sobrevivência. A obra transforma a crise climática em experiência concreta, mostrando como desigualdades ambientais recaem de forma desproporcional sobre corpos negros e comunidades historicamente marginalizadas.
Balogun não fala do clima como abstração futura, mas como urgência presente. Colonialismo, capitalismo e abandono institucional aparecem como estruturas ativas, não como capítulos encerrados da história. Sua arte atua como tradução sensível de debates que muitas vezes permanecem inacessíveis ou excessivamente técnicos.
Como um dos fundadores do Green Rider, Balogun atua para transformar práticas ambientais e hierarquias no audiovisual, defendendo uma indústria mais sustentável e mais ética. Para ele, a mudança não é apenas técnica, mas cultural, e exige rever a relação entre consumo, status e valor humano.

O futuro que ele aponta
A temporada de Down Cemetery Road encerra com elogios justamente pela colaboração de Fehinti Balogun. Entre grandes franquias, séries autorais, teatro e ativismo, ele constrói uma carreira orientada mais pelo impacto do que pela visibilidade imediata. Seu percurso sugere um caminho possível para o audiovisual contemporâneo: aquele em que entretenimento, consciência social e responsabilidade estética coexistem sem se neutralizar.
Em uma indústria que ainda transforma diversidade em discurso de superfície, Balogun oferece algo mais exigente: representação com consequência.
E isso, no fim, é o que o torna tão difícil de ignorar.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu