O Quebra-Nozes: por que o clássico de 1892 domina o Natal do Municipal

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL e Revista Bravo!

Criado em 1892 para os Teatros Imperiais Russos, O Quebra-Nozes nasce em um contexto curioso. Encomendado a Piotr Ilitch Tchaikovsky, com libreto de Marius Petipa inspirado na adaptação de Alexandre Dumas para o conto de E.T.A. Hoffmann, o balé estreou no Mariinsky, em São Petersburgo, sem grande entusiasmo da crítica. À época, a obra foi vista como excessivamente fragmentada e infantil. O que conquistou o público imediatamente foi a música: a Suíte de O Quebra-Nozes, apresentada ainda naquele mesmo ano em concerto. Só ao longo do século 20 o balé completo seria reavaliado, remontado e enfim consagrado como um dos pilares do repertório clássico.

Mais de um século depois, é justamente essa obra “tardia” no reconhecimento que ocupa o centro da vida artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Desde 2024, a casa apresenta uma nova concepção de O Quebra-Nozes, assinada por Hélio Bejani e Jorge Teixeira a partir de Petipa, com direção de Bejani. A estrutura clássica permanece, mas o eixo dramatúrgico se desloca. A narrativa se torna mais clara e afetivamente engajada: surge o orfanato, o personagem Klaus e uma relação interrompida entre ele e Drosselmeyer. Clara deixa de ser apenas a criança que observa o sonho; ela age, interfere, ajuda o Quebra-Nozes a derrotar o Rei dos Ratos e se torna o verdadeiro elo de transformação da história.

A montagem permanece em cartaz em dezembro, período tradicional do título, com récitas nos dias 13, 14, 17, 18, 19, 20, 21, 23, 26, 27 e 28, além de um ensaio geral aberto no dia 12 e uma apresentação educativa no dia 16, dedicada ao Projeto Escola Arte Educação Petrobras.

A leitura de Bejani privilegia comunicação e pertencimento sem abrir mão do rigor técnico. O primeiro ato caminha para a cena da neve como um clímax sensível, suspendendo a narrativa em um estado quase onírico. No segundo ato, o Reino dos Doces concentra o esplendor visual e coreográfico, culminando no tradicional Grand Pas de Deux da Fada Açucarada e do Príncipe — ponto alto da noite, em que técnica, musicalidade e romantismo encontram resposta imediata da plateia.

A cena da neve, ao final do primeiro ato, é sustentada por figurinos de Tania Agra, cenografia de Manoel Pucci e C. Galdino e desenho de luz de Paulo Ornellas, compondo um dos momentos mais poéticos da encenação.

No palco, a produção reúne Ballet, Coro Feminino e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. O elenco principal se alterna ao longo da temporada. A Fada Açucarada é interpretada por Juliana Valadão, Márcia Jaqueline, Manuela Roçado, Marcela Borges e Tabata Salles; o Príncipe, por Maynard Miranda, Cícero Gomes, Alyson Trindade, Rodrigo Hermesmeyer e Michael Willian. Drosselmeyer fica a cargo de Edifranc Alves, Romilton Santana e Rodolfo Saraiva, enquanto Clara é vivida por Diovana Piredda, Katarina Santos e Pietra Rêgo. Nos papéis do Reino das Neves, Rainha e Rei são interpretados, respectivamente, por Isa Mattos, Manuela Roçado, Marcela Borges e Tabata Salles, e por Alyson Trindade, Owdrin Kaew, Michael Willian e Rodrigo Hermesmeyer.

O impacto dessa versão se manifestou de forma inequívoca ainda em 2024. A temporada entrou para a história recente do Municipal quando os 4.500 ingressos colocados à venda se esgotaram em apenas sete minutos e alguns segundos. Diante da demanda reprimida, a direção decidiu experimentar algo inédito: transmitir o espetáculo ao vivo e gratuitamente em um telão montado na Avenida Treze de Maio, no centro da cidade, entre os dias 19 e 21 de dezembro. Com acesso controlado a 300 espectadores por sessão, a iniciativa marcou uma mudança simbólica — o balé clássico ocupando também o espaço urbano e dialogando com um público além da sala tradicional.

O sucesso foi além do episódio pontual. Ele passou a influenciar diretamente o planejamento do Theatro Municipal. Para 2025, a direção admitiu que dois balés inéditos estavam inicialmente previstos no repertório, mas um deles acabou retirado para garantir o retorno de títulos de apelo consolidado, como O Lago dos Cisnes e, naturalmente, O Quebra-Nozes. A decisão revela o peso artístico e financeiro que o clássico voltou a exercer na engrenagem institucional da casa.

Essa centralidade contemporânea dialoga com um passado sólido. A relação do Municipal com O Quebra-Nozes foi moldada, por décadas, pela versão assinada por Dalal Achcar, criada em 1974. Entre meados dos anos 1970 e o início da década de 2010 — com apresentações recorrentes até 2013 — a montagem estruturou o imaginário natalino da casa. Mais fiel ao cânone tradicional, essa leitura apostava no encantamento clássico, na narrativa burguesa da festa e na vitrine de grandes estrelas da companhia e convidados.

Hoje, entre a memória construída por Dalal Achcar e a releitura contemporânea de Hélio Bejani, O Quebra-Nozes reafirma sua singularidade. Poucos títulos atravessam mais de um século mantendo essa capacidade de adaptação: funcionar como motor financeiro, ferramenta de formação, tradição afetiva e, ao mesmo tempo, espelho das escolhas artísticas de cada época. No Theatro Municipal, o balé deixa claro que não é apenas passado — é presente ativo e estratégia de futuro.


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