Como publicado na Revista Bravo!
Ethan Hawke é desses artistas que atravessam décadas sem jamais se acomodar. Ator, diretor, escritor, inquieto por natureza, sempre orbitou projetos que tratam o cinema – e agora a televisão – como ferramenta de reflexão moral, política e humana. Sterlin Harjo, por sua vez, emergiu como um dos nomes mais importantes da nova televisão americana ao cocriar Reservation Dogs, série revolucionária por colocar personagens, roteiristas e diretores indígenas no centro da narrativa, com humor, dor, afeto e identidade. A produção tornou-se um marco cultural e acumulou prêmios, consagração crítica e uma influência que já pode ser medida com clareza.
Os dois se conheceram antes mesmo de trabalharem juntos em Reservation Dogs. Um amigo em comum apresentou Hawke a um roteiro de Harjo que Hollywood havia recusado justamente por ser contado a partir de um ponto de vista indígena. A afinidade foi imediata. Vieram conversas, colaborações, a participação de Hawke na série que mudaria a carreira de Harjo e, agora, a parceria atinge outro patamar com Verdade Oculta, noir contemporâneo ambientado em Tulsa, onde verdade, memória, política local e obsessão pessoal se misturam de forma incômoda e profundamente humana.

Em The Lowdown, Hawke interpreta Lee Raybon, dono de um sebo e jornalista cidadão que se autodenomina um “historiador da verdade”. O personagem é livremente inspirado em Leroy Chapman, jornalista com quem Harjo trabalhou em Tulsa: um repórter que dirigia uma velha van branca pela cidade, fazia vídeos sobre a verdade, não se importava com dinheiro e se orgulhava de ser o espinho no pé do establishment local. Foi Leroy quem, ao assistir a um curta de Harjo, insistiu para que ele deixasse os vídeos jornalísticos e assumisse de vez a carreira de cineasta – gesto de generosidade que o diretor descreve como decisivo na própria trajetória.
Na série, Lee investiga figuras poderosas da cidade e, ao fazê-lo, desperta forças que preferiam continuar enterradas. The Lowdown estreou nos Estados Unidos pela FX e chega ao Brasil pelo Disney+ em dezembro, sob o título Verdade Oculta, reforçando a aposta da plataforma em dramas de prestígio com assinatura autoral.
Em conversa com a Revista Bravo!, Hawke e Harjo falaram sobre Tulsa como personagem, a crise do jornalismo, o papel da arte em tempos de polarização e a solidão que atravessa o protagonista. A seguir, os principais trechos do encontro.
BRAVO: Vocês criaram uma história noir profundamente enraizada em Tulsa, que soa quase como um personagem. O que foi mais importante ao capturar a atmosfera da cidade e costurar sua história e sua comunidade ao coração da série?
Sterlin Harjo: Bom, eu acho que essa é justamente a chave: precisava ser sobre uma comunidade. Quero dizer, mesmo sendo sobre o Lee, assim como em Reservation Dogs, na verdade é sobre essa comunidade de pessoas que cercam o Lee. E é sobre como elas alimentam a curiosidade dele e fazem ele sair da cama todos os dias. Sabe, é tipo: ‘vou visitar o Cyrus, também conhecido como Killer Mike, vou visitar ele’. Ele está dizendo a verdade do jeito dele e também está tentando consertar a parte da comunidade que cabe a ele por meio do que faz. E são essas pequenas coisas, essa tapeçaria de coisas que eu acho que o Lee vai reunindo — essas pessoas que estão tentando fazer a diferença. Todas elas são meio parecidas com ele, sabe? Acho que até a filha dele, todas são versões dele. E é esse tipo de pessoa que ele quer por perto. E eu faço a mesma coisa. Quer dizer, sou eu mesmo. Eu gosto de “colecionar” essas pessoas que, tipo, como o Ethan, que pra mim é alguém que é um artista. E é por isso que a gente consegue falar de música, de arte, de livros e dessas coisas. E eu tento me cercar dessas pessoas porque isso me faz fazer melhor o que eu faço. E eu acho que o Lee faz isso de uma certa forma. Então mostrar Tulsa foi mostrar a cidade pelos olhos de toda a comunidade. Não só pela política, não só pela comunidade branca, não sei o quê. Foi mostrar tudo, o conjunto todo.”
Ethan Hawke: E o que eu amo nessa pergunta é que eu tenho ouvido, conforme as pessoas assistem, o quanto elas dizem que conseguem sentir o cheiro da cidade, sentir Tulsa. E Tulsa é um personagem. Tulsa é a minha coprotagonista. E todo o crédito vai para a equipe de design de produção.E parte da diversão de estar no set de Reservation Dogs aconteceu de novo aqui, que é o fato de que todas essas pessoas são amigos do Sterlin. São pessoas de quem você gosta. São pessoas com quem você tem história. Então você pode dizer: ‘Ah, não seria legal se aquele pôster estivesse ali na parede?’ Ou: ‘Ah, isso está limpo demais’, ou ‘não está limpo o suficiente’, ou ‘isso não seria assim’. E, desse jeito, toda vez que eu entro no set, eu entro num ambiente real. É muito fácil atuar bem quando o cenário e a atmosfera ao seu redor têm cheiro de coisa real. Quando você precisa fabricar todo esse drama porque o que está ao seu redor é falso, isso é um peso muito maior de carregar. E a equipe ao seu redor é simplesmente fantástica.
Sterlin: É. Quero dizer, não consigo elogiar o suficiente. Todas as críticas que dizem que “é tudo vivido”, seja o figurino, cabelo e maquiagem ou os cenários… Tudo isso é porque todo mundo é extremamente grato por estar trabalhando e fazendo o que está fazendo. Tem séries em que eu assisto e penso: “Isso poderia ter sido feito em qualquer lugar e com qualquer pessoa; todas as roupas parecem recém-compradas, nunca foram usadas”. Aqui é o oposto. Tudo é vivido. Tudo é sobre história. É quase como se todos fossem jornalistas também, tentando chegar ao fundo dos personagens. Eles abordam cada personagem e cada cena assim.

BRAVO: Hoje o mundo parece resistir à verdade. Como vocês enxergam o jornalismo nesse cenário de excesso de informação e ruído constante?
Ethan Hawke: Vou começar porque sou muito grato por essa pergunta. Uma das coisas que não previmos com a internet foi o impacto que ela teria sobre o jornalismo. A ideia de dar voz a todo mundo na internet parecia muito nobre — educação gratuita, igualdade de oportunidades — mas isso gerou um efeito destrutivo que não antecipamos, que é uma espécie de Torre de Babel: todas as vozes falando o tempo inteiro, e o caos que isso cria. É impossível não pensar em filmes como All the President’s Men. Havia uma época em que ser jornalista era visto como algo honrado e como uma salvaguarda essencial da sociedade. Eles levavam isso muito a sério.
E eu amo que, logo na cena de abertura, você vê no Lee um orgulho de ser um jornalista à moda antiga: ‘nós checamos os fatos’, ‘eu revi linha por linha’, ‘ficamos três noites acordados’. Ele não quer simplesmente postar na internet ‘Donald Washburg é um cara ruim’. Ele quer provar. Hoje é muito difícil, tanto para quem está no poder quanto para quem não está, entender como a verdade está sendo manipulada. Quando muito dinheiro está em jogo, as pessoas não gostam que a verdade venha à tona, mesmo quando isso seria o melhor para todos. Muita gente hoje recebe notícia de quem não é jornalista, e isso vem como fofoca. Isso sempre existiu, mas agora ganhou outra dimensão. E não percebemos antes o quanto uma figura quixotesca como o Lee Raybon é essencial para a conversa que precisamos ter hoje. Somos muito gratos por lançar essa série agora.
Sterlin Harjo: Às vezes podemos olhar para jornalistas e parece que é quase um super-herói colocando uma capa. Mas estamos num período em que vemos tudo agora, sabe? Nós somos só pessoas normais. E jornalistas também são. E acho que mostrar… contar a história de uma pessoa real, tipo: este é um jornalista. Não é “eu chego aqui, estou na redação e tenho minhas grandes pautas quentes”. Não é bem assim hoje em dia, sabe? Mas a ideia de ser jornalista ainda é a mesma. É sobre contar a verdade. É sobre encontrar a verdade. É sobre reportar para as pessoas e tentar dar a elas algo que seja preciso, para que elas possam viver a vida delas depois de receber aquela notícia e tentar, sabe, seguir em frente, viver, sobreviver. É algo muito simples. E acho que isso aparece de muitas formas diferentes, mas tem algo realmente… não sei, eu não imaginava que isso seria tão atraente para ele, simplesmente fazer acontecer.
BRAVO: Tulsa carrega um passado doloroso. O que ela simboliza dentro da série?
Sterlin Harjo: Acho que Tulsa, em geral, e lugares como Oklahoma, costumam ser meio esquecidos. E a série fala sobre a nuance da experiência humana e também sobre a nuance de lugares como Tulsa e, para mim, representa os Estados Unidos inteiro. Tulsa é uma palavra nativa, é uma palavra da nação Muskogee Creek, que vem de ‘Tallahassee’. Acho que isso é algo grande para se falar em uma série de TV sobre alguém que apanha por causa da verdade. Mas tudo isso está ali. No fim, é disso que se trata: cura por meio da verdade, lutar pela verdade, e a ideia de que a verdade é algo nobre pelo qual vale a pena lutar. Tulsa representa muito do que são os Estados Unidos. A história racial, a história indígena, o deslocamento forçado, o apagamento. É uma cidade que carrega feridas profundas. Ao mesmo tempo, ela vive um movimento de tentar se curar a partir do momento em que passa a encarar a própria história de frente. Verdade Oculta fala disso: cura através da verdade. Contar a verdade ainda é um ato de coragem.
Ethan Hawke: Tudo isso foi dito de forma linda e tudo é verdade. Mas também é contado pelo olhar do Sterlin, que é incrivelmente engraçado, cheio de amor, sagacidade, peculiaridade e da estranheza de como todos nós somos. Uma das primeiras coisas que o meu personagem fala é que ele se chama de ‘truthstorian’. O que eu amo nessa palavra é que ela junta verdade e história. Se não estamos pisando em um chão firme, não sabemos onde estamos nem para onde devemos ir. Ao mesmo tempo, não é exatamente uma palavra, não faz totalmente sentido, é difícil de dizer. O que é muito parecido com o próprio Lee. Ele é um caos ambulante que tem boas intenções. E isso é o que move o coração da série.

BRAVO: Depois de trabalhar em uma série como essa, vocês ainda acreditam no poder transformador da arte e do jornalismo?
Ethan Hawke: Eu sei que têm. Uma das coisas que posso apontar rapidamente é o seguinte: há uma razão pela qual governos autoritários, sempre que querem afirmar seu poder, tentam dominar as artes. É uma forma de silenciar a conversa. Isso acontece ao longo da história. É uma jogada padrão. Eu sempre acreditei que a comunidade artística e a comunidade intelectual representam a saúde mental de uma sociedade. E, quando ela é livre, expressiva, não tem medo de novas ideias, olha para o seu passado e para o seu futuro, e há muita luz ali, você tem uma saúde mental muito boa. Quando isso escurece, começam a surgir enormes pontos cegos na saúde mental de um país. Então eu simplesmente sei que é poderoso. Vi isso na minha própria vida. De certa forma, sinto que a arte foi muito responsável pela diminuição da homofobia ao longo da minha vida. Quando eu era criança, a homofobia era extremamente intensa. E eu vejo meus filhos crescendo sem viver aquele nível de medo, desconforto e ódio ao outro que era imposto a mim quando jovem. E acho que muito disso tem a ver com literatura, cinema e pessoas conversando. O motivo de isso não ter acontecido em outros lugares é uma conversa mais longa. Mas você vê o efeito na mente e no coração das pessoas quando temos uma boa história sobre saúde mental, por assim dizer.
Sterlin Harjo: Sim. Eu sou um cineasta nativo. Estamos aqui há muito tempo, como povos nativos. Estou fazendo isso há mais de vinte anos. Houve muitos momentos em que parecia que nossas vozes nunca seriam ouvidas. E havia conversas muito sérias sobre como romper essa barreira, como fazer isso. Parecia que não havia jeito, que ninguém se importava. Eu participei de reuniões em Hollywood em que ouvi: “Filmes nativos não vendem, não podemos financiar seu filme.” E isso era muito sombrio. Mas Reservation Dogs foi feita, sabe? Aconteceu. E continua acontecendo, de novo e de novo. Existem períodos escuros, sim. O jornalismo é um lugar muito difícil para se estar agora. Mas ele vai sair disso e vai ajudar a nos guiar. E as artes também vão continuar nos guiando, porque precisam. É para isso que elas existem.

BRAVO: A série trata muito da solidão do protagonista. Como isso foi pensado?
Ethan Hawke: Acho que, estranhamente, a obsessão do Lee pela literatura e pela importância de expressar ideias, pela ideia de que expressar ideias é algo valioso, isso comunica alguém em contato com a própria solidão e confortável com a própria solidão.
Você está absolutamente certa: é por isso que a ficção é uma forma de arte diferente, porque é uma arte tão privada, enquanto o audiovisual…Eu fico pensando em muitas coisas diferentes. É uma pergunta muito difícil.
STERLIN: Acho que ele também está criando uma vida, com a comunidade, de novo. Porque ele não está necessariamente sozinho: ele tem o Cyrus, e ele tem… ele não precisa… tem o segurança nativo.
ETHAN: Ele fica desconfortável quando está sozinho, sabe? Ele gosta de ter gente por perto. E isso também comunica solidão, de um jeito. Ele tem medo de ficar sozinho. Mas há esses planos maravilhosos do Lee no apartamento dele, que eu adoro, em que você sente que ele passa muito tempo ali.
STERLIN: E eu acho que, sabe, eu e o Ethan somos pais, e meio que fazemos coparentalidade. Então há momentos em que seus filhos estão com o outro pai ou mãe, e isso é um período solitário, sabe? E o Lee meio que se distrai trabalhando em suas obsessões, sabe? Acho que isso também faz parte. E, também, eu falei com a família do Leroy, respondendo à pergunta ali de trás: nós estávamos em comunicação, eles estão na série, muitos amigos estão na série, e muitas coisas dele também estão na série. Então fica aqui o reconhecimento.
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