Republicado em homenagem aos 250 anos de Jane Austen
Jane Austen nunca precisou de vilões góticos ou de ameaças grandiosas para criar tensão em suas histórias. Seus antagonistas estão sempre muito próximos: são vizinhos, parentes, pretendentes elegantes ou senhoras autoritárias que, com um sorriso polido ou um gesto de arrogância, se tornam obstáculos silenciosos para o amor e a integridade de suas heroínas. Em vez de monstros, Austen nos dá pessoas comuns, envoltas no verniz do que a sociedade de sua época mais valorizava — fortuna, charme, posição social, polidez — mas incapazes de sustentar essas aparências quando confrontadas pela verdade.
O que torna esses personagens tão duradouros não é a maldade explícita, mas a maneira como, pouco a pouco, suas máscaras se desfazem. Cada um deles — de Wickham a Lady Susan, de Willoughby aos Crawfords, de William Elliot ao General Tilney — revela o mesmo contraste fundamental: aquilo que parece virtude por fora, mas que, por dentro, se mostra vazio. Austen, com delicadeza e ironia, não os destrói com violência; apenas os expõe até que reste o que realmente são. E, nesse gesto, faz mais do que criticar indivíduos: desvela uma sociedade inteira construída sobre aparências frágeis.s profundas.
Orgulho e Preconceito
George Wickham é talvez o antagonista mais carismático de Orgulho e Preconceito. Com fala suave, aparência distinta e uma boa dose de charme, ele conquista a confiança de Elizabeth e a simpatia de toda Meryton. Seu interesse, no entanto, nunca foi o amor verdadeiro, mas a vantagem pessoal, seja financeira ou social. A queda de Wickham se dá não em uma ruína pública, mas na revelação de sua leviandade — ao seduzir Lydia sem intenção de casamento. É nesse momento que sua máscara cai, e Austen expõe com clareza a fragilidade de um homem que dependia apenas das aparências.
Lady Catherine de Bourgh, por outro lado, encarna o peso da hierarquia social. Orgulhosa de sua linhagem e de suas posses, ela vê em Elizabeth uma ameaça à ordem que considera natural: aquela em que a fortuna e o nome determinam destinos. Sua interferência no romance da sobrinha com Darcy é autoritária e rude, mas fracassa de forma quase cômica. Quanto mais insiste em impor sua vontade, mais fortalece a união dos dois jovens. Austen mostra, assim, que a arrogância de classe não resiste ao poder discreto da integridade.

Mrs. Bennet, embora não seja mal-intencionada, cumpre um papel de antagonista para as filhas ao representar o lado mais superficial da vida social. Obcecada por casamentos vantajosos, movida pela ansiedade de garantir futuro às meninas, sua insistência sufocante cria embaraços e reforça preconceitos contra a família. Sua queda é simbólica: quanto mais fala, mais expõe sua vulgaridade diante da sociedade. Austen a retrata com certo carinho, mas deixa claro como a falta de decoro pode ser tão limitadora quanto a arrogância aristocrática.
Lydia Bennet é, em si mesma, um obstáculo. Sua imprudência, vaidade e inconsequência não apenas a expõem ao escândalo, mas comprometem a reputação de todas as irmãs. Seu interesse é puramente juvenil: diversão, danças, atenção masculina. Sua queda — a fuga com Wickham — não é apenas pessoal, mas coletiva, atingindo toda a família. Austen não a trata com crueldade, mas mostra como a ausência de reflexão pode ter consequências devastadoras em uma sociedade onde a honra feminina era tudo.
Mr. Collins, o pastor bajulador, completa esse quadro. Como antagonista, ele não traz perigo real, mas sim constrangimento. Seu interesse está em garantir segurança social por meio de um casamento com Elizabeth — proposta feita com tanta autossuficiência que chega a ser risível. Sua queda é imediata: a recusa de Elizabeth, que desarma sua confiança cega. Mais tarde, ao casar-se com Charlotte Lucas, Mr. Collins confirma aquilo que Austen critica com sutileza: o casamento visto como transação, sem afeto nem integridade.
Razão e Sensibilidade
John e Fanny Dashwood são os primeiros antagonistas de Razão e Sensibilidade, e sua presença pesa desde as primeiras páginas. Movidos pelo cálculo frio do interesse próprio, eles transformam o desejo de um pai em letra morta. O que deveria ser um amparo às irmãs Dashwood se converte em uma desculpa interminável para nada lhes dar. O interesse do casal está em preservar e aumentar a própria fortuna, sem dividir com quem, pela lógica da generosidade, mais precisaria. Sua “queda” não vem em escândalo público, mas na própria caracterização que Austen lhes dá: um retrato quase glacial de um casamento sem afeto, sustentado apenas pelo egoísmo compartilhado.

Willoughby surge como a encarnação perfeita do ideal romântico de Marianne: belo, espirituoso, amante da poesia e da música, capaz de falar a mesma língua da sensibilidade. Seu interesse, à primeira vista, parece genuíno: ele se apaixona, seduz, envolve-se em gestos de ternura. Mas logo se revelam sua inconsequência e sua fraqueza diante da pressão social. Ao escolher uma herdeira rica em vez de Marianne, Willoughby se trai a si mesmo. No reencontro tardio, suas desculpas soam verdadeiras: ele realmente teria amado Marianne, mas não foi capaz de sustentar esse amor contra a conveniência. Austen não o absolve — sua punição é viver em um casamento sem amor, sempre com a lembrança amarga do que perdeu —, mas lhe concede uma dimensão rara entre seus antagonistas: a de um homem arrependido, que teve nas mãos a felicidade e a deixou escapar. Essa ambiguidade abre espaço para leituras que o enxergam não apenas como um vilão, mas como um reflexo de paixões frágeis e covardes.
Lucy Steele é o contraponto calculista, fria onde Willoughby é fraco. Seu interesse é exclusivamente estratégico: prende Edward Ferrars em um noivado secreto para assegurar o futuro, manipulando situações com falsa doçura e uma habilidade incômoda para intriga. O choque maior se dá quando, percebendo que Edward não lhe trará prestígio, transfere-se sem remorso ao irmão dele. Sua queda é moral: aos olhos da sociedade, sua esperteza pode até parecer triunfo, mas Austen revela que é apenas mediocridade, uma vitória sem grandeza. Lucy não é destruída pela narrativa — ao contrário, encontra estabilidade —, mas, aos olhos do leitor, permanece pequena, reduzida a uma vida movida por cálculos e não por afetos.
Emma
Emma inverte o jogo. Frank Churchill, com seu charme e segredos, engana e diverte à custa dos outros, mas é a própria Emma que se torna antagonista de si mesma. Sua vaidade, sua convicção de que controla os destinos alheios, quase arruína a vida de Harriet. Sua queda não é uma humilhação pública, mas a dolorosa percepção do mal que causou. Austen, generosa, não a destrói: permite que aprenda e amadureça.
Frank Churchill é um dos antagonistas mais sutis e fascinantes do universo de Austen. Filho de Mr. Weston, mas criado distante do pai, na casa da família adotiva Churchill, ele carrega desde cedo a marca de uma educação feita de privilégios e concessões. Essa criação indulgente o transformou em alguém espirituoso, encantador e socialmente hábil — mas também em um homem acostumado a escapar das consequências. Seu interesse real é Jane Fairfax, pela qual nutre uma paixão verdadeira, mas que, por estar secretamente comprometido com ela, escolhe mascarar o sentimento. Para desviar atenções, Frank se aproxima de Emma, alimenta insinuações, e cria um caos desnecessário que confunde sentimentos e expectativas.

A leveza com que conduz esse jogo quase arruína Harriet, reforçando a teia de mal-entendidos em torno da heroína. Sua “queda” é discreta: quando a verdade do noivado vem à tona, sua imagem de cavalheiro espirituoso revela-se de alguém que usou charme para manipular e proteger interesses pessoais. Austen não o demoniza — ao contrário, dá-lhe o final feliz com Jane —, mas deixa claro que sua simpatia era tão enganadora quanto perigosa. Ele pertence à galeria de vilões sedutores da autora: não cruéis, mas capazes de desestabilizar corações e narrativas com a leveza de um sorriso.
Emma Woodhouse, porém, é a verdadeira antagonista de si mesma. Rica, bonita e inteligente, ela cresce acreditando que pode ler e conduzir os destinos alheios. Seu interesse inicial não é maldoso, mas nasce de uma mistura de vaidade e autoconfiança: manipular as afeições de Harriet Smith, intervir nos encontros, brincar de cupido. Austen faz da heroína uma espécie de aprendiz que, ao tentar moldar o mundo ao seu redor, revela suas próprias falhas.
Sua “queda” não é uma punição externa, mas um despertar moral: a consciência de que feriu Harriet e de que seu orgulho a cegou. Austen, com empatia, concede-lhe a chance de aprender — e o amor de Knightley só se concretiza quando Emma reconhece suas imperfeições. Nesse sentido, Emma é uma heroína-antagonista, um lembrete de que o maior perigo, muitas vezes, está na vaidade e no autoengano.

Mr. Elton é o pastor de Highbury e, a princípio, parece uma escolha promissora no jogo de casamentos que Emma imagina para Harriet. Mas Austen rapidamente expõe seu verdadeiro interesse: não Harriet, mas a própria Emma, pela posição social e fortuna que ela representa. Sua declaração precipitada no coche — arrogante e desdenhosa de Harriet — o coloca como antagonista direto das fantasias da heroína. Sua queda é moral e imediata: ao revelar que nunca teve consideração real por Harriet, mas apenas pela ascensão que poderia obter, perde qualquer aura de respeitabilidade. Austen o constrói como figura ridícula, alguém que usa a profissão e a aparência de decoro para mascarar a vaidade e o oportunismo.
Mrs. Elton, introduzida posteriormente, intensifica o caráter antipático do marido. Vinda de uma origem sem grande distinção, mas ostentando uma fortuna conquistada recentemente, Augusta Elton compensa a falta de refinamento com uma arrogância insistente. Seu interesse, ao se instalar em Highbury, é afirmar-se como centro da vida social: distribui conselhos, busca impor sua influência sobre Jane Fairfax e age com uma condescendência sufocante. Sua “queda” não é dramática, mas se dá na percepção contínua de sua vulgaridade, na forma como suas palavras e atitudes a tornam persona non grata para os que a cercam. Austen a desenha com um humor quase cruel, uma das caricaturas mais detestáveis de sua obra, justamente porque ela encarna a mistura de pretensão e vazio que a autora tanto ironizava.
Jane Fairfax não é antagonista por intenção, mas cumpre um papel de contraste que a torna quase uma adversária indireta de Emma. Refinada, reservada e de uma modéstia elegante, ela representa tudo aquilo que a heroína não é: disciplinada onde Emma é impulsiva, digna onde Emma é vaidosa. Sua mera presença provoca desconforto em Emma, que a observa com certo ciúme e frieza, como se a virtude silenciosa de Jane fosse uma acusação velada. O segredo do noivado com Frank Churchill, mantido com esforço doloroso, a coloca em tensão constante, expondo a diferença entre a frivolidade de Emma e a gravidade das escolhas que recaem sobre mulheres sem fortuna. Sua “queda” é apenas aparente: o desgaste de manter o segredo e a humilhação implícita de não poder ser transparente. Mas, no fim, Austen a preserva com dignidade, usando-a como um espelho moral que ajuda a desnudar as fragilidades da própria protagonista.
Assim, em Emma, Austen cria uma constelação de antagonistas — Frank Churchill, Mr. Elton, Mrs. Elton e até a própria Emma — cada um representando uma falha diferente: a duplicidade, o oportunismo, a vulgaridade e o autoengano.
Mansfield Park
Henry Crawford é um dos antagonistas mais intrigantes de Austen. Belo, espirituoso e com um talento nato para seduzir, ele transforma o flerte em esporte. Seu interesse inicial por Fanny Price nasce do mesmo impulso inconsequente que o guia em toda a vida: provar seu poder de conquista. Mas algo nele muda ao longo do jogo — Henry de fato começa a se apaixonar por Fanny, atraído justamente pela integridade e firmeza moral que a distinguem.
Alguns leitores e críticos chegam a considerar esse amor verdadeiro, como se Fanny fosse a chance de redenção que ele desperdiçou. Quando é rejeitado, sua vaidade ferida o empurra para a pulsão destrutiva que culmina no adultério com Maria Bertram. É como se a recusa de Fanny tivesse revelado sua incapacidade de sustentar sentimentos sérios: ao não suportar a derrota, ele retorna à frivolidade que o define, arruinando não apenas a si mesmo, mas a honra da prima de Fanny. Sua queda é, portanto, a revelação de que charme sem princípios não sobrevive ao menor embate com a realidade.

Mary Crawford é, em contraste, mais calculista. Inteligente, espirituosa e dotada de um brilho social irresistível, ela representa o mundo mundano em que aparência e conveniência se sobrepõem à moralidade. Seu interesse por Edmund Bertram é sincero, mas nunca se separa de sua ambição: ela o ama, mas deseja que ele se torne um líder religioso prestigioso, uma figura de status que combine com seu próprio ideal de ascensão.
Sua queda é menos escandalosa que a do irmão, mas igualmente definitiva: ao mostrar que prefere fechar os olhos ao adultério de Henry do que perder a oportunidade de manter laços vantajosos, ela se distancia irremediavelmente de Edmund e de Fanny. Austen a retrata com ironia e até com certa ternura, mas a condena pela incapacidade de conciliar amor e princípios.
Mrs. Norris, tia de Fanny, é talvez a antagonista mais odiosa do livro, mesmo sem o brilho dos Crawfords. Sua maldade é miúda, cotidiana, mas devastadora: parcial com os sobrinhos ricos, cruel com Fanny, bajuladora com os poderosos. Seu interesse é apenas a autopreservação dentro da hierarquia da família, alimentando-se da dependência que tem dos Bertram. Sua “queda” é a mais dura: após o escândalo de Maria, ela é afastada do convívio social e obrigada a viver isolada, condenada pela própria pequenez. Austen a pinta sem nenhuma indulgência, como a caricatura viva da mesquinhez.

Sir Thomas Bertram, o tio de Fanny, ocupa um espaço ambivalente. Não é um vilão, mas, em muitos momentos, funciona como antagonista: sua rigidez, sua autoridade severa e sua cegueira diante do caráter dos filhos permitem que a família se deteriore moralmente. Seu interesse está na manutenção da ordem, da fortuna e da reputação da casa, mas não na felicidade íntima de cada membro. Ele chega a pressionar Fanny para aceitar Henry, sem perceber que a jovem valoriza integridade acima de conveniência. Sua “queda” é silenciosa, marcada pelo choque ao ver o colapso moral dos próprios filhos. Austen o redime parcialmente no final, quando reconhece a virtude de Fanny, mas não deixa de mostrar que sua autoridade patriarcal contribuiu para o ambiente que possibilitou a ruína.
Persuasão
William Elliot, primo e herdeiro da família, é o antagonista mais direto de Persuasão e, ao mesmo tempo, um dos mais enigmáticos de Austen. Polido, atencioso e de modos irrepreensíveis, ele surge como um contraste absoluto ao pai e às irmãs de Anne: parece escutá-la, respeitá-la e até valorizar sua inteligência e sensibilidade. Não é impossível que houvesse algum apreço verdadeiro por ela, talvez uma admiração pela firmeza de caráter que faltava a todos ao seu redor. Mas, no fundo, o que move William é o cálculo: assegurar-se como herdeiro, impedir que Mrs. Clay comprometa sua posição, manter o controle sobre a família Elliot. Quando suas intenções são reveladas, o encanto se desfaz, e fica claro que qualquer traço de afeto que pudesse existir jamais superaria a conveniência. Sua “queda” é a perda da máscara, que expõe não apenas um homem frio, mas o retrato de uma sociedade em que até a afeição mais delicada podia ser contaminada pelo interesse.
Sir Walter Elliot, pai de Anne, é a imagem perfeita da futilidade aristocrática. Obcecado com o espelho, com títulos de nobreza e com a própria genealogia, ele não enxerga valor em nada que não seja prestígio exterior. Seu interesse não é diretamente contra Anne, mas sua atitude constante de desprezo pela filha e pela simplicidade da vida a coloca em posição de antagonismo. Ao recusar a ouvir sua voz e ao relegá-la a uma posição inferior dentro da própria família, Sir Walter se torna obstáculo para a felicidade da heroína. Sua “queda” é simbólica: permanece prisioneiro da vaidade, incapaz de perceber que sua arrogância não o protege do ridículo, mas o expõe como caricatura de uma aristocracia em declínio.

Elizabeth Elliot, a irmã mais velha, herda do pai a mesma vaidade e superficialidade. Ela não se preocupa com Anne, trata-a como invisível, e sua vida gira em torno da posição social que acredita merecer. Seu interesse é manter status e prestígio, pouco importando laços de afeto. Sua “queda” é parecida com a do pai: Austen não a arruína, mas a mostra presa em uma existência estéril, sem a profundidade emocional que caracteriza a heroína.
Mary Musgrove, a irmã mais nova, é diferente: ela não é vilã, mas cumpre papel de antagonista indireta. Hipocondríaca, egocêntrica e sempre em busca de atenção, transforma Anne em confidente e criada, drenando sua energia e obscurecendo seu espaço. Seu interesse é ser centro de todas as atenções, e sua “queda” é apenas a exposição da própria insignificância: Austen a pinta com humor, como alguém que nunca cresce.
Northanger Abbey
John Thorpe é, em aparência, o antagonista mais direto. Vulgar, barulhento, mentiroso compulsivo, representa o oposto da delicadeza e da imaginação de Catherine Morland. Seu interesse é puramente superficial: aproximar-se de Catherine pelo dote que acredita que ela terá, exibir-se como pretendente e ostentar uma masculinidade vazia feita de bravatas. Austen o descreve sem piedade: ele mente sobre amigos, inventa compromissos, exagera em tudo. Sua “queda” é rápida e quase ridícula — Catherine o percebe como inconveniente e desonesto, e o leitor o enxerga como caricatura do que há de mais tosco na sociedade. Thorpe não ameaça de fato, mas simboliza a mediocridade que Austen adorava expor.

A imaginação de Catherine Morland, no entanto, é o verdadeiro antagonista do romance. Fascinada por romances góticos, Catherine projeta conspirações sombrias nos corredores da abadia: suspeita de assassinatos, prisioneiros e segredos terríveis envolvendo o general Tilney. Esse excesso de fantasia a cega para o que realmente acontece ao seu redor, colocando-a em situações de constrangimento. Sua “queda” é íntima: o vexame de descobrir que não havia crime algum, que o vilão não existia senão em sua imaginação. Mas Austen a trata com ternura — Catherine não é ridicularizada, e sim amadurecida. O erro a torna mais consciente, mais atenta ao mundo real e, por isso, mais preparada para amar e ser amada.
General Tilney, por fim, é uma figura que oscila entre antagonista gótico e pai pragmático. Austero, controlador, chega a parecer, aos olhos de Catherine, um vilão de romance sombrio. Mas sua verdadeira natureza é menos espetacular e mais social: o interesse em riquezas e conexões matrimoniais. Ao acolher Catherine na abadia acreditando que ela é rica e depois expulsá-la ao descobrir o contrário, ele se revela não como monstro, mas como retrato cruel da ganância e do cálculo. Sua queda é discreta: ao fim, precisa aceitar a união entre Catherine e Henry, mostrando que sua rigidez não pode vencer o afeto.
Lady Susan
Lady Susan Vernon é única na galeria de Austen, porque concentra em si mesma tanto o brilho quanto a perversidade social que em outros romances estão espalhados entre vários personagens. Viúva elegante, sedutora e extremamente inteligente, ela manipula todos ao seu redor com uma frieza calculada. Seu interesse nunca é o afeto verdadeiro, mas a conveniência: busca um bom casamento para si mesma, ao mesmo tempo em que incentiva a filha, Frederica, a se unir a um pretendente que ela detesta, apenas para livrar-se da responsabilidade de criá-la. Lady Susan encanta pela retórica — suas cartas revelam uma mente sagaz, irônica e consciente da própria habilidade de enganar. Sua “queda” é relativa: embora não seja punida com ruína, termina reduzida a um casamento de menor prestígio, ainda sustentando a máscara de triunfo. Austen, nesse retrato satírico, mostra o que acontece quando o cálculo e a manipulação não são apenas traços secundários, mas a essência de uma personagem. Lady Susan é a antagonista de todos — da filha, das rivais, dos homens que conquista — e, ao mesmo tempo, a protagonista da própria história.

Os antagonistas de Jane Austen, em todas as suas formas — do sedutor inconsequente como Wickham ao calculista frio como William Elliot, da arrogante Lady Catherine à vulgar Mrs. Elton, da manipuladora Lady Susan ao General Tilney pragmático — partilham uma essência comum: são figuras moldadas pelo brilho exterior, mas frágeis na integridade. Eles vivem do que a sociedade mais valorizava: riqueza, posição, aparência, charme. Mas, nas mãos de Austen, esse verniz é sempre exposto como insuficiente.
Cada “queda” é menos um castigo imposto pela narrativa e mais um desnudamento moral. Wickham não é derrotado, apenas revelado. Willoughby não é arruinado, mas condenado ao vazio de sua escolha. Henry Crawford, que poderia ter se redimido, retorna ao ciclo da frivolidade. William Elliot, apesar da elegância, perde credibilidade ao ser descoberto. Lady Susan, mesmo mantendo sua pose, termina encolhida em um destino menor. Austen nunca grita, nunca pune com violência — apenas mostra como a máscara social, uma vez iluminada, não resiste ao olhar atento.
E, nesse gesto, ela traça com carinho e ironia o retrato das falhas humanas. Não há monstros em seus salões, mas pessoas comuns, reconhecíveis, movidas por egoísmo, vaidade, medo ou conveniência. O antagonismo, em Austen, é sempre humano, cotidiano, quase banal. Justamente por isso é tão duradouro: porque nos obriga a reconhecer, sob a superfície polida, o que permanece universal — a eterna tensão entre aparência e verdade, cálculo e afeto, conveniência e integridade.
No fim, Austen nos lembra que seus verdadeiros heróis e heroínas não vencem pela força ou pelo brilho, mas pela constância de caráter. A integridade, em sua literatura, é sempre a maior vitória — e os antagonistas, em sua queda silenciosa, revelam o quanto essa virtude é rara, preciosa e revolucionária.
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