Por que Kit Harington não quer mais ser Jon Snow

Sete anos depois do fim de Game of Thrones, talvez o gesto mais honesto não seja insistir em corrigir Westeros, mas aceitar que aquela história se encerrou, com todos os seus erros, frustrações e escolhas apressadas. Chega de reclamar do final como se ainda houvesse algo a ser refeito. Kit Harington parece ter entendido isso antes de muita gente.

Enquanto parte do fandom ainda sonha com uma oitava temporada alternativa, o ator que viveu Jon Snow por dez anos constrói um caminho oposto: o do afastamento consciente. Não por ingratidão, mas por maturidade artística e pessoal. O “não” que ele repete hoje não soa como rejeição à série que o revelou, e sim como um limite necessário.

Em entrevista recente à Variety, durante a divulgação da nova série de audiobooks de Harry Potter da Audible, Harington foi questionado sobre quem deveria narrar Jon Snow caso um audiobook de Game of Thrones fosse produzido. A resposta veio direta, quase instintiva: “Não, Deus me livre. Não quero chegar nem perto disso. Passei dez anos fazendo isso. Obrigado, estou bem.”

O contexto importa. Harington já falou abertamente sobre o peso de interpretar Jon Snow por uma década e sobre como esse período coincidiu com crises pessoais, incluindo questões de saúde mental e alcoolismo. O afastamento atual não é apenas criativo — é também um gesto de preservação. Mesmo uma participação pontual, como um audiobook, parece reabrir algo que ele prefere manter no passado.

Ao mesmo tempo, é revelador observar para onde Harington decidiu se mover. Ele acaba de ingressar em outro universo mítico de proporções globais: Harry Potter. Nos audiobooks da Audible, dá voz a Gilderoy Lockhart, personagem vaidoso, charlatão e tragicômico, eternizado no cinema por Kenneth Branagh. Não é um herói atormentado, mas uma sátira sobre ego, fama e autoilusão.

O próprio ator reconhece isso. Fala de Lockhart como uma fábula sobre hubris no meio criativo, sobre a armadilha de acreditar na própria imagem pública. Admite, com humor, que há mais de um pouco de Lockhart nele mesmo. É uma escolha simbólica: sair do peso trágico de Jon Snow para um personagem que expõe, em chave cômica, as ilusões da celebridade.

Esse deslocamento se repete em sua carreira recente. Harington construiu, após Game of Thrones, um percurso deliberadamente fragmentado: Marvel (Eternals), televisão autoral (Industry), participações pontuais, audiobooks, agora uma adaptação ambiciosa de A Tale of Two Cities para a BBC e MGM+, na qual também atua como produtor. Ele segue trabalhando intensamente — só não aceita mais ser definido por um único papel.

A história do spin-off de Jon Snow ajuda a ilustrar esse esgotamento. Anunciado em 2022, o projeto foi oficialmente engavetado em 2024 por falta de um caminho criativo claro. Executivos da HBO chegaram a dizer que “talvez tentem novamente”, enquanto George R.R. Martin mencionou, em 2025, que “um ou dois” projetos de sequência estão em desenvolvimento. Ainda assim, à luz das declarações recentes de Harington, parece cada vez mais improvável que ele esteja envolvido.

E talvez isso seja natural. O elenco original se dispersou, as agendas se multiplicaram e o próprio universo de Westeros encontrou novos eixos narrativos. House of the Dragon e A Knight of the Seven Kingdoms expandem o mundo sem tocar no nervo exposto do final original. Não tentam consertar Game of Thrones. E talvez essa seja a decisão mais inteligente.

O incômodo persiste porque vivemos numa era obcecada por correções retroativas, versões alternativas e finais regraváveis. Game of Thrones, no entanto, terminou de forma quase brutalmente clássica: com erros, escolhas discutíveis e consequências definitivas. Não há volta confortável para isso — nem para a história, nem para quem a viveu por dentro.

Sete anos depois, parar de reclamar não significa absolver o final. Significa reconhecer que aquela narrativa se encerrou e que insistir em reabri-la diz menos sobre a série e mais sobre nossa dificuldade de aceitar finais imperfeitos.

Kit Harington seguiu em frente. Talvez esteja na hora de Westeros fazer o mesmo.


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