Chinatown: o noir de 1974 que David Fincher quer revisitar

Poucos filmes ajudam a entender por que o cinema dos anos 1970 ainda parece tão difícil de superar quanto Chinatown — a ponto de ser citado com destaque no documentário sobre 1975 atualmente disponível na Netflix. Não apenas pelo rigor formal ou pela combinação rara de talentos envolvidos, mas porque o filme nasce de um problema real — histórico, urbano e político — e encontra uma forma narrativa capaz de expô-lo sem jamais simplificá-lo. Chinatown não promete justiça, nem redenção. Oferece compreensão. E deixa claro que compreender tem custo.

Em Hollywood, porém, toda obra canônica carrega uma tentação quase inevitável: prolongar sua vida por meio de sequências, refilmagens ou prequelas. No caso de Chinatown, a sequência fracassou — The Two Jakes (1990), o único filme dirigido por Jack Nicholson — e a préquela, desenvolvida desde 2019 por David Fincher e escrita por Robert Towne, permanece em pré-produção. Tecnicamente, trata-se de um projeto possível, não confirmado. Editorialmente, no entanto, ele revela algo mais interessante: Chinatown nunca foi um filme encerrado.

De onde veio Chinatown

O ponto de partida de Robert Towne para Chinatown nunca foi “fazer um noir elegante”. Towne queria escrever um filme de detetive ancorado em um crime estrutural, algo que não pudesse ser resolvido com a identificação de um culpado isolado. A referência foi a história real das guerras da água na Califórnia: o desvio das águas do Owens Valley para abastecer a expansão de Los Angeles, conduzido por homens poderosos que enriqueceram comprando terras e direitos hídricos enquanto comunidades inteiras eram sacrificadas.

Transformar isso em narrativa foi o grande impasse. Água, terra, infraestrutura e decisões administrativas não se prestam naturalmente ao suspense clássico. Towne passou anos reescrevendo, errando e travando. A solução foi deslocar o foco: em vez de explicar o sistema, colocar um personagem dentro dele e acompanhar sua perda progressiva de controle.

O detetive como limite

Jake Gittes entra em cena como alguém que acredita dominar o jogo. Detetive particular especializado em casos de adultério, elegante, espirituoso, seguro de si. Jack Nicholson constrói Gittes como um homem que confia na leitura das pessoas e na própria inteligência. É essa confiança que o filme passa a desmontar.

O caso que começa pequeno — seguir um funcionário público suspeito de traição — se expande para um emaranhado de interesses envolvendo água, terra, dinheiro antigo e poder político. Cada descoberta não aproxima Gittes da justiça; apenas revela o quão irrelevante ele é diante do sistema. Chinatown não é sobre solucionar um crime, mas sobre aprender os limites da ação individual.

Los Angeles como cidade sem memória

Towne sempre descreveu Los Angeles como uma cidade de transientes, um lugar onde pessoas chegam para recomeçar e apagar o passado. Isso não é detalhe sociológico: é o motor dramático do filme. Crimes como os de Chinatown só prosperam em uma cidade onde não há memória coletiva forte, onde a violência pode ser normalizada como progresso.

A água é o símbolo perfeito dessa lógica. Transparente, vital, aparentemente neutra — mas carregada de decisões violentas e interesses privados. O filme transforma infraestrutura em narrativa e faz da cidade não apenas cenário, mas cúmplice.

O rigor de Polanski

A entrada de Roman Polanski é decisiva. Sua principal escolha não é estética, mas estrutural: o filme nunca abandona o ponto de vista de Gittes. O espectador descobre as coisas quando ele descobre, nunca antes, nunca depois. Não há planos paralelos que ofereçam vantagem moral ou explicação externa.

Esse rigor cria uma experiência particular: acompanhamos o protagonista e, ao mesmo tempo, somos aprisionados por suas limitações. O noir deixa de ser apenas um estilo e se torna uma forma de percepção. Saber não significa poder agir.

Evelyn Mulwray e o núcleo trágico

Quando Evelyn Mulwray surge, interpretada por Faye Dunaway, o filme se apoia na expectativa clássica da femme fatale para depois subvertê-la. Evelyn não é manipuladora; é alguém tentando sobreviver dentro de um sistema que a esmagou desde a origem.

A revelação do incesto — uma das mais perturbadoras do cinema americano — não funciona como choque gratuito. Ela explicita o tema central do filme: o poder que invade todas as esferas, inclusive a família e o corpo. Evelyn é a única personagem que tenta interromper o ciclo. E é eliminada por isso.

Noah Cross e a permanência do poder

Noah Cross, vivido por John Huston, não se comporta como um vilão tradicional. Ele não se esconde, não se explica, não teme consequências. Representa o poder que se considera natural, hereditário, inevitável.

Quando Cross sai impune, Chinatown formula sua tese mais dura: sistemas não colapsam quando expostos. Eles se ajustam e seguem funcionando.

O final que precisava existir

O desfecho em Chinatown foi motivo de conflito entre Towne e Polanski. Towne imaginava um final igualmente sombrio, mas mais elaborado. Polanski insistiu em algo simples e seco. Com o tempo, o roteirista reconheceu que o diretor estava certo. Depois de uma trama tão complexa, o filme precisava de um encerramento direto, quase banal.

Forget it, Jake. It’s Chinatown” não é ironia. É diagnóstico. É o reconhecimento de que há espaços onde a lógica da justiça não opera. E é uma das frases mais icônicas do Cinema.

A sequência e o impasse da trilogia

Towne chegou a imaginar Chinatown como parte de um arco maior sobre a corrupção de Los Angeles ao longo do século 20. A continuação, The Two Jakes (1990), escrita por ele e dirigida por Nicholson, mostra Gittes em 1948: mais velho, confortável, integrado ao establishment.

A recepção foi morna, o resultado comercial decepcionante e qualquer plano para um terceiro filme — às vezes chamado de Gittes vs. Gittes — foi abandonado. Não porque a ideia fosse ilegítima, mas porque o filme definitivo já havia sido feito. Repetir Chinatown era impossível.

Por que Chinatown é um dos grandes noirs

Porque ele entende que o mal moderno não é espetacular, mas administrativo. Que a corrupção funciona melhor quando é eficiente. E que a verdade, sozinha, não garante reparação. Chinatown redefine o noir ao retirar dele qualquer promessa de conforto.

Sua influência atravessa décadas de thrillers políticos e narrativas conspiratórias. Ele não copia o noir clássico; leva o gênero ao limite lógico.

O projeto de David Fincher

É nesse contexto que surge, em 2019, o projeto de préquela desenvolvido por David Fincher com Towne para a Netflix. A proposta não é revisitar o mistério do filme nem repetir seus vilões. É acompanhar um Jake Gittes jovem, ainda acreditando que método, ética e inteligência bastam.

Towne confirmou, antes de falecer em 2024, que os roteiros estão escritos. O silêncio da Netflix não invalida o projeto; apenas evidencia o quanto ele é pouco conciliador. Não se trata de expandir IP, mas de aprofundar uma ideia: a de que há sistemas que ensinam seus limites cedo, e de forma definitiva.

Um filme que segue ativo

Se o projeto de Fincher para Chinatown ainda não saiu do papel, o original não envelheceu porque nunca ofereceu soluções fáceis. Ele permanece atual porque descreve um mecanismo que reconhecemos. Não como nostalgia, mas como leitura do presente.

Talvez por isso toda tentativa de continuação pareça sempre insuficiente. Porque, no fim, Chinatown nunca foi um lugar específico. Foi sempre a constatação de que entender o mundo nem sempre significa poder mudá-lo.


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