Entramos no ano do centenário de Marilyn Monroe e poucas datas simbólicas soam tão carregadas. Não se trata apenas de lembrar uma atriz famosa, mas de encarar o maior mito já produzido por Hollywood e talvez o mais resistente. Há estrelas que envelhecem com seus filmes, outras com suas imagens. Marilyn atravessa gerações sem pedir licença, despertando as mesmas paixões, projeções e disputas mais de seis décadas depois de sua morte. O mistério que a envolve não diminui com o tempo. Ele cresce. E diz tanto sobre ela quanto sobre nós.

Norma Jeane: a infância sem chão
Marilyn nasceu Norma Jeane Mortenson, em 1º de junho de 1926, em Los Angeles. O nome do pai jamais foi registrado com certeza. A certidão traz “desconhecido”, e o vazio foi preenchido ao longo dos anos por hipóteses que nunca se fecharam. O nome mais citado é Charles Stanley Gifford, executivo da RKO, com quem sua mãe teria se envolvido. Há quem aponte Edward Mortensen, marido da mãe no período, embora exames e cronologia tornem essa versão improvável. Outros nomes surgiram em livros sensacionalistas, sempre sem provas conclusivas. O fato incontornável é que Norma Jeane cresceu sem pai, sabendo apenas que ele existia em algum lugar e que nunca a quis reconhecer. Essa ausência não é um detalhe biográfico. É uma ferida estruturante.
Sua mãe, Gladys Pearl Baker, era técnica de laboratório na RKO e sofria de transtornos psiquiátricos graves, hoje associados à esquizofrenia paranoide. Gladys foi internada pela primeira vez quando Norma Jeane ainda era criança, passou por longos períodos em hospitais psiquiátricos e nunca teve condições de criar a filha.


Norma Jeane foi criada por famílias adotivas, passou por um orfanato e viveu uma infância instável, marcada por mudanças constantes, solidão e relatos posteriores de abuso. Nada disso combina com a imagem que Hollywood venderia depois. E talvez por isso a contradição entre a menina abandonada e a mulher mais desejada do mundo seja tão difícil de acomodar.
De Norma Jeane a Marilyn: a invenção de uma persona
A transformação de Norma Jeane em Marilyn Monroe não foi apenas uma troca de nome. Foi um processo consciente de construção, lapidação e apagamento seletivo. Sob contrato com a Fox, ela tingiu o cabelo, modulou a voz, aprendeu a se mover diante da câmera e, sobretudo, entendeu o que Hollywood queria dela. Marilyn nasceu como um personagem cuidadosamente desenhado para o olhar masculino da época, mas também como uma ferramenta de ascensão social para uma jovem que sabia que, sem essa persona, voltaria à invisibilidade.
Esse processo teve um nome central: Johnny Hyde. Agente poderoso, amante e mentor, Hyde acreditava no potencial de Marilyn quando poucos levavam Norma Jeane a sério. Foi ele quem negociou contratos, abriu portas, ensinou estratégias e tentou protegê-la das armadilhas mais evidentes do sistema. Quando Johnny Hyde morreu repentinamente em 1950, aos 47 anos, Marilyn perdeu não apenas um parceiro amoroso, mas sua principal âncora dentro da indústria. Muitos biógrafos concordam que, se ele tivesse vivido mais, sua trajetória poderia ter sido menos errática e menos solitária.

Hollywood, desejo e controle
Quando Marilyn surge como estrela nos anos 1950, ela não inventa apenas um tipo feminino. Ela redefine o desejo na tela. O corpo curvilíneo, a voz sussurrada, o timing cômico impecável e uma consciência aguda do efeito que produzia fazem dela algo raro: uma sex symbol que entende o próprio mecanismo.
Filmes como Gentlemen Prefer Blondes, How to Marry a Millionaire e The Seven Year Itch consolidaram a persona. Mas foi Some Like It Hot que revelou o que ela sempre soube e poucos quiseram enxergar: Marilyn era uma comediante extraordinária, com domínio absoluto de ritmo, pausa, olhar e subtexto. O riso que ela provocava não vinha da ingenuidade, mas da inteligência.
Esse talento, porém, raramente foi respeitado à altura. Hollywood lidava com Marilyn como um produto extremamente lucrativo, mas descartável. Atrasos no set, crises emocionais e conflitos contratuais eram tratados menos como sinais de adoecimento e mais como falhas de uma mercadoria difícil. Marilyn lutou contra a Fox por melhores papéis, criou sua própria produtora, estudou no Actors Studio com Lee Strasberg e buscou reconhecimento como atriz “séria”. Ela entendia que sua beleza abria portas, mas também as fechava. Sabia que o desejo do público a transformava em mercadoria. E sabia que a indústria preferia a fantasia à mulher real. Essa tensão atravessa toda a sua vida adulta.

Amor, abrigo e repetição do abandono
Na vida pessoal, o mesmo padrão se repete. Marilyn buscava proteção, pertencimento e validação. Foi casada aos 16 anos com o vizinho James Dougherty, uma escolha menos movida por romance do que por sobrevivência: ele podia sustentá-la e oferecer um lar no momento em que seus pais adotivos já não pretendiam mantê-la.
Norma Jeane havia passado por cerca de onze lares adotivos, além de um período em orfanato durante a infância e a adolescência. Os números variam ligeiramente entre biógrafos, já que nem todas as estadias foram oficialmente registradas, mas esse é o consenso histórico. A instabilidade não era exceção em sua vida, era a regra. O casamento com Dougherty chegou ao fim quando Norma Jeane iniciou a carreira como modelo, descoberta que a conduziria ao sonho de se tornar atriz e, ao mesmo tempo, encerraria definitivamente aquela primeira tentativa de abrigo.
Depois, já como Marilyn Monroe, vieram os relacionamentos que o mundo acompanhou com curiosidade e, muitas vezes, crueldade. Houve o namoro com Yves Montand, durante as filmagens de Let’s Make Love, um caso breve e ambíguo que expôs mais uma vez sua solidão dentro de um sistema que misturava desejo, poder e conveniência. Houve também o envolvimento intenso com Frank Sinatra, talvez o romance mais duradouro fora do casamento, marcado por cumplicidade, excessos e tentativas frustradas de proteção.


No campo das especulações mais controversas, persistem até hoje as alegações de relacionamentos com John F. Kennedy e Robert F. Kennedy, histórias jamais comprovadas, mas duráveis porque reforçam a imagem de Marilyn como mulher perigosa por proximidade ao poder.
No casamento, sua trajetória seguiu o mesmo movimento. Joe DiMaggio a amava, mas não suportava a exposição pública e tentou controlá-la. Arthur Miller, seu último marido, a admirava intelectualmente, mas se afastou quando a fragilidade dela se tornou incômoda, incapaz de conciliar a mulher real com o símbolo que o mundo projetava.
Marilyn sofreu abortos espontâneos, enfrentou depressões profundas, desenvolveu dependência de medicamentos prescritos e experimentou uma solidão crescente, mesmo cercada de pessoas. A imagem da mulher desejada por todos ocultava alguém que raramente se sentia verdadeiramente escolhida.
A morte suspeita e o paradoxo final
Sua morte, em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, cristalizou o mito. Marilyn foi encontrada nua em sua casa, sozinha, com o telefone ao lado da cama e frascos de remédios espalhados. A causa oficial foi overdose de barbitúricos, classificada como provável suicídio. Desde então, teorias se multiplicam. Assassinato envolvendo a máfia, encobrimento governamental, silenciamento político, acidente médico. Nenhuma foi comprovada. Todas sobrevivem porque a versão oficial parece simples demais para uma figura tão carregada de simbolismo e porque houve falhas reais na investigação, contradições em depoimentos e pressa em encerrar o caso.


Há também um paradoxo central. No momento de sua morte, Marilyn vivia um declínio profissional concreto. Seus filmes recentes arrecadavam menos, os estúdios a viam como problema, e a imagem pública começava a se desgastar. Sua morte, no entanto, reverteu esse processo instantaneamente. O público voltou a amá-la com intensidade renovada. O fracasso virou injustiça. A instabilidade virou fragilidade poética. A mulher falha virou lenda. A morte interrompeu o desgaste e congelou Marilyn em um ponto eterno de desejo e mistério.
Norma Jeane, Marilyn e a impossibilidade do descanso
O fascínio persiste porque Marilyn concentra contradições que ainda nos inquietam. Ela foi vítima e estrategista. Ingênua e calculista. Forte e quebradiça. Uma mulher que construiu conscientemente uma imagem pública e, ao mesmo tempo, foi esmagada por ela. Tentamos decifrá-la porque queremos resolver esse paradoxo. Queremos acreditar que, ao entender Marilyn, possamos entender algo sobre fama, desejo, misoginia e solidão no mundo moderno.
Não é à toa que sua vida foi recontada tantas vezes. Blonde reduziu Marilyn a sofrimento, apagando sua inteligência e sua agência. My Week with Marilyn ofereceu uma visão mais delicada e humana. Nenhuma obra encerra o enigma.


A pergunta que fica, cem anos depois, não é apenas quem matou Marilyn Monroe. É por que ainda precisamos dessa resposta. Talvez porque aceitar que ela morreu sozinha, exausta e mal cuidada por um sistema que a explorou seja mais perturbador do que imaginar um complô. Marilyn pediu, em sua última entrevista, que não a tratassem como uma piada. Ela queria respeito como artista. Queria ser vista além do corpo.
Talvez nunca saibamos completamente quem foi Marilyn Monroe. Talvez só possamos nos aproximar de Norma Jeane, a menina que queria ser amada, e da mulher que queria ser respeitada. Enquanto insistirmos em decifrá-la, Marilyn continua aqui. O desafio, cem anos depois, é aprender a olhar para ela com menos voracidade e mais escuta.
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