Durante muito tempo, a história de Yoko Ono foi contada como uma nota de rodapé incômoda na biografia de John Lennon. Mais recentemente, ela passou a ser revisitada como símbolo de misoginia histórica, bode expiatório conveniente para o fim dos The Beatles. Os dois novos documentários que orbitam esse período — One to One: John & Yoko e Daytime Revolution — não se contentam com nenhuma dessas versões. Eles fazem algo mais raro: devolvem complexidade a uma relação que sempre foi tratada de forma binária demais.
One to One: John & Yoko, dirigido por Kevin Macdonald, estreou nos cinemas em versão IMAX não por acaso. No centro do filme está o show beneficente realizado no Madison Square Garden, em agosto de 1972, com Lennon, Yoko Ono e a banda Elephant’s Memory. Foi o único concerto completo que Lennon fez após a separação dos Beatles e antes de sua morte. Mas tratar o filme como “apenas” um registro de show é perder o essencial. O concerto funciona como portal. A partir dele, o documentário nos puxa para dentro da vida cotidiana, política e emocional do casal naquele início de anos 1970, quando Nova York se tornava o novo centro gravitacional da existência dos dois.

Há uma decisão estética importante aqui: não há cabeças falantes explicando o que devemos pensar. O filme se constrói quase inteiramente com material de arquivo: imagens, telefonemas gravados, trechos de noticiários, momentos domésticos. A sensação é de imersão, de estar ali, em 1972, vendo o mundo através dos olhos de John e Yoko. Sean Ono Lennon, que trabalhou diretamente nas novas mixagens do áudio do show e acompanhou de perto a construção do projeto, define com precisão desconcertante o que o filme revela sobre seus pais: eles funcionavam como o primeiro casal de celebridades a viver em estado permanente de exposição, muito antes de reality shows, redes sociais ou da ideia de intimidade como conteúdo.
Essa percepção muda tudo. Lennon e Ono não apenas se amavam; eles documentavam o amor como gesto político. Gravavam telefonemas porque o FBI os vigiava, filmavam a própria rotina porque queriam controlar a narrativa sobre si mesmos. Frases como “Give peace a chance” ou “War is over if you want it” não eram apenas slogans; eram campanhas meméticas antes mesmo de termos essa palavra. Ao se mostrarem crus, sem verniz, eles anteciparam uma lógica de transparência performática que hoje parece banal, mas que nos anos 1970 era radical.
É nesse ponto que Daytime Revolution entra como peça complementar quase perfeita. O documentário acompanha a semana em que John e Yoko coapresentaram The Mike Douglas Show em 1972, então o programa diurno mais assistido da televisão americana, com cerca de 40 milhões de espectadores semanais. Não era um espaço alternativo, nem contracultural. Era a sala de estar da classe média. E, ainda assim, eles transformaram aquele palco em arena política. Falaram de brutalidade policial, feminismo, racismo, meio ambiente. Convidaram nomes como Ralph Nader, Bobby Seale e George Carlin. Foi um gesto calculado e, ao mesmo tempo, perigosamente ingênuo: usar a máquina da TV popular para confrontar o próprio conforto que ela vendia.

Os dois filmes, vistos em conjunto, ajudam a entender por que millennials e gerações mais jovens têm reagido de forma tão diferente à figura de Yoko Ono. Eles não cresceram sob o dogma de que ela “separou os Beatles”. Cresceram, ao contrário, acostumados à ideia de casais-fusão, de identidades compartilhadas, de vidas públicas sem fronteira clara entre o pessoal e o político. Quando olham para Yoko, veem uma artista moldada por traumas de guerra, por deslocamento, por perda. Veem uma mulher cuja obra sempre exigiu desconforto do espectador. E veem, sobretudo, alguém que jamais tentou ser palatável.
Eu mesma fiz esse percurso de revisão. Durante anos, absorvi a narrativa herdada: Yoko como intrusa, como ruído, como obstáculo. Com o tempo, e com acesso aos próprios relatos da banda — especialmente em The Beatles Anthology — ficou impossível sustentar essa versão simplificada. O desgaste dos Beatles era profundo, estrutural, declarado por eles mesmos. Divergências artísticas, disputas de controle, cansaço emocional. O fim viria de qualquer forma.
Ainda assim, há um ponto delicado que esses novos documentários não anulam e nem deveriam. A relação entre Lennon e Ono era marcada por uma codependência extrema. Eles não apenas se amavam; eles se fundiram. Tornaram-se uma entidade única, inseparável física e simbolicamente. Yoko estava sempre presente, porque Lennon precisava que ela estivesse. Dentro de um grupo que funcionava à base de equilíbrios frágeis, essa fusão foi explosiva. Não porque Yoko quisesse destruir algo, mas porque Lennon já não conseguia — ou não queria — habitar dois mundos ao mesmo tempo.
É dessa fusão que nasce a acusação histórica. Não como verdade factual, mas como reação emocional. Para quem estava de fora, foi mais fácil culpar a presença visível de Yoko do que aceitar a ausência progressiva de Lennon como Beatle. A codependência do casal não invalida a empatia por Yoko; ela a complexifica. Permite entender como amor, trauma e ativismo se misturaram a ponto de tornar impossível qualquer retorno ao passado.

One to One: John & Yoko talvez seja o filme que mais se aproxima de fazer justiça a essa complexidade. Sean Lennon afirma que nunca viu um retrato tão honesto de sua mãe. E isso diz muito. Não se trata de santificação, mas de escuta. Yoko fala por si, em contexto, sem caricatura. Sua dor, sua inteligência, seu rigor artístico e suas contradições aparecem sem mediação condescendente.
No fim, o que esses documentários expõem não é apenas o mistério Yoko Ono, mas a nossa necessidade persistente de narrativas simples para histórias emocionalmente difíceis. Culpar Yoko sempre foi mais confortável do que aceitar que os Beatles acabaram porque cresceram, mudaram e escolheram caminhos incompatíveis. Rever Yoko hoje não é apagar a tensão que ela provocou. É reconhecer que ela nunca foi a causa única e que talvez tenha sido, desde o início, apenas o espelho mais incômodo de um fim inevitável.
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