A largada foi dada, e agora os Critics Choice Awards transformaram sensação em narrativa concreta de temporada. Esses prêmios não decidem Oscar nem Emmy, mas organizam o tabuleiro: indicam quem virou consenso cedo demais, quem cresce no silêncio e quem começa a ficar para trás mesmo ainda “na disputa”. O que se viu nesta noite foi menos surpresa e mais confirmação de forças.
A disputa central cristalizou o que já vinha se desenhando. Uma Batalha Depois da Outra, de Paul Thomas Anderson, saiu com três vitórias-chave: Filme, Direção e Roteiro Adaptado. Não são categorias periféricas — são exatamente aquelas que moldam o discurso de “filme importante”, autoral e inevitável. Mesmo sem liderar o número total de prêmios, o longa venceu onde pesa mais.

Já Sinners, o terror social que usa vampiros como metáfora para raça, violência estrutural e poder nos Estados Unidos segregacionistas, confirmou sua força com quatro vitórias: Roteiro Original, Trilha Sonora, Elenco e Ator Jovem (Miles Caton). É um pacote robusto, que evidencia prestígio técnico e criativo, mas que, por enquanto, não desloca o eixo central ocupado por Anderson. Sinners segue muito vivo, mas como filme que cresce pelas bordas; Uma Batalha Depois da Outra já ocupa o centro da sala.
Se havia alguma dúvida sobre o momento de Timothée Chalamet, ela acabou. O prêmio de Melhor Ator por Marty Supreme veio acompanhado de algo ainda mais valioso nesta fase da temporada: narrativa pessoal, emoção e timing perfeito. Ao agradecer publicamente Kylie Jenner, companheira há três anos, Chalamet humanizou uma campanha que poderia parecer apenas estratégica. Não foi cálculo frio; foi afeto televisivo, e isso conta.
Ele venceu em uma categoria disputadíssima, superando Leonardo DiCaprio, Michael B. Jordan e Wagner Moura. A partir daqui, não é exagero dizer: Chalamet deixa de ser “o jovem talento promissor” para assumir o posto de favorito real, com capital simbólico, popularidade e uma narrativa emocional já bem amarrada.
Para Wagner, a derrota dói, mas não diminui. Estar entre esses nomes, em um ano tão competitivo, não é retórica vazia. Ainda assim, a corrida começa a se estreitar.

Para nós, brasileiros, a noite trouxe orgulho e desconforto na mesma medida. Adolpho Veloso venceu Melhor Fotografia por Train Dreams, um prêmio técnico que costuma dialogar muito bem com o Oscar. Elegante, preciso, incontestável.
Já o episódio envolvendo Kleber Mendonça Filho soou estranho. No tapete vermelho, uma repórter do E! anunciou que O Agente Secreto havia vencido Melhor Filme Internacional e colocou a estatueta em suas mãos, fora do palco. O diretor ficou visivelmente confuso. Pareceu improvisado, quase constrangedor. Para os mais atentos, houve ali um silêncio forçado: nenhuma fala, nenhuma contextualização, nenhum espaço para comentário político em um ano em que isso claramente incomoda.
Independentemente das leituras, o fato permanece: Kléber está virtualmente imbatível nessa categoria. A sequência até o Oscar se desenha mais como formalidade do que como disputa real.
Na televisão, poucas surpresas. Adolescence confirmou seu domínio absoluto, levando Série Limitada e praticamente todos os prêmios de atuação possíveis. Era esperado e foi executado com autoridade.


A Apple TV+ saiu como grande vencedora da noite. The Studio levou Comédia, Ator (Seth Rogen) e Ator Coadjuvante (Ike Barinholtz), e a HBO MAX garantiu que The Pitt fosse eleito Melhor Drama, com Noah Wyle e Katherine LaNasa premiados também.
Hacks segue como o Veep da década: Jean Smart vence com naturalidade quase protocolar. E sem Adolescência fazendo sombra, e a vitória de Sarah Snook, excepcional, All Her Fault promete crescer até o Emmy, em setembro.
Mas uma vitória teve sabor especial: Janelle James por Abbott Elementary. A temporada inteira gira em torno da expansão emocional e narrativa de sua personagem. O prêmio reconhece algo raro: crescimento real dentro da comédia.
No cinema, Jessie Buckley venceu por Hamnet e consolida algo que já parecia inevitável: ela é a atriz do ano. A competição existe mais no papel do que na prática.
Já Amy Madigan, vencedora como coadjuvante por Weapons, reúne todos os elementos que a Academia costuma amar: trajetória longa, transformação física, personagem perturbadora e respeito acumulado. Chamou atenção, porém, o silêncio político em seu discurso. Engajada como é, dificilmente manterá esse tom neutro conforme a temporada avança.

A corrida está longe do fim. Mas, depois desta noite, uma coisa fica clara: o mapa já foi desenhado. Agora, o que veremos até o Oscar e o Emmy não será improviso, será confirmação, resistência ou colapso.
E agora? A resposta vem rápido e muda o jogo. A próxima parada é o Golden Globes, já no próximo domingo, dia 11, e o desenho da corrida sofre um deslocamento importante. Se o Critics Choice ajudou a consolidar favoritos e a organizar consensos iniciais, o Globo de Ouro reabre disputas justamente por ter mais indicados por categorias de cada gênero, algo que pode alterar completamente o eixo das narrativas.
Para o Brasil, o cenário é especialmente promissor. Wagner Moura chega ao Globo em posição muito mais confortável do que no Critics Choice. A grande “vantagem” é estrutural: ele não concorre com Chalamet, já que Chalamet está posicionado em Ator – Musical ou Comédia, enquanto Wagner disputa Ator – Drama, categoria em que é visto como favorito entre os votantes estrangeiros. É aqui que a corrida pode se reequilibrar, e onde Wagner tem espaço real para voltar à dianteira da conversa.

Além dele, o Brasil segue muito bem representado com O Agente Secreto, que chega ao Globo como um dos nomes mais fortes em Filme em Língua Não Inglesa. Depois da vitória no Critics’ Choice e da recepção crítica consistente, o filme entra em modo quase automático de consolidação. O Globo, historicamente mais aberto ao cinema internacional do que a própria Academia, tende a reforçar, e não questionar, esse favoritismo.
Em resumo, se o Critics’ Choice serviu para fixar narrativas, o Golden Globes tem potencial para embaralhá-las. Algumas lideranças devem se confirmar; outras, inevitavelmente, serão revistas. Para Wagner Moura, especificamente, o domingo representa algo raro nesta temporada: uma chance clara de virar o jogo.
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