Como publicado em CLAUDIA
Em tempos em que discutimos solidão e isolamento — questões que não são novas, mas que impactam profundamente a Geração Z — Família de Aluguel, filme que passou pelo Festival do Rio e finalmente entra em cartaz pouco antes do Natal, surge como uma obra que emociona e provoca reflexão, trazendo uma mensagem de esperança especialmente necessária para encerrar 2025.
Em uma era em que o cinema é frequentemente pressionado a se explicar em poucas palavras, Família de Aluguel escolhe permanecer no território mais incômodo — e mais humano. Dirigido por HIKARI (Beef, Tokyo Vice), o filme se passa na Tóquio contemporânea e acompanha Phillip, um ator americano em crise que aceita trabalhar para uma agência japonesa de “família por aluguel”, interpretando pais, parceiros, amigos e acompanhantes para pessoas que precisam atravessar situações sociais — e vazios emocionais — com alguém ao lado.
O que começa como um serviço por hora se transforma em um estudo delicado sobre pertencimento, ética e afeto. Para Brendan Fraser, que protagoniza o filme após o impacto de A Baleia, a história vive exatamente na zona cinzenta em que realidade e encenação se chocam. Família de Aluguel não busca respostas fáceis nem julgamentos morais rápidos: observa, com empatia, o que acontece quando vínculos nascem por contrato, mas passam a carregar verdade emocional.
Para quem acompanhou a TV por assinatura no Brasil, o argumento central de Família de Aluguel pode remeter à série brasileira Amigo de Aluguel, por partir da mesma constatação contemporânea: a solidão virou um serviço possível de ser terceirizado. Em ambos os casos, existe a ideia de contratar alguém para ocupar um papel social — amigo, par romântico, acompanhante — e aliviar constrangimentos, vazios ou ausências reais. Esse gesto já diz muito sobre um mundo em que a conexão virou demanda e o afeto, um recurso escasso.

A diferença está no olhar. Enquanto a série brasileira aposta no humor, no improviso e em situações embaraçosas, sem necessariamente se aprofundar nas consequências emocionais de longo prazo desses vínculos, o filme protagonizado por Fraser questiona essa lógica de forma mais profunda. Família de Aluguel não se interessa apenas pelo serviço em si, mas pelo que acontece quando a encenação começa a produzir afeto real — especialmente quando envolve crianças, idosos e figuras emocionalmente vulneráveis. Fraser insiste que o filme vive justamente nessa zona cinzenta entre o que é “fabricado” e o que é verdadeiro, perguntando se vínculos criados por contrato podem, ainda assim, gerar pertencimento — e em que momento isso passa a ser perigoso.
Há também uma diferença cultural importante. Em Família de Aluguel, a prática é observada dentro do contexto japonês, onde solidão, formalidade social e dificuldade de acesso a espaços de escuta moldam esse tipo de serviço. O filme evita o exotismo e trata a “família de aluguel” com seriedade, quase como um sintoma social institucionalizado. E CLAUDIA conversou com Brendan Fraser sobre esse território ambíguo, sua relação com o Japão, a diretora HIKARI e como experiências anteriores — inclusive no Brasil — moldaram sua leitura do personagem.
CLAUDIA: O que é Família de Aluguel?
Brendan Fraser: Ambientado na Tóquio contemporânea, Rental Family acompanha Phillip, um ator americano que perdeu o rumo da própria carreira e passa a trabalhar para uma agência japonesa de “família por aluguel”, interpretando pais, parceiros, amigos e acompanhantes para clientes que precisam de companhia em situações sociais e afetivas. À medida que ele se envolve nessas vidas, vínculos genuínos surgem e a fronteira entre performance e realidade começa a se confundir.
CLAUDIA: Onde está o coração do filme?
Brendan Fraser: Eles são ambos complicados, não são? É aí que o filme acontece. A realidade das circunstâncias do personagem e a fabricação da relação de substituição, a fantasia disso tudo, colidem. E é nesse espaço intermediário que o filme vive.

CLAUDIA: O filme acredita que relações ‘substitutas’ podem ajudar?
Brendan Fraser: Seja qual for a diferença entre essas camadas, elas se encaixam perfeitamente na ideia de nos perguntarmos se podemos encontrar alívio, se podemos nos sentir satisfeitos, se pode nos fazer bem ter alguém ocupando o lugar de um substituto. Pelo menos por um curto período, eu consigo ver como isso pode ser benéfico.
CLAUDIA: Por que esse projeto se destacou para você?
Brendan Fraser: Eu fiz algumas escolhas, que foi selecionar um projeto que parecesse único, algo que se destacasse do que normalmente seria esperado de mim. Algo que me desse vontade de embarcar numa jornada e inovar, porque eu realmente não acredito que essa história tenha sido contada dessa forma antes.
CLAUDIA: Como surgiu sua parceria com a diretora Hikari?
Brendan Fraser: Conheci a Hikari inicialmente para um café, que virou uma conversa que saiu do pátio de um restaurante de hotel e foi para a biblioteca por horas e horas. Falamos praticamente de tudo, menos do filme. Mas percebemos que tínhamos muito em comum e uma visão bastante parecida de para onde isso deveria ir.
CLAUDIA: O título Rental Family pode soar provocativo. O que ele representa?
Brendan Fraser: Está tudo no título. Rental Family. Você pode pensar uma coisa imediatamente. Se quiser fazer uma piada pejorativa, vá em frente. Mas, se olhar um pouco mais de perto, vai perceber que isso cumpre uma função.”
CLAUDIA: Como foi viver e trabalhar no Japão — e isso se conecta com experiências anteriores, como o período em que você esteve no Brasil?
Brendan Fraser: Claro. Vou contar um pouco sobre mim. Eu sou filho de um funcionário do turismo internacional, então nossa família se mudava a cada três ou quatro anos. A maior parte dos meus anos formativos foi passada em lugares novos, me reinventando com novos amigos, em novas escolas, esse tipo de coisa.
E eu acho que não percebia isso na época, mas o que isso fez foi me dar uma sensação de segurança pessoal, eu acho — de me sentir confortável na minha própria pele, não importa onde eu estivesse. Então eu não tenho problema pessoalmente em me adaptar a lugares novos. E eu não vejo o Phillip como alguém que tenha esse mesmo problema.
O que ele tem é um desejo por companhia e um vazio a ser preenchido de uma forma intangível — essa necessidade universal de estar acompanhado.

E o fato de ele estar no Japão — um estrangeiro em terra estranha — significa que ele deixou o Ocidente para trás, por quaisquer razões que sejam, você pode decidir quais são. Mas o fato é que ele não quer estar onde estava antes. Ele decidiu ir para outro lugar. Não por um motivo nefasto, mas porque está em uma jornada de descoberta.
Provavelmente ele não sabe disso, mas ele tem um instinto paternal muito forte. E, queira ele admitir ou não, ele está sempre procurando por um pai. O que ele claramente encontra nessa criança, Mia, quase imediatamente, e certamente também naquele ator mais velho, já no crepúsculo da vida, o Akira. Ah, e a propósito, eu adorei meu tempo no Brasil. Obrigado. Foi em São Paulo.
CLAUDIA: Quem é Phillip, afinal?
Brendan Fraser: Eu não vejo o Phillip como alguém que tenha dificuldade de adaptação. O que ele tem é esse anseio por companhia e esse vazio intangível. Ele não deixou o Ocidente por algo obscuro. Ele está em uma viagem de descoberta.
CLAUDIA: A relação com a criança é o maior teste moral do filme?
Brendan Fraser: Sim. Quando Phillip é contratado para fingir ser o pai de Mia, uma menina criada por mãe solo, o trabalho exige mais do que presença formal. Ele precisa construir uma relação real — e isso levanta questões éticas profundas sobre afeto, responsabilidade e consequências emocionais.

CLAUDIA: O sucesso de The Whale foi decisivo para Rental Family existir?
Brendan Fraser: Sim. O sucesso de The Whale me conseguiu esse trabalho. Isso é absolutamente sincero. Conseguir financiamento para filmes hoje em dia é muito difícil.
CLAUDIA: Rental Family é cinema ou apenas mais um filme?
Brendan Fraser: Com Rental Family, eu atesto que isso ainda é possível. Com a distinção de que isso é cinema — não apenas um filme.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
