Sinners: O Terror como Crítica Social

Resisti a assistir Sinners por um motivo simples e, confesso agora, equivocado: não gosto de filmes de terror, monstros ou vampiros. Cresci associando o gênero a sustos mecânicos, regras rígidas e pouca margem para emoção que não fosse o medo. Sinners desmonta essa resistência com uma elegância rara. E talvez por isso não seja surpresa que o filme tenha se tornado um fenômeno da crítica, lidere as indicações da temporada de prêmios e tenha conquistado um desempenho comercial muito acima do que se esperava de um “filme de gênero”. Porque Sinners não é sobre vampiros. Vampiros são apenas a forma que o horror assume para falar de outra coisa.

Dirigido por Ryan Coogler, o filme retorna a temas que atravessam toda a sua obra — identidade, pertencimento, exploração, memória histórica — mas agora embalados em uma narrativa que mistura blues, tragédia grega e horror sobrenatural. O resultado é um filme que dialoga com o público amplo sem jamais simplificar o que está dizendo. E a essa altura nem é spoiler: a virada só acontece a mais de um hora de ação, apenas depois de nos envolver. Bem vampiresco.

O gênero como disfarce político

Ambientado no Mississippi dos anos 1930, Sinners acompanha irmãos gêmeos vividos por Michael B. Jordan, que retornam do Norte com dinheiro do crime e um sonho perigoso: abrir um juke joint para a comunidade negra local. O espaço não é apenas um negócio. É um território de liberdade em um mundo estruturado para negá-la.

O horror surge quando figuras brancas, aparentemente sofisticadas e “civilizadas”, começam a orbitar esse espaço. São vampiros, sim, mas vampiros que não precisam de capas ou presas exageradas. Eles se alimentam de cultura, trabalho, corpos e silêncio. Não invadem: são convidados. Não gritam: negociam.

Coogler usa o terror exatamente como Jordan Peele fez antes, mas com uma diferença crucial: Sinners não está interessado apenas no choque contemporâneo. Ele olha para trás. Para a origem. Para o pecado estrutural que nunca foi resolvido.

Michael B. Jordan em seu trabalho mais ambicioso

Grande parte da força do filme repousa na atuação dupla de Michael B. Jordan. Interpretar gêmeos já é um desafio técnico; aqui, o desafio é moral e emocional. Um irmão acredita na negociação como forma de sobrevivência. O outro entende que todo acordo cobra um preço alto demais.

Jordan constrói essa diferença com precisão de gestos, ritmo de fala e presença física. Não há caricatura. Há duas respostas legítimas ao mesmo trauma histórico. É uma atuação que sustenta o filme inteiro e explica por que seu nome aparece com tanta frequência nas listas de favoritos da temporada: não é um desempenho chamativo, é um trabalho de composição profunda, que cresce cena a cena.

Bilheteria, público e alcance

Mesmo com classificação restritiva e temática densa, Sinners encontrou público. A bilheteria confirmou algo que Hollywood frequentemente subestima: quando o cinema de gênero é tratado com inteligência e ambição artística, ele ultrapassa bolhas. O filme não apenas se pagou rapidamente como se manteve em cartaz por semanas, impulsionado pelo boca a boca e pela curiosidade de quem, como eu, achava que “não era para si”.

Esse desempenho ajudou a consolidar Sinners como um raro ponto de convergência entre crítica, prêmios e mercado: um feito cada vez mais incomum.

O final e o que ele recusa

Sem entrar novamente em todos os detalhes do desfecho, vale reforçar: Sinners não oferece redenção fácil. O juke joint cai. A cultura resiste, mas sangra. Os vampiros não desaparecem, apenas se adaptam. O filme se recusa a fingir que a vitória é limpa ou completa.

E é exatamente essa recusa que o torna tão poderoso. Coogler não quer confortar. Quer lembrar.

Por que Sinners lidera a temporada

Sinners lidera as indicações porque não ensina lições óbvias, não subestima o espectador e não usa o gênero como muleta, mas como linguagem. É um filme que entende que o terror mais duradouro não está nos monstros, e sim nos sistemas que continuam funcionando perfeitamente.

Para quem, como eu, sempre evitou vampiros, Sinners funciona quase como uma armadilha, no melhor sentido possível. Você entra achando que sabe o que vai encontrar. Sai entendendo que o gênero era apenas a porta de entrada.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário