Se há uma indicação que é importante antes das “indicações finais” do Emmy e do Oscar, é a do Sindicato. No caso dos atores, as indicações ao SAG — agora rebatizado como Actor Awards — chegaram como um desses momentos em que a indústria, sem discursos solenes, revela o que realmente pensa. Não é um prêmio de críticos, nem de executivos, nem de festivais: é o corpo de atores dizendo, na prática, quais performances reconhece como suas, quais narrativas compra e, sobretudo, quais já não pretende mais empurrar ladeira acima. Em 2026, o recado foi menos fragmentado do que pareceu à primeira vista. Há um centro claro, alguns gestos de legitimação e cortes que doem justamente porque não são acidentais.

O eixo da temporada atende pelo nome de One Battle After Another. Sete indicações, espalhadas por elenco, protagonistas, coadjuvantes e até dublês, não são efeito de moda: são consenso. O SAG não apenas admira o filme — ele o adota. Há algo de “inevitável” quando uma obra domina dessa forma categorias diferentes; mesmo quem não se apaixona pelo projeto passa a tratá-lo como referência estrutural da corrida. Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro e Sean Penn oferecem a espinha dorsal de prestígio, mas é revelador que o prêmio também tenha reconhecido Chase Infiniti como protagonista. A discussão sobre se seu papel é “lead” ou “supporting” importa menos do que o gesto: o SAG a vê como pilar narrativo, não como apêndice. É a legitimação de uma atriz jovem — não pela simpatia da revelação, mas pela centralidade dramática dentro do filme do ano.
Se One Battle After Another encarna o polo institucional, Sinners ocupa o espaço da obra que ultrapassa o rótulo de gênero e conquista cidadania plena. Cinco indicações, incluindo elenco, protagonista e coadjuvantes, selam o que já vinha se desenhando: o terror só é “menor” quando não oferece densidade humana. Michael B. Jordan aparece como protagonista abraçado pela classe, e nomes como Wunmi Mosaku e Miles Caton mostram como o SAG responde a filmes que se estruturam em interação, não em efeitos. Há algo de simbólico na escolha de Caton, impulsionada por uma única cena que se tornou o coração emocional do filme. O prêmio dos atores vota, muitas vezes, por memória afetiva — quando uma performance fica no corpo, ela vira voto.

Esse mesmo critério ajuda a entender por que o SAG consagrou certos projetos e virou as costas para outros. A inclusão de Frankenstein na categoria de elenco, por exemplo, é menos sobre coesão do conjunto e mais sobre a força de uma presença geracional. Jacob Elordi se impôs de tal forma que contamina a percepção do todo; o prêmio frequentemente acolhe filmes irregulares quando percebe entrega emocional real — mesmo que o resultado seja debatido. Já a exclusão de Wicked: For Good do elenco é o oposto: não se trata apenas de crítica morna ou de bilheteria aquém do primeiro filme, mas de uma perda de entusiasmo interno. O SAG costuma abraçar blockbusters quando identifica ali um espaço legítimo de atuação. Ao recusar o segundo Wicked, ele sinaliza que enxerga menos drama e mais engrenagem, menos personagem e mais produto. E vamos combinar — muitos estranharam e apostaram que dividir o filme em duas partes daria nisso.
Esse deslocamento também explica a ausência de Cynthia Erivo entre as protagonistas. Não é uma rejeição à atriz, mas à arquitetura do filme. Com Elphaba empurrada para o segundo plano e a narrativa enfraquecida, o prêmio se recusou a carimbar uma indicação por inércia. A presença de Ariana Grande como coadjuvante, por sua vez, reforça a leitura de que o centro emocional mudou. O “sex cardigan” vira piada, mas o subtexto é sério: quando a obra perde seu coração dramático, a indústria sente.


Alguns cortes, no entanto, expõem limites mais antigos do prêmio. Sentimental Value, apesar de reunir um elenco que pode muito bem aparecer no Oscar, ficou de fora. O SAG raramente atravessa fronteiras linguísticas e culturais a menos que o filme se torne fenômeno popular — algo à la Parasite. O mesmo muro aparece no caso de Wagner Moura. Com Cannes, New York Film Critics Circle e provável Globo de Ouro, sua ausência não fala de qualidade, mas de estrutura: performances em filmes não falados em inglês ainda encontram resistência no corpo de votantes. Isso não elimina Moura da corrida, mas deixa claro que sua força está mais ancorada na crítica e no circuito internacional do que no consenso da indústria americana.
Aqui, uma opinião pessoal: Fernanda Torres tampouco foi indicada ao SAG/Actors em 2025, mas chegou ao Oscar como uma possibilidade real. Há quem sugira uma certa xenofobia, mas eu discordo — Marion Cotillard foi indicada em 2008, antes de ganhar o Oscar por Piaf. Como nem Stellan Skarsgård foi indicado em 2026, a questão “contra” Wagner Moura é estar em um ano mais competitivo.


Tudo se desenha para que 2026 seja o ano de Timothée Chalamet por Marty Supreme. Na sua cola, o mais forte candidato seria dar a Leonardo DiCaprio um segundo Oscar por One Battle After Another, onde está realmente excelente. Michael B. Jordan — em um papel duplo — é mais azarão, mas certamente está entre os cinco finalistas. Tirando esses três, as duas outras vagas têm dois grandes atores que a Academia adora e que merecem: Ethan Hawke por Blue Moon — um filme biográfico que eu disse desde Berlim que lhe renderia essa indicação — e Jesse Plemons, que não acredito que ganhe por Bugonia, mas dificilmente ficará de fora do Oscar. Daqui, apenas Hawke pode sair… será que para dar lugar a Wagner Moura?
Em contrapartida, algumas indicações soam como pequenos atos de justiça dramática. Jesse Plemons por Bugonia representa exatamente o tipo de atuação que o SAG valoriza: contida, desconfortável, pensada por dentro. Odessa A’Zion em Marty Supreme e Miles Caton em Sinners confirmam a mesma lógica: personagens secundários, uma ou duas cenas decisivas, impacto que permanece. O prêmio dos atores não vota apenas em carreiras ou campanhas — vota em momentos de verdade.
Entre as mulheres, estão tentando criar uma narrativa de que Jessie Buckley teria alguma competição depois de sua entrega visceral em Hamnet. Não tem. Rose Byrne despontou antes dela como favorita, vencendo em Berlim por If I Had Legs I’d Kick You, mas não decolou com força. Mesmo assim, ela não é a única que poderia tirar de Jessie a consagração em todas as festas. Ao colocar Chase Infiniti, de One Battle After Another, o sindicato pega uma jovem atriz do filme mais forte do ano. Claro que ela pode surpreender, mesmo que eu considere improvável. Indicar Kate Hudson por Song Sung Blue também soa curioso — enquanto Emma Stone já é a Meryl Streep de sua geração: é indicada sempre e aqui está por Bugonia.


O desenho maior da temporada emerge daí com clareza. Este não é um ano de estrelas solitárias nem de filmes-vitrine. É um ano de corpos coletivos, de histórias sustentadas por fricção entre personagens, de elencos que funcionam como arquitetura emocional. O SAG está dizendo, sem rodeios, que o cinema que o representa em 2026 é aquele que constrói mundos por meio de interação — não de poses.
Entre coadjuvantes, o gênero terror vai lacrar: impossível tirar de Jacob Elordi (Frankenstein) e Amy Madigan (Weapons), mas os indicados aqui parecem ser os do Oscar — Miles Caton por Sinners; Benicio Del Toro por One Battle After Another; Paul Mescal por Hamnet; Sean Penn por One Battle After Another; além de Odessa A’Zion por Marty Supreme, Ariana Grande por Wicked: For Good, Wunmi Mosaku por Sinners e Teyana Taylor por One Battle After Another.
Por isso, dois títulos se impõem como polos complementares: One Battle After Another como o filme-instituição — a obra em torno da qual a indústria organiza a conversa — e Sinners como a prova de que gênero não limita prestígio quando há densidade humana.


E na TV, antecipando os Emmys, há pouca surpresa. Hacks e The Studio — em especial a série da Apple TV+ — são as favoritas em Comédia: Jean Smart vai levar seu quinto prêmio porque é impossível evitar, assim como Seth Rogen e cia devem dominar a noite com sua sátira à Hollywood. No Drama, The Pitt tende a ser a eleita — Melhor Série e Ator. Melhor Atriz em Drama deve ficar entre Britt Lower, de Severance, e Rhea Seehorn, por Pluribus — mas Rhea é a febre do momento, e tudo indica que ganhará até o Emmy, em setembro.
Dito isso, sim — ainda teremos o domínio de Adolescence como Melhor Minissérie e Ator (Stephen Graham), mas, entre atrizes, Sarah Snook deve ser coroada por All Her Fault.
Ou seja: entre consagrações e cortes, o prêmio dos atores não apenas lista indicados, ele mapeia pertencimentos. E, ao fazê-lo, revela menos quem “merece” e mais quem, neste momento, a própria classe artística está disposta a abraçar como espelho do que acredita ser o melhor do cinema agora.
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