BAFTA 2026: a esnobada a Wagner Moura

Já vimos esse filme antes, em 2025, com Fernanda Torres: venceu Cannes e o Golden Globes; foi ignorada pelo SAG e pelo BAFTA, mas acabou entre as cinco finalistas do Oscar. Wagner Moura agora parece seguir um caminho semelhante.

O ator brasileiro ficou fora de mais uma lista importante. O Agente Secreto apareceu entre os selecionados do BAFTA na categoria de filme em língua não inglesa, com chances reais de vitória — mas o protagonista, não. Essa dissociação — recorrente, silenciosa e raramente questionada — diz mais sobre o funcionamento do prêmio do que sobre o alcance de sua atuação.

Convém ser precisa: o BAFTA não exclui automaticamente atores que não falam inglês. Há precedentes relevantes. Karla Sofía Gascón foi indicada por Emilia Pérez em espanhol; Renate Reinsve apareceu por The Worst Person in the World; Youn Yuh-jung venceu por Minari em coreano. Antes delas, Marion Cotillard, Sophia Loren, Penélope Cruz, Benicio del Toro, Michelle Yeoh e Christoph Waltz também furaram a barreira linguística.

Mas é justamente aí que o padrão se revela. Esses casos são exceções, não regra. E, na maioria das vezes, quando o BAFTA “abre” espaço para performances fora do inglês, ele o faz dentro de um perímetro cultural muito específico: quase sempre europeu. A consagração de Parasita foi histórica exatamente por romper esse eixo. Fora isso, a chamada abertura permanece seletiva, calculada, simbólica.

O que acontece com Wagner Moura em 2026 se encaixa perfeitamente nessa lógica. O Agente Secreto é reconhecido como obra: circula bem, ganha legitimidade crítica, entra na conversa institucional. Há algo de particularmente revelador nessa separação entre filme e ator. Ao admitir a obra, o prêmio preserva a imagem de abertura internacional. Ao barrar o intérprete, mantém intacto o eixo de poder simbólico das categorias principais. É uma forma elegante de dizer “vemos o projeto”, mas não necessariamente “incorporamos o artista”. O reconhecimento existe, mas é compartimentado.

Mas, convenhamos: nada disso impede um caminho até o Oscar, nem diminui a qualidade dos indicados ou invalida os méritos de quem está na lista. Ainda assim, torna impossível tratar a esnobada a Wagner como mero acaso. Quando o filme é legitimado e o ator não, o recado é nítido: há uma hierarquia invisível entre reconhecer uma obra “de fora” e admitir plenamente seus protagonistas no coração da premiação.

O Agente Secreto pode ganhar. E a lista do Oscar talvez consagre tanto o filme quanto o ator com indicações. Saberemos em 22 de janeiro. Até lá, vamos acompanhando.


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