Eu avisei: a temporada mal começou e já soa repetitiva. A longlist do BAFTA confirma aquilo que outras premiações vêm ensaiando desde dezembro: os mesmos títulos, os mesmos nomes, a mesma geometria de forças. Ainda assim, seria um erro descartar o prêmio britânico como mera formalidade. O BAFTA é previsível, sim, mas raramente é neutro. Ele organiza o tabuleiro, legitima favoritos e, vez ou outra, antecipa viradas que Hollywood ainda resiste a enxergar.
O histórico recente ajuda a entender esse paradoxo. Em 2023, o BAFTA coroou Cate Blanchett por Tár, contrariando a onda que levou Michelle Yeoh ao Oscar. Foi uma leitura “europeia”, sofisticada, coerente com o gosto da academia britânica, mas que não se confirmou no desfecho da temporada. Já no ano passado, o prêmio surpreendeu ao entregar o troféu a Mikey Madison quando praticamente todos esperavam Demi Moore. Não foi apenas um gesto de distinção: foi uma previsão certeira. Madison acabou confirmando a vitória no Oscar, e o BAFTA saiu como aquele que viu antes.


No centro da disputa de 2026 estão, novamente, os filmes que já dominam a narrativa. One Battle After Another lidera com folga e ocupa o lugar clássico do “filme a ser batido”: ambicioso, politicamente carregado, com peso autoral e elenco de prestígio. Leonardo DiCaprio surge como a face mais visível desse projeto e, mais uma vez, como candidato natural a encarnar a “performance do ano”. Do outro lado está Sinners, de Ryan Coogler, que combina impacto cultural, força de bilheteria e um Michael B. Jordan em modo total de estrela. São dois tipos de prestígio distintos: o da obra “importante” e o do filme que se impõe ao debate público.
A disputa masculina passa também por Timothée Chalamet. Marty Supreme o coloca numa chave diferente de DiCaprio: menos instituição, mais reinvenção. Chalamet não é apenas um favorito; ele é o rosto de uma geração que o BAFTA tenta legitimar sem parecer rendido à moda. Se o prêmio optar por ele, o gesto será menos sobre consagração e mais sobre futuro. DiCaprio representa o cânone. Chalamet, a aposta de longo prazo.
No campo feminino, a lista revela uma contradição interessante. Enquanto premiações americanas vêm ignorando Cynthia Erivo, o BAFTA faz questão de lembrá-la por Wicked: For Good. Não é um detalhe: é um sinal de que a academia britânica ainda se permite valorizar performances que não entraram no consenso hollywoodiano. Ao lado dela estão nomes como Jessie Buckley, Renate Reinsve, Emma Stone e Jennifer Lawrence, um conjunto que mistura respeito autoral, prestígio crítico e reconhecimento de mercado.
É, porém, no bloco britânico que o BAFTA mostra mais claramente sua função de vitrine nacional e onde a distância em relação às premiações americanas fica mais evidente.

Em Dragonfly, Brenda Blethyn encarna uma mulher idosa vivendo numa comunidade rural inglesa, em um drama de observação delicada sobre envelhecimento, solidão e resistência silenciosa. É um papel construído na tradição do realismo britânico: poucas explosões, muita interioridade, um tipo de atuação que raramente se impõe em campanhas de Oscar, mas que o BAFTA historicamente valoriza. Blethyn não está ali como “coadjuvante exótica” da temporada, ela representa uma escola de interpretação que o cinema britânico se recusa a abandonar.
Já I Swear aposta em outro registro. O filme acompanha um jovem envolvido em um caso judicial que expõe tensões de classe, masculinidade e moralidade na Inglaterra contemporânea. Robert Aramayo surge como protagonista em uma performance contida, nervosa, marcada por silêncios e microgestos: um tipo de trabalho que dialoga mais com o teatro e a televisão britânicos do que com a retórica emocional que costuma seduzir a Academia americana. O BAFTA o acolhe como “ator sério”, ainda que Hollywood mal o registre.
Em Pillion, Harry Melling assume um personagem desconfortável, ambíguo, quase anti-carismático, em um drama que explora relações de poder, sexualidade e marginalidade. É uma atuação de risco, que deliberadamente evita empatia fácil, exatamente o tipo de escolha que costuma ser celebrada no circuito europeu, mas que raramente se converte em narrativa de prêmios nos Estados Unidos.
E talvez o caso mais simbólico seja The Ballad of Wallis Island. O filme, uma história melancólica ambientada numa ilha isolada, acompanha personagens que vivem entre memória, pertencimento e a sensação de estar fora do tempo. Carey Mulligan aparece em um registro oposto ao de seus papéis mais “premiáveis”: menos grandiloquente, mais etéreo, sustentado por atmosfera e presença. É um trabalho de precisão emocional, profundamente britânico em sua contenção e, por isso mesmo, pouco alinhado ao gosto mais explícito das campanhas americanas.

Esses títulos e performances ajudam a explicar por que o BAFTA, embora previsível em seu eixo central, não é simplesmente uma réplica do Oscar. Ele reafirma um circuito de prestígio que valoriza o intimismo, a ambiguidade moral e a tradição do realismo britânico, mesmo quando esses trabalhos não conseguem atravessar o Atlântico em forma de narrativa de premiação.
Nada disso significa que o prêmio esteja disposto a subverter completamente a temporada. Ao contrário: o desenho geral é seguro. One Battle After Another e Sinners concentram as apostas. DiCaprio, Chalamet, Jordan, Stone, Lawrence. Tudo reconhecível, tudo “onde deveria estar”. A previsibilidade, nesse sentido, não é falha ocasional: é método.
Mas é justamente aí que o BAFTA continua relevante. Ele não decide o Oscar, e às vezes erra de forma elegante, como no caso Blanchett versus Yeoh. Outras vezes, porém, acerta quando poucos ousam, como com Mikey Madison. Funciona menos como espelho da indústria americana e mais como seu contraponto: confirma tendências, mas também testa limites; legitima consensos, mas deixa pistas de onde a temporada pode, ainda, virar.
Em 2026, o quadro é claro. One Battle After Another e Sinners dominam a paisagem. DiCaprio e Chalamet disputam não apenas um troféu, mas duas ideias de protagonismo. Cynthia Erivo encontra no BAFTA um reconhecimento que Hollywood lhe negou. E os atores britânicos — Blethyn, Aramayo, Melling, Mulligan — ocupam, como sempre, um espaço de prestígio que não depende da validação americana.
A lista é previsível, sim. Mas não é irrelevante. Como sempre, o BAFTA não escreve o final da história — ele organiza o enredo. E, às vezes, revela quem está sendo preparado para o último ato.
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