Hollywood ama ou detesta Gwyneth Paltrow?

Há algo de sintomático no fato de que um dos projetos que Gwyneth Paltrow não chegou a fazer tenha sido justamente um remake de um dos filmes mais celebrados do cinema latino-americano. Secret in Their Eyes era a refilmagem americana de O Segredo dos Seus Olhos, obra argentina de Juan José Campanella que venceu o Oscar de Filme Internacional e permanece, para muitos — e para mim —, como um dos melhores thrillers políticos do século. Gwyneth foi anunciada no elenco em 2014. Meses depois, foi substituída. O filme acabou lançado em 2015, com Julia Roberts e Nicole Kidman, e tornou-se um exemplo clássico de como Hollywood pode esvaziar a força moral, política e emocional de um original estrangeiro.

Mas a troca de elenco não é o ponto central. O episódio funciona melhor como metáfora. A questão não é se o remake “falhou” em relação ao filme argentino. A questão é como, naquele momento, Gwyneth Paltrow já havia se tornado uma figura desconfortável para a indústria: não apenas uma atriz, mas um símbolo, um ruído, uma presença que carregava mais significados do que papéis.

E talvez seja aí que sua história fique realmente interessante.

Gwyneth surgiu como talento legítimo. Não foi um fenômeno de marketing: foi uma atriz que se impôs cedo, com um tipo de elegância natural que Hollywood sempre soube transformar em narrativa. Ela não apenas atuava: ela encarnava uma ideia de mulher contemporânea: sofisticada, urbana, inteligente, dona de um capital cultural que extrapolava a tela. Sua vida pessoal, seus relacionamentos, seu estilo, tudo fazia parte do mesmo espetáculo. Antes que a palavra “branding” se tornasse onipresente, Gwyneth já era uma marca.

O Oscar por Shakespeare Apaixonado a colocou em um patamar quase inalcançável, e, paradoxalmente, num campo minado. No Brasil, a estatueta ficou associada à narrativa de que ela “tirou” o prêmio de Fernanda Montenegro; eu, pessoalmente, sempre achei que aquela disputa se dava com Cate Blanchett, mas isso pouco importa. O que importa é que o Oscar cristalizou uma imagem: Gwyneth como vencedora controversa. A partir dali, não se tratava mais apenas de talento. Tratava-se de legitimidade.

Ela ainda trabalhou bastante depois disso. Não é verdade que tenha “parado” por causa de uma crise. O que mudou foi a natureza da cobrança. Depois do Oscar, o erro passou a pesar mais que o acerto. Mesmo quando acertava — no teatro, em Proof, por exemplo —, o sucesso vinha acompanhado de uma expectativa quase punitiva: o próximo papel precisava justificar o prêmio, a imagem, o mito. E os projetos, aos poucos, deixaram de dialogar com essa narrativa.

Ao mesmo tempo, sua vida pessoal entrava em outra fase. O casamento, os filhos, a busca por um cotidiano que não fosse regido apenas por sets e campanhas. Foi nesse intervalo que surgiu algo que redefiniria completamente sua relação com a cultura: a Goop.

Quando nasceu, a Goop não era um império de bem-estar, muito menos uma máquina de polêmicas. Era um boletim pessoal, quase íntimo, sobre estilo de vida, alimentação, espiritualidade, autocuidado. O estranhamento veio rápido. O tom era diferente de tudo que Hollywood produzia: menos aspiracional no sentido clássico e mais confessional, mais autoral. Sem que ela planejasse isso de forma consciente, Gwyneth abriu caminho para o que hoje chamamos de “influencer”, não como celebridade que vende produtos, mas como alguém que transforma a própria subjetividade em plataforma.

O problema é que a Goop não ficou só na curadoria de estilo de vida. Vieram os exageros, as pseudociências, os produtos controversos, as recomendações questionáveis. A marca virou objeto de sátira e crítica, mas também de poder econômico real. E, nesse ponto, a atriz virou outra coisa: uma empresária que desafiava o lugar esperado para uma vencedora do Oscar. Hollywood, que sempre soube lidar com divas, não sabia exatamente como lidar com uma estrela que preferia vender velas aromáticas e discursos de “bem-estar” a disputar papéis de prestígio.

Sua trajetória pessoal também contribuiu para essa ambiguidade. A morte do pai — figura central em sua formação e em sua relação com o trabalho — marcou uma inflexão visível. Os relacionamentos, os casamentos, o divórcio de Chris Martin anunciado como “conscious uncoupling” (e ridicularizado à exaustão), tudo isso a colocou num lugar de exposição que não era mais glamour, mas estranhamento público. A própria Gwyneth admite hoje que repensou carreira e prioridades a partir desses choques.

Ainda assim, ela nunca desapareceu por completo. Esteve em participações menores, porém estratégicas: Glee, onde brincou com sua própria imagem; o universo Marvel, onde virou parte de uma das maiores franquias da história do cinema. Não eram papéis de prestígio, mas eram presenças em fenômenos culturais globais. Ela trocou centralidade por ubiquidade.

Vieram também as polêmicas da Goop, a desconfiança da indústria, e, mais recentemente, o relato de que foi “demitida” de um projeto após o divórcio, por se tornar uma figura considerada “problemática” para os estúdios. É impossível não ver nisso um retrato da lógica de Hollywood: celebra a singularidade até o momento em que ela se torna difícil de administrar.

E chegamos ao presente. Gwyneth faz campanha por Marty Supreme, volta a circular na temporada de premiações, mas não está entre os indicados. O gesto é revelador. Ela não busca mais o centro do palco, mas tampouco se retira completamente. Continua orbitando a indústria que a consagrou, e da qual, em certa medida, se afastou por escolha.

No fim das contas, a pergunta permanece: Hollywood ama ou detesta Gwyneth Paltrow?

Talvez as duas coisas. Ama o que ela representa: a atriz elegante, a vencedora do Oscar, a mulher que personificou uma era de sofisticação cultural. Detesta o que ela se tornou: alguém que não se encaixa mais nos papéis pré-definidos, que fala demais sobre o que pensa, sobre quem não quis namorar, sobre o que não gosta, sobre o que rejeita. Gwyneth é sincera, e sinceridade, em Hollywood, raramente é um valor confortável.

O que faz dela uma figura tão interessante não é a soma de seus filmes, mas o modo como sua trajetória espelha as contradições da própria indústria: a obsessão por narrativas de ascensão, o incômodo com mulheres que envelhecem fora do script, a dificuldade em aceitar que uma estrela possa preferir ser empresária, mãe, autora da própria imagem, em vez de apenas personagem.

Talvez seja por isso que ela continue sendo referência, mesmo quando não está no centro. Não como consenso, mas como incômodo. E, às vezes, é justamente aí que mora a relevância.


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