Golden Globes 2026: entre a festa, o “roast” e a renovação que ainda engatinha

Hollywood vai comparecer. Vai sorrir para as câmeras. Vai celebrar a volta da “boa energia” do Golden Globes depois de anos de crise. E, quase certamente, vai repetir um ritual tão previsível quanto revelador: fazer piadas sobre os jornalistas estrangeiros — seus sotaques, seus hábitos, sua suposta “estranheza”, seu gosto considerado duvidoso — enquanto aceita, sem constrangimento, os prêmios, o tapete vermelho, a visibilidade e a legitimidade simbólica que a mesma associação oferece.

Sempre me soou como algo além de humor. Não é apenas ironia. É um tipo de xenofobia estrutural embrulhada em afeto, o “roast carinhoso” que nunca seria usado com críticos americanos, nem com o voto popular, nem com os próprios pares da indústria. Os críticos podem errar. O público pode ser volúvel. Mas a imprensa estrangeira, historicamente, vira piada.

Os exemplos são numerosos demais para serem coincidência. Discursos que ironizam o “sotaque pesado”, o “inglês quebrado”, o “mau gosto europeu”, a suposta incompreensão cultural. Apresentadores que transformam a HFPA em personagem exótico: uma plateia curiosa, deslocada, quase folclórica. Pouquíssimos vencedores resistem à tentação de transformar a instituição que os consagra em alvo fácil, sempre com a ressalva de que é “brincadeira”, “com carinho”, “nada pessoal”.

Mas é justamente aí que o gesto se revela. Ninguém satiriza o poder sem consequências; satiriza-se apenas o que já é percebido como periférico. O Golden Globes pode ser desejado, mas seus votantes nunca foram tratados como iguais. E isso diz muito sobre Hollywood.

A relação da indústria com o Golden Globes sempre foi ambígua. Por um lado, é uma vitrine incomparável: a primeira grande festa da temporada, o tapete vermelho que inaugura narrativas de campanha, o prêmio que organiza a corrida ao Oscar e ao Emmy. Por outro, é constantemente deslegitimado: votos supostamente aleatórios, favoritismo por celebridades, falta de rigor crítico, opacidade institucional. O curioso é que essa desconfiança nunca se transforma em ruptura. Ao contrário: todos continuam indo, posando, agradecendo. Critica-se o método, mas usufrui-se do palco. Questiona-se a autoridade, mas aceita-se o selo. E, quase sempre, a crítica é direcionada não ao sistema de premiação como um todo, mas à origem estrangeira de quem o compõe.

Não é que o Golden Globes esteja livre de problemas. Nunca esteve. Desde sua consolidação no pós-guerra, ocupou um lugar peculiar: menos solene que o Oscar, menos “artístico” que os festivais europeus, mais informal, mais televisivo, mais permeável ao marketing dos estúdios. Ao longo das décadas, acumulou acusações de lobby agressivo, conflitos de interesse, falta de diversidade, votações questionáveis e uma estrutura institucional opaca. O colapso de credibilidade no início dos anos 2020 não surgiu do nada. Apenas escancarou um problema antigo: uma premiação poderosa sem o mesmo nível de escrutínio que se exige de instituições equivalentes dentro dos Estados Unidos. A resposta foi a prometida “renovação”: mudanças de governança, ampliação do corpo votante, regras de ética, reestruturação do modelo de transmissão, reposicionamento de marca. Um esforço real de sobrevivência.

Mas é impossível ignorar o quanto essa crise também revelou algo mais profundo: o desconforto de Hollywood com o fato de que um dos seus principais palcos de legitimação internacional não é controlado por americanos.

Há uma assimetria evidente no tipo de humor que se pratica ali. Não se fazem piadas recorrentes sobre a “ignorância cultural” do público, nem sobre o suposto elitismo dos críticos americanos. Tampouco se constrói uma persona caricatural do Oscar, do SAG ou do People’s Choice. O alvo preferencial são os “estrangeiros”. O discurso é sempre o mesmo: “eles não entendem a gente”, “eles gostam de coisas estranhas”, “eles falam engraçado”, “eles não sabem o que é bom de verdade”. O subtexto também é constante: o centro da cultura é americano; o resto observa de fora. Essa dinâmica transforma uma instituição internacional em uma espécie de mascote exótico e reforça uma hierarquia simbólica: Hollywood como norma, o mundo como variação. Não é uma hostilidade aberta. É pior: é condescendência estrutural.

Chegamos a esta edição de 2026 com o Golden Globes ainda em processo de reconstrução de identidade. A cerimônia quer provar que é moderna, ética, relevante, conectada com um mercado global e com uma indústria em transformação. Quer ser novamente o início da temporada, não um parêntese embaraçoso. O que se espera desta noite é uma narrativa cuidadosamente ensaiada de renovação e credibilidade, um esforço visível para equilibrar cinema e streaming, blockbuster e autoral, Hollywood e mercado internacional, além de discursos que falam de diversidade, pertencimento e “novo momento”. E, muito provavelmente, o velho reflexo condicionado: piadas sobre a HFPA, sobre sotaques, sobre “estrangeiros estranhos”, como se o passado pudesse ser exorcizado com humor.

Os prêmios continuarão sendo estratégicos. Servem para legitimar favoritos cedo, reposicionar campanhas e testar a temperatura da indústria. O Globo de Ouro não decide o Oscar, mas molda a conversa. Organiza expectativas. Cria narrativas de consenso, de virada e de azarão. O risco é que, na ânsia de provar normalidade, a cerimônia repita exatamente os códigos que a tornaram problemática: celebrar a diversidade no discurso enquanto reforça, na forma, uma hierarquia cultural antiga.

O Golden Globes sempre foi um espelho incômodo de Hollywood. Um prêmio desejado e desdenhado. Uma festa elegante atravessada por ironias. Um palco de consagração onde o próprio júri vira piada. Em 2026, no meio de sua renovação, a pergunta não é apenas se a instituição se tornou mais ética ou mais representativa. É mais profunda: Hollywood está disposta a tratar a imprensa estrangeira como parte legítima de seu ecossistema ou continuará usando o humor como forma de manter distância e superioridade? Porque não há nada de inocente em quem aceita o prêmio, aplaude a festa e, ao mesmo tempo, ridiculariza quem o concede. Talvez a verdadeira maturidade do Golden Globes não esteja apenas em novas regras ou novos votantes, mas no dia em que essa piada deixar de ser automática.


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