Apesar de ser uma série abertamente macho alfa pré-metoo, Landman começou com potencial dramático, mas a fórmula das 24h de problemas na vida de Tommy Norris se tornaram rapidamente um loop de mesmos dramas, clichês e momentos ofensivos. Me comprometo a encerrar a tempotada, mas não tenho estômago para recap de uma terceira. Está muito ruim. Vamos lá.
O episódio 9 da segunda temporada de Landman começa com seu usual estado de agitação: telefonemas, despedidas, decisões importantes à vista. O projeto de perfuração offshore finalmente sai do papel, e Nate e Tommy passam o dia articulando detalhes. Em paralelo, Rebecca tenta consertar o que quase desmoronou com Charles: vai até a casa dele, pede desculpas, admite estar solitária e apaixonada. Poucos vôos turbulentos são efetivos assim mesmo. Ou é a solidão do trabalho, fica a critério de casa um. Só que ela permanece irritante: sozinha ou acompanhada.
O novo casal sabe que discorda em pontos essenciais — e que ele ficará seis meses no mar —, mas decide insistir.
Até aqui, tudo soa como preparação para um capítulo de virada. Mas o que se segue revela um episódio curioso: cheio de acontecimentos, mas surpreendentemente pobre em avanço dramático.

Cooper assume o comando e ignora os alertas
Enquanto isso, Cooper sai a campo com Boss e o resto da equipe para decidir o local da próxima perfuração. Boss discorda da escolha, alerta para os riscos, mas Cooper crava: agora a operação é dele. A equipe obedece. O gesto é importante porque marca uma mudança de posição: Cooper deixa de ser promessa para se comportar como líder. Mas, dramaticamente, a série não explora o peso dessa decisão. Ela acontece, é executada… e o episódio segue adiante.
Angela, Ainsley e a subtrama que esvazia o capítulo
Depois de uma longa despedida com Angela, Ainsley chega ao dormitório do acampamento de líderes de torcida. É o que Taylor Sheridan aproveita para despejar o machismo estrutural e, mais ainda, ridicularizar a cultura politicamente correta. Mesmo que ele tenha seus pontos, é tão pesadamente escrito que só irrita: dos dois lados.
Claro que a nova colega de quarto de Aisley seria um problema. Paigyn, usa pronomes they/them, é vegana, tem um furão de estimação, e o convívio desanda rapidamente. Mimada e manhosa, Ainsley liga chorando para a mãe. Porque se Tommy é o landman dos machos, Angela é a resolve tudo no mundo externo. Ela aparece e encontra uma solução para manter a filha como é: decide transferir toda a equipe para um novo apartamento.
As duas personagens que derretem o durão Tommy Norris só consomem nosso tempo, e aqui, ocupa metade do penúltimo episódio quando NADA do universo de Ainsley seja relevante para petróleo, traficantes, ou risco de morte. É sempre e apenas arco lateral, sem consequências reais para a história principal.

T.L. e Cheyenne: intimidade sem função dramática
De volta à casa, Cheyenne aparece para a sessão de hidroterapia com T.L. Mais tarde, revela que seu nome verdadeiro é Penny, e os dois conversam sobre sonhos e planos. A cena funciona isoladamente, mas não aqui. No episódio 9, quando o ritmo deveria acelerar, esse tipo de pausa apenas reforça a sensação de dispersão. Toda vez que Sam Elliot entra é hora de explorar sua voz gutural. E tenho certeza que Tommy não desconfia, mas contratou sua futura madrasta para salvar seu pai.
Cami demite Tommy
A trama finalmente reencontra seu núcleo dramático na plataforma de perfuração. O lançamento do equipamento é tratado como evento: há clima de celebração, expectativa, aposta. Para Cami, se é para correr um risco desse tamanho, é melhor abraçá-lo por completo.
Sozinha com Tommy, ela verbaliza o que já vinha se insinuando: o negócio lhe dá um “barato”, uma descarga de adrenalina que ela quer experimentar sem freios. Tommy, ao contrário, conhece esse sentimento e quase perdeu tudo por causa dele. Por isso, é vigilante, cauteloso, resistente à euforia. Essa divergência de visão não termina em debate. Termina em demissão.
Cami dispensa Tommy por considerá-lo avesso ao risco. Exatamente como Dan havia previsto, mais ainda, avisado. O impacto da cena é real: o personagem que funcionava como consciência crítica do projeto é retirado da equação no momento mais sensível. Dramaticamente, é a decisão mais forte do episódio e a que deveria irradiar consequências para todo o resto da narrativa.

Violência no bar: a sirene que fecha o capítulo
No desfecho, a série retorna ao plano físico da ameaça. Johnny ataca Ariana nos fundos do bar. Cooper chega, entende o que está acontecendo e reage com violência extrema, espancando o agressor até quase matá-lo. É um momento brutal, sem verniz heroico: o tipo de cena que não pede aplauso, mas julgamento.
Funciona como cliffhanger, mas também como síntese temática: quando as estruturas falham, a resposta vira instinto. Justiça se confunde com vingança. “Proteção” se transforma em excesso. Ao som da sirene se aproximando estamos na dúvida se queremos que Cooper consiga se livrar da cadeia. Pelo menos seria menos dois personagens irritantes em cena.
E aqui está o paradoxo de “Planos, lágrimas e sirenes”. Há material dramático suficiente para um grande capítulo: a saída de Tommy, o início da operação offshore, a afirmação de Cooper, a violência contra Ariana. No entanto, metade do episódio é consumida por subtramas de baixo impacto narrativo.
É uma pena. Landman surgiu com brilho, ambição e um universo rico em conflitos. Falta um último episódio antes da conclusão da temporada. Encerrar esses arcos vazios será desafiante, mais ainda resgatar a intensidade que a série prometia. Pelo que vimos até aqui, não é impossível, mas exigirá mais do que planos, lágrimas e sirenes. Exigirá foco.
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