Leonardo DiCaprio é um representante da Geração X, mas um que — talvez por seus papéis e por uma carreira iniciada ainda muito jovem — foi abraçado com carinho por millennials e pela Geração Z. Claro, da forma que se tornou a mais comum: via memes.
Há mais de dez anos, quem frequenta redes sociais ou se comunica com amigos certamente já esbarrou em alguma figurinha, GIF ou meme do ator. Ele não ocupou esse lugar por tentar ser engraçado, nem por se oferecer ao jogo da autoparódia, mas porque seu rosto, suas reações e seus silêncios passaram a funcionar como códigos coletivos. Em algum ponto da última década, Leo deixou de ser apenas um ator consagrado para se transformar em um banco de imagens emocionais: surpresa, ironia, incredulidade, celebração contida, constrangimento educado. Tudo isso cabe em um frame dele.
Talvez o ponto de virada tenha sido O Lobo de Wall Street, seguido por O Grande Gatsby: o brinde com a taça, o sorriso enviesado, o olhar de quem sabe exatamente o que está fazendo e, ao mesmo tempo, parece se divertir com a própria caricatura. A partir dali, a cultura digital passou a tratá-lo como um atalho visual para certos estados de espírito: “isso aqui merece um brinde”, “eu avisei”, “olha eu fingindo normalidade”. Depois veio o Oscar por O Regresso e, com ele, o meme que transformou a vitória em catarse coletiva. Não era apenas um ator finalmente premiado; era um personagem simbólico da internet recebendo o desfecho que a própria internet havia escrito para ele.

O curioso é que DiCaprio nunca foi exatamente performático fora da tela. Não cultiva a persona do meme, não provoca o próprio mito, não se apoia na autoparódia como estratégia de comunicação. Ao contrário: sempre pareceu desconfortável com a lógica do espetáculo permanente. Seus gestos públicos são comedidos, suas entrevistas, raras, seu humor, seco. Tanto que Nikki Glaser voltou a fazer piada sobre a juventude de suas namoradas e depois pediu desculpas, alegando que ele compartilha tão pouco de si que sobra apenas o pouco que se sabe — incluindo os memes. E, ainda assim, é justamente essa contenção que o torna tão “legível” para a cultura do recorte. Um meio sorriso vira ironia. Um levantar de sobrancelha vira julgamento. Um brinde vira símbolo.
Com o tempo, Leo passou a demonstrar consciência desse fenômeno. Em eventos, tapetes vermelhos, cerimônias, tornou-se visivelmente mais cuidadoso com as próprias reações. O corpo inclina para dentro, o gesto diminui, a mão frequentemente sobe ao rosto, cobrindo a boca enquanto fala ou ri. Não é paranoia: é a percepção de que qualquer segundo fora de contexto pode virar linguagem pública. Ele sabe que vive sob a lógica do frame. E tenta, à sua maneira, escapar dela.
É justamente por isso que o chamado “K-pop thing” nos Golden Globes de 2026 ganhou a força que ganhou. Porque, naquele breve intervalo comercial, essa vigilância parece ter falhado. Um vídeo curto, sem áudio, com DiCaprio gesticulando, animado, aparentemente contando uma história a alguém fora do enquadramento. Ele tenta cobrir a boca, tenta falar baixo, tenta reduzir o campo de leitura, e, ainda assim, a cena escapa. Em minutos, está nas redes. Em horas, virou enigma. O que ele disse? Para quem? Estava ironizando? Estava elogiando? Estava apenas comentando um momento da cerimônia? Ninguém sabe ao certo. E talvez isso seja o mais fascinante.
A internet, que já havia transformado DiCaprio em reação, agora o transformava em mistério. Vieram as apostas, as leituras labiais amadoras, as teorias sobre com quem ele falava, as interpretações sobre o tom — se era uma piada interna, um comentário geracional, uma observação meio deslocada sobre o universo do K-pop que dominara parte da noite. Vieram também as críticas, como sempre: acusações de condescendência, de “desconexão”, de suposta ironia com algo que não lhe pertence culturalmente. E, claro, vieram as piadas, os memes sobre o ator que tenta escapar dos memes e acaba produzindo mais um.
O que eu li — sim, dá para “ler” — é que ele estava brincando com alguém próximo, na mesma mesa. Alguns apostam em Chase Infiniti, que interpreta sua filha em Uma Batalha Depois da Outra e é conhecida por ser fã de K-pop. Faz sentido, porque ele parece dizer algo como: “Eu estava olhando para você na ‘hora da coisa do K-pop’… é ele ou é o K-pop? Ah, é você”, e então começa a rir. Repete a frase, aplaudindo e apontando para outra mesa — provavelmente onde estava o elenco de K-pop Demon Hunters —, até ser interrompido para dar um autógrafo.

Mas há algo mais profundo nessa cena do que a anedota. O “K-pop thing” não viralizou apenas porque era engraçado ou curioso. Viralizou porque expõe o paradoxo central de DiCaprio na cultura contemporânea: ele é, ao mesmo tempo, um dos últimos grandes atores de prestígio clássico de Hollywood e uma figura completamente absorvida pela lógica digital. Sua imagem não pertence mais só a ele, nem aos filmes que faz. Pertence ao repertório coletivo de reações, ironias e códigos da internet.
E talvez seja por isso que seus memes nunca soem como simples escárnio. Há neles uma camada de admiração, de cumplicidade cultural. Rimos com ele, não apenas dele. Reconhecemos em seus gestos algo nosso: a ironia contida, o comentário de canto de boca, o olhar que diz mais do que a frase inteira. Quando DiCaprio vira meme, não é porque se tornou pequeno demais para sua própria grandeza, mas porque sua imagem se tornou grande demais para caber apenas no cinema.
No fundo, o “K-pop thing” não é um tropeço de imagem. É a confirmação de um processo que já estava em curso. Mesmo quando tenta se proteger, mesmo quando cobre a boca, mesmo quando fala fora do microfone, Leonardo DiCaprio continua sendo uma linguagem pública. Seus silêncios são interpretados. Seus gestos são legendados. Suas expressões são compartilhadas. Ele é um ator que se tornou, involuntariamente, um dicionário visual da era digital.
E talvez não haja ironia maior — ou mais contemporânea — do que essa: um artista obcecado pelo controle da própria imagem, famoso por performances meticulosamente construídas, transformado em matéria-prima da cultura do improviso, do recorte, do meme. No mundo de hoje, até quem tenta não ser viral acaba, em algum momento, dizendo algo que a internet decide guardar. Mesmo que ninguém jamais descubra exatamente o que foi dito.
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