Golden Globes 2026: a noite em que o Brasil virou centro e Wagner Moura deixou de ser exceção

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Todos os sites e jornais americanos estão alinhados com os brasileiros hoje: a vitória de Wagner Moura no Golden Globes não é um troféu a mais numa estante respeitável, é uma virada narrativa. Ele deixa de ser “o grande ator brasileiro que deu certo lá fora” para se tornar, finalmente, uma figura central da temporada de premiações. Um protagonista do debate. Isso, podemos argumentar, é uma vitória de maior peso do que qualquer Oscar e uma que é mais significativa também.

Existe algo na recepção de Wagner nos Estados Unidos que lembra, sim, o fenômeno Fernanda Torres em 2024: não o espanto exótico, mas o encantamento genuíno. A vivacidade, a coerência, a tranquilidade diante do sistema. Com o prêmio já anunciado pelo Globo, Wagner não aparece como alguém “descoberto” pelo circuito, mas como alguém que chega pronto. Mesmo fora do SAG, a leitura do mercado é objetiva: a quinta vaga de Melhor Ator é dele. E isso, na prática, reposiciona a corrida. Para Timothée Chalamet, por exemplo, não é exagero falar em “ameaça”. O Agente Secreto é um filme politicamente pulsante, conectado aos medos contemporâneos de uma parte significativa da sociedade americana, muito mais simbólico, neste momento histórico, do que uma cinebiografia de campeão de pingue-pongue.

Mas a repercussão vai além da matemática da temporada.

Wagner Moura mora em Los Angeles há mais de uma década, construiu uma carreira sólida em filmes e séries de grande alcance e, ainda assim, surge agora como uma “novidade” na cultura de celebridades. Não por desconhecimento de seu trabalho, mas porque ele nunca se encaixou completamente no molde. Ao contrário de tantos percursos moldados pela assimilação, Wagner manteve algo que nós reconhecemos imediatamente: sua brasilidade. Ele mesmo nomeou isso, em entrevista ao New York Times, como “pirraça”. Sabia que, para crescer no mercado local, a rota mais previsível seria abraçar o rótulo latino e se adaptar às regras do jogo, mas por teimosia, preferiu a rota mais árdua. E, ao fazer isso, abriu um caminho próprio.

E talvez seja por isso que a vitória do Golden Globes tenha dialogado de maneira tão precisa com a própria leitura da noite.

A gente passa o ano inteiro reclamando da previsibilidade das premiações. Da sensação de que tudo já está decidido antes mesmo do tapete vermelho, de que os favoritos entram na sala sabendo que vão sair com o troféu. Em 2026, porém, essa previsibilidade teve um gosto raro para o Brasil: ela finalmente trabalhou a nosso favor.

O Golden Globes terminou com um retrato claro da temporada e, pela segunda vez consecutiva, esse retrato incluiu o Brasil no centro da narrativa. Além de Moura como Melhor Ator, O Agente Secreto também levou o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Foi o melhor repeteco de 2025 que poderíamos querer e o impacto dessa sequência é difícil de exagerar. Pela primeira vez em muito tempo, não fomos tratados como exceção exótica, mas como parte do centro da conversa.

Se o Brasil representou a confirmação, a grande surpresa da noite veio com Hamnet vencendo como Melhor Filme Drama. A disputa estava claramente entre Pecadores e Uma Batalha Depois da Outra, deixando Hamnet com cara de azarão. Na prática, nada muda. O Oscar de 2026 já parece desenhado. O que o prêmio dos jornalistas estrangeiros confirma é a força de Hamnet dentro do top 5 do ano. A vitória veio acompanhada de outra decisão que já se desenhava nos bastidores: Jessie Buckley venceu como Melhor Atriz em drama, consolidando de vez sua posição como uma das favoritas ao Oscar.

O desenho da noite fica ainda mais claro quando se olha para o conjunto de vencedores. Houve surpresas. Eu mesma apostava em Amy Madigan como atriz coadjuvante, mas Teyana Taylor se assustou tanto quanto a gente ao vencer. Stellan Skarsgård levou como Ator Coadjuvante por Sentimental Value, eliminando qualquer esperança maior de Frankenstein emplacar com Jacob Elordi. Paul Thomas Anderson confirmou seu domínio ao levar Direção e Roteiro; Timothée Chalamet venceu como Melhor Ator em Musical ou Comédia por Marty Supreme; Pecadores ficou com Cinematic and Box Office Achievement e Trilha Sonora Original; KPop Demon Hunters venceu como Melhor Animação e ainda levou Canção Original com “Golden”. Como eu havia apontado um ano atrás, Rose Byrne voltou forte: venceu como Melhor Atriz em Musical ou Comédia por If I Had Legs I’d Kick You e hoje é a principal “ameaça” a Buckley, ainda que não necessariamente decisiva.

Na televisão, The Pitt venceu como Melhor Série Drama e deu a Noah Wyle o prêmio de Melhor Ator. Minha visão permanece: é uma boa série, mas não a mais original do ano. Rhea Seehorn venceu como Melhor Atriz por Pluribus. Como esperado, The Studio levou Melhor Série em Musical ou Comédia e garantiu a Seth Rogen o prêmio de ator; Jean Smart venceu por Hacks; Adolescência dominou as categorias de minissérie. A vitória de uma ausente Michelle Williams por Dying for Sex foi curiosa: ela está espetacular, mas a série não teve grande repercussão. Ricky Gervais venceu em stand-up, e, na estreia da nova categoria, Good Hang with Amy Poehler foi eleito Melhor Podcast.

Os discursos e gestos da noite ajudaram a carimbar o tom do evento. Nikki Glaser conduziu a cerimônia com precisão e encerrou com uma homenagem visual a Rob e Michele Reiner, misturando luto e cultura pop como o Globo costuma fazer quando quer criar uma imagem de encerramento. E, pela primeira vez em muitos anos, ninguém fez piada com os jornalistas estrangeiros. O mundo está, de fato, internacionalizado. Já não fazia sentido.

Mas o que dá espessura histórica a esta noite não é apenas o troféu, é o que Wagner faz com ele depois.

Até março, sua vida pública é um desfile quase coreografado de prêmios, tapetes vermelhos, entrevistas e campanhas de estúdios. Por trás da imagem de consagração, porém, o que se impõe é algo menos glamouroso e mais revelador: muito trabalho. Não um hiato celebrado, não uma pausa de “estrela internacional”, mas uma fase de produção intensa, planejada, quase industrial na disciplina. Wagner chega a 2026 com cinco projetos já confirmados, dois em pós-produção e outros três em estágios iniciais. O reconhecimento não o colocou em modo de espera; ao contrário, funciona como alavanca para uma fase de expansão autoral e política.

Por isso, o Golden Globes foi uma grande noite para o cinema brasileiro, uma que garante narrativa e relevância. Wagner Moura sai daqui não apenas como vencedor, mas como alguém que a indústria decidiu abraçar numa das disputas mais concorridas do ano. O Agente Secreto é o filme do momento, mas Wagner ainda precisa estar entre os cinco indicados ao Oscar. Eu aposto que estará, mesmo em um ano que parece de Timothée Chalamet.

Por isso, mesmo ainda faltando bastante para o fim da temporada, a noite foi histórica para o Brasil não apenas porque vencemos, mas porque vencemos de novo. Porque aquilo que antes era exceção começou a parecer continuidade. A previsibilidade, que tantas vezes nos excluiu, desta vez disse exatamente o que a gente queria ouvir. Em 2026, o favorito também falava português.


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