A gente passa o ano inteiro reclamando da previsibilidade das premiações. Da sensação de que tudo já está decidido antes mesmo do tapete vermelho, de que os favoritos entram na sala sabendo que vão sair com o troféu. Em 2026, porém, essa previsibilidade teve um gosto raro para o Brasil: ela finalmente trabalhou a nosso favor.
O Golden Globes terminou com um retrato claro da temporada e, pela segunda vez consecutiva, esse retrato incluiu o Brasil no centro da narrativa. Wagner Moura venceu como Melhor Ator em filme drama por O Agente Secreto, fazendo história, e o longa ainda levou o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Não foi um acaso. Não foi um gesto simbólico. Foi uma vitória dentro da lógica da indústria, naquela que é, tradicionalmente, a categoria mais dura da noite.

O impacto dessa sequência é difícil de exagerar. Em 2025, Fernanda Torres já havia vencido como Melhor Atriz em drama. Em 2026, o Brasil volta ao palco principal, agora com um ator consagrado e um filme político, denso, ambientado no Brasil da ditadura. O discurso de Moura foi direto: memória, trauma geracional, valores que atravessam épocas difíceis. Não foi um prêmio apesar do tema. Foi um prêmio por causa dele. Pela primeira vez em muito tempo, não fomos tratados como exceção exótica, mas como parte do centro da conversa.
Se o Brasil representou a confirmação, a grande surpresa da noite veio com Hamnet vencendo como Melhor Filme Drama. Quem lê minhas colunas sabe que este é um “filme Oscar”, com potencial desde o início, mas a briga estava claramente entre Pecadores e Uma Batalha Depois da Outra, deixando Hamnet com cara de azarão. Na prática, nada muda. O Oscar de 2026 já parece definido. O que o prêmio dos jornalistas estrangeiros confirma é a força de Hamnet dentro do top 5 do ano.
A vitória do filme veio acompanhada de outra decisão que já vinha se desenhando nos bastidores: Jessie Buckley venceu como Melhor Atriz em drama por sua interpretação, consolidando de vez sua posição como uma das favoritas ao Oscar.
O desenho da noite fica ainda mais claro quando se olha para o conjunto de vencedores. E houve algumas surpresas. Eu mesma apostava em Amy Madigan como atriz coadjuvante, mas Teyana Taylor se assustou tanto quanto a gente ao vencer. Stellan Skarsgård levou como Ator Coadjuvante por Sentimental Value, eliminando qualquer esperança maior de Frankenstein emplacar com Jacob Elordi. Não sei se essas vitórias mudam a história do Oscar, mas, sem dúvida, deixaram a noite mais interessante.
Paul Thomas Anderson confirmou seu domínio ao levar Direção e Roteiro; Timothée Chalamet venceu como Melhor Ator em Musical ou Comédia por Marty Supreme; Pecadores ficou com o prêmio de Cinematic and Box Office Achievement e com a Trilha Sonora Original; KPop Demon Hunters venceu como Melhor Animação e ainda levou Canção Original com “Golden”. E, como eu cantei em janeiro de 2025, Rose Byrne voltaria de Berlim com grandes chances de estar entre as principais do ano. Dito e feito: venceu como Melhor Atriz em Musical ou Comédia por If I Had Legs I’d Kick You. Hoje, ela é a principal “ameaça” a Buckley, ainda que eu não saiba se de forma realmente decisiva.


Na televisão, The Pitt foi eleito Melhor Série Drama e deu a Noah Wyle o prêmio de Melhor Ator em série dramática. Minha visão impopular permanece: mesmo sendo uma boa série, “não é tudo isso”. Havia opções mais originais e impactantes. Por exemplo, Rhea Seehorn venceu como Melhor Atriz em série dramática por Pluribus, uma produção bem mais debatida do que “mais um drama de hospital”.
Como esperado, The Studio venceu como Melhor Série em Musical ou Comédia e garantiu para Seth Rogen o prêmio de Melhor Ator na categoria. Jean Smart levou Melhor Atriz em Musical ou Comédia por Hacks, e Adolescência venceu como Melhor Minissérie, dominando as atuações. De certa forma, a vitória de uma ausente Michelle Williams como Melhor Atriz em Minissérie por Dying for Sex foi surpresa. Ela está espetacular, ninguém nega, mas não foi uma série de grande repercussão. Foi curioso.
Outro ausente vitorioso foi Ricky Gervais na categoria de stand-up na televisão e, na estreia da nova categoria, Good Hang with Amy Poehler foi eleito Melhor Podcast.
Os discursos e gestos da noite ajudaram a carimbar o tom do evento. Nikki Glaser, que fez uma boa abertura e conduziu bem a cerimônia, encerrou com uma homenagem visual a Rob e Michele Reiner, usando um boné de This Is Spinal Tap e citando falas do filme, misturando luto e cultura pop com a precisão que só o Globo costuma ter quando quer criar uma imagem de encerramento.
E sobre a festa em si: pela primeira vez em muitos anos, ninguém fez piada com os jornalistas estrangeiros. O mundo está, de fato, internacionalizado. Já não fazia sentido. Fora o fato de o único vencedor que teve “musiquinha” para sair do palco ter sido justamente Kleber Mendonça Filho, que foi mais lento no agradecimento e estourou o tempo, a cerimônia foi surpreendentemente redonda.

Foi uma grande noite para o cinema brasileiro, uma que garante narrativa e relevância. Wagner Moura sai daqui não apenas como vencedor, mas como alguém que a indústria decidiu abraçar numa das disputas mais concorridas do ano. O Agente Secreto é o vencedor anunciado do ano, mas Wagner ainda precisa estar entre os cinco indicados ao Oscar. Eu aposto que estará, mesmo num ano que parece de Timothée Chalamet.
Por isso, mesmo ainda faltando bastante para o fim da temporada, a noite foi histórica para o Brasil não apenas porque vencemos, mas porque vencemos de novo. Porque aquilo que antes era exceção começou a parecer continuidade. A previsibilidade, que tantas vezes nos excluiu, desta vez disse exatamente o que a gente queria ouvir. Em 2026, o favorito também falava português.
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