Wagner Moura: depois dos prêmios e entrevistas, 5 projetos já em produção

Até março, a vida pública de Wagner Moura é um desfile quase coreografado: prêmios, tapetes vermelhos, entrevistas em cadeia, campanhas de estúdios e aquela liturgia da temporada de premiações que transforma o artista em narrativa. Mas, por trás da imagem de consagração, o que se impõe é algo menos glamouroso e mais revelador: muito trabalho. Não um hiato celebrado, não uma pausa de “estrela internacional”, mas uma fase de produção intensa, planejada, quase industrial na sua disciplina.

O momento é raro porque não é apenas simbólico. Wagner chega a 2026 com cinco projetos já confirmados, dois deles em pós-produção — ou seja, prontos para entrar no mundo — e outros três em estágios iniciais, que desenham o próximo arco de sua carreira. O reconhecimento não o colocou em modo de espera; ao contrário, funciona como alavanca para uma fase de expansão autoral e política.

O título mais avançado é 11817, em pós-produção, com estreia prevista para 2026. Dirigido por Louis Leterrier, trata-se de um projeto de grande escala, de ficção científica com contornos de horror, pensado para o circuito global. No elenco, Wagner divide a cena com Greta Lee. É o Wagner de vitrine internacional, inserido no cinema de estúdio, dialogando com gêneros populares e com uma lógica industrial clara. Não é um filme “menor” dentro de sua trajetória; é a prova de que ele ocupa hoje um espaço raro: o de ator autoral que também é nome de mercado.

Também em pós-produção está The Last Day, no qual interpreta um personagem chamado Peter. O projeto mantém perfil mais reservado, mas aponta para um registro contido e dramático, com potencial de circuito de festivais antes do lançamento comercial. (Até o momento, os detalhes de elenco além de Wagner não foram amplamente divulgados.) É o outro polo da sua fase atual: menos espetáculo, mais densidade emocional. A coexistência desses dois filmes — um de escala global, outro de perfil mais intimista — já diz muito sobre a maneira como Wagner organiza sua carreira: não por categorias de prestígio, mas por equilíbrio de linguagem e impacto.

Na outra ponta da linha do tempo está Last Night at the Lobster, em pré-produção, e talvez o projeto mais significativo em termos de identidade artística. Aqui, Wagner não apenas atua: ele dirige e produz, assumindo controle criativo total. A adaptação do romance de Stewart O’Nan, produzida pela Killer Films (Christine Vachon), é um drama sobre trabalho, esgotamento e dignidade, um último turno antes do fechamento de um restaurante. O elenco inclui suas duas co-estrelas em séreis da Apple TV Plus, Elizabeth Moss e Brian Tyree Henry, o que reforça o caráter de projeto autoral em construção. Não há espetáculo, não há pirotecnia: há humanidade sob pressão. É um gesto claro de maturidade: usar o capital simbólico conquistado para viabilizar um cinema de observação, político na forma e no tema, sem slogans.

Também em pré-produção está Angicos, projeto brasileiro cujo título carrega peso histórico. A referência ao episódio que marcou a morte de Lampião sugere um filme de memória, poder e violência de Estado: um território que Wagner conhece e, mais do que isso, escolhe habitar. Até agora, o elenco completo não foi divulgado publicamente, mas a presença de Moura sinaliza um projeto de ambição artística e densidade política. Depois de O Agente Secreto, o retorno a uma narrativa ligada à história brasileira não soa como acaso, mas como coerência: não se trata de “voltar às origens”, e sim de reafirmar um eixo.

Por fim, Say Her Name, também em pré-produção, amplia esse mesmo compromisso para um contexto internacional. O título, carregado de significado dentro dos movimentos por justiça racial nos Estados Unidos, aponta para um projeto de forte densidade social. Aqui ele trabalha com Alicia Vikander, Victoria Pedretti, Sinclair Daniel, Ezra Barnes e Conrad Ricamora. O enquadramento do projeto o insere com precisão na linha de trabalhos que interrogam violência, trauma coletivo e responsabilidade institucional, temas que atravessam a filmografia recente de Wagner com consistência rara.

O que une esses cinco projetos não é o gênero, a escala ou o mercado, mas uma escolha de fundo: não se afastar do trabalho enquanto o mundo o aplaude. Até março, ele estará nos holofotes, fazendo história como o primeiro ator brasileiro a vencer em Cannes e o Golden Globes, e, ao mesmo tempo, em sets, salas de montagem, reuniões de pré-produção. Prêmios e campanhas constroem a narrativa pública; os filmes constroem a trajetória real.

Wagner Moura atravessa um daqueles momentos em que a carreira poderia se tornar confortável. Ele escolhe o oposto. Entre o espetáculo da consagração e a disciplina da criação, fica claro qual dos dois realmente o define.


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