Como publicado em CLAUDIA
Existe uma ideia romântica — e confortável — de que o Oscar premia apenas excelência artística. Mas quem acompanha a história da premiação com atenção sabe: a Academia também é um espelho de expectativas sociais. Ela não decide apenas quem atuou melhor. Decide, silenciosamente, quem pode ser jovem, quem pode envelhecer, quem pode errar, quem precisa provar duas vezes.
Há alguns anos, escrevi sobre uma coincidência incômoda: quantas atrizes que ganham o Oscar se separam pouco depois. Não como superstição, mas como sintoma de um sistema que consagra mulheres ao mesmo tempo em que reorganiza — e muitas vezes pressiona — suas vidas pessoais. Agora, um novo dado recoloca esse debate sob outra luz. O New York Times mostrou algo que, quando olhamos com calma, parece gritante: para homens, juventude é um obstáculo ao Oscar; para mulheres, não. Esse seria, segundo o jornal, o principal entrave para Timothée Chalamet este ano: ele tem “apenas” 30 anos.


E aí vêm os números, porque eles raramente são questionados. Nos últimos vinte anos, nenhum homem venceu o prêmio de Melhor Ator antes dos 30. Nenhum. O mais jovem foi Eddie Redmayne, aos 33. O padrão dominante é outro: homens premiados aos 40, 50, 60 e até 83, como Anthony Hopkins. Leonardo DiCaprio é mais do que um meme nessa narrativa: é a comprovação. Foi indicado pela primeira vez aos 19 anos, em 1993. Só venceu aos 41, em 2016, depois de cinco indicações (hoje acumula sete indo para a oitava).
Já entre as mulheres, a história é oposta. Na categoria de Atriz Coadjuvante, Tatum O’Neal ganhou aos 10 anos e Anna Paquin aos 11, mas esses casos não são centrais para esta discussão. O diferencial está na categoria de Melhor Atriz. Gwyneth Paltrow venceu aos 26; Reese Witherspoon aos 29, assim como Natalie Portman, também aos 29. Jennifer Lawrence, aos 22. Brie Larson, aos 26. Emma Stone venceu aos 28 e, anos depois, de novo, aos 35. Em 2025, Mikey Madison, aos 25 anos, bateu Demi Moore, com 63, e Fernanda Torres, com 60. Mesmo com toda a subjetividade de premiar arte, numericamente, para as mulheres, a juventude não é um entrave; é quase uma credencial.
Esse contraste não é casual. Ele revela o tipo de “narrativa de mérito” que o Oscar constrói para cada gênero.

Para os homens, a estatueta funciona como um rito de passagem. Primeiro, eles são jovens demais, bonitos demais, amados demais. São “ídolos”, “galãs”, “atores de romance”. O talento pode estar ali, mas não basta. Antes do reconhecimento pleno, é preciso envelhecer, sofrer em cena, se desfigurar, encarnar o peso da vida. Falamos aqui, sim, de DiCaprio como exemplo clássico: carregou o rótulo do galã de Titanic e só ganhou depois de enfrentar gelo, solidão e um urso em O Regresso. A mensagem simbólica era clara: agora, sim, ele havia deixado para trás a juventude desejável e alcançado a “gravidade” que a Academia respeita.
O texto do New York Times vai além: sugere que parte dessa resistência tem a ver com desejo. Homens jovens que despertam adoração feminina carregam um estigma invisível. O ator que parece “o tipo de cara por quem sua neta suspiraria” enfrenta desconfiança. Como se ser objeto de fascínio romântico desqualificasse a seriedade artística. A juventude masculina, quando associada à atração, vira um problema. Uma explicação nonsense se me permitir ser sincera.
Com as mulheres, a lógica se inverte e se torna, talvez, ainda mais cruel.
A Academia não hesita em consagrar atrizes jovens, o que muitas vezes interrompe uma trajetória em vez de impulsioná-la. O Oscar canoniza cedo aquelas que considera representantes de sua geração, mas elas raramente se fixam depois. Gwyneth Paltrow tem sido vocal sobre como ganhar o Oscar “tão cedo” tirou dela o desejo de seguir no cinema (isso renderia outra discussão), mas ninguém pode negar que Jennifer Lawrence virou “a atriz da sua era” aos 22 e hoje mal comentamos seus filmes. Do grupo, Reese Witherspoon se tornou estrela e produtora, e Emma Stone segue entregando atuações brilhantes, tanto que já coleciona duas estatuetas, mas estão fora da curva. Em geral, o Oscar, nesse caso, parece oferecer legitimação rápida: você é talentosa, você importa, você pertence ao panteão. Confirmar a aposta, porém, é mais difícil do que aparenta.

Mas essa consagração precoce vem com uma armadilha. O prêmio não garante autonomia de carreira. Não protege contra apagamentos. Não impede que o sistema volte a enquadrar essas mulheres em papéis estreitos, em expectativas de imagem, comportamento e escolhas pessoais. O Oscar, para elas, funciona como um selo de valor, mas não como um passaporte para errar, envelhecer ou se reinventar sem custo.
É aqui que minha antiga “maldição” volta a fazer sentido. Quando uma atriz ganha o Oscar, algo se reorganiza ao redor dela. A vida profissional muda. A percepção pública muda. E, muitas vezes, a vida privada também. Não por superstição, mas porque o reconhecimento, no caso feminino, vem acompanhado de uma cobrança silenciosa de permanência, coerência e perfeição. Você é celebrada, mas passa a ser observada sob um microscópio.
O contraste com os homens é revelador. Para eles, o prêmio chega quando já atravessaram décadas de carreira, quando já provaram resiliência, quando já se distanciaram do lugar de objeto de desejo. Para elas, o prêmio pode chegar cedo, mas a permanência no topo é sempre mais frágil, mais negociada, mais vulnerável às mudanças de humor da indústria.

No fundo, o Oscar opera como um tribunal simbólico de gênero. Ele decide quando um homem está “pronto” para ser levado a sério e quando uma mulher já pode ser coroada, mas ainda não necessariamente preservada. Aos homens, exige-se tempo, desgaste, transformação. Às mulheres, oferece-se reconhecimento rápido, porém condicionado.
Isso não diminui em nada as conquistas de quem venceu jovem. Pelo contrário: torna-as ainda mais impressionantes. Mas obriga a uma pergunta incômoda: se talento é talento, por que ele precisa de rugas para ser validado nos homens e de juventude para ser celebrado nas mulheres?
Talvez a maior “maldição” do Oscar não seja o que acontece depois da estatueta. Seja aquilo que o prêmio revela sobre nós mesmos: nossas ideias de autoridade, desejo, valor e permanência. Em vez de apenas premiar atuações, a Academia continua escrevendo, ano após ano, um roteiro silencioso sobre quem pode ser jovem, quem pode envelhecer, quem pode errar e quem precisa se provar para sempre.
P.S.: Ainda bem que Wagner Moura completa 50 anos em 2026. Pela lógica da Academia, tem vantagem matemática sobre Chalamet…
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