Navegar no universo de Taylor Sheridan, em tempos atuais, demanda alguns momentos de incômodo diante de sua reação quase instintiva ao feminismo e ao politicamente correto. O universo Sheridan é o macholand. Isso não exclui personagens femininas fortes nem outras representatividades, mas deixa claro que não há espaço para o homem moderno, sensível, reflexivo. Liderança, aqui, é sinônimo de praticidade e racionalismo. Nada de lágrimas, nada de hesitação, nada de “nhenhenhém”. Funciona. Às vezes.
Em Landman, esse código opera de forma ainda mais áspera do que em Operação Lioness. Se lá há mulheres com agência, ainda que inseridas num mundo militarizado e brutal, aqui elas orbitam quase sempre como objetos de desejo, exceções pontuais à regra, cientes da fortuna que os homens controlam e hábeis em negociar acesso a esse poder. O centro absoluto é Tommy Norris. O homem cujas 24 horas são um desfile contínuo de crises: violência, política, contratos, acidentes, luto, dinheiro, família. Tudo passa por ele, tudo se resolve por ele — mesmo quando ele próprio já está visivelmente exausto.

A primeira temporada sustentava essa engrenagem com tensão, ritmo e uma sensação de mundo em ebulição. Havia perigo real, conflitos externos claros e uma dramaturgia que se alimentava da fricção entre poder econômico, brutalidade cotidiana e escolhas morais difíceis. A segunda temporada, porém, perde essa musculatura. Continua competente, mas menos elétrica. Mais circular. Menos urgente.
A entrada mais robusta de Demi Moore, impulsionada também pelo seu momento público e pelo burburinho em torno do Oscar, dá à série um novo eixo dramático. Cami não é apenas presença: ela se torna oposição, espelho e contraponto. Existe coerência no conflito entre ela e Tommy. Existe química. Existe narrativa ali. O embate entre os dois funciona porque desloca o centro de gravidade da série: pela primeira vez, Tommy encontra alguém que não apenas reage às suas decisões, mas as confronta.
O problema é que Landman começa a se perder não no tabuleiro político ou econômico, mas na esfera íntima de seu protagonista. A vida pessoal de Tommy — sua família, seus dramas domésticos, seus conflitos repetidos — passa a atravancar o andamento da série. Nenhum membro do clã Norris sustenta coerência suficiente para gerar empatia ou mesmo paciência do público. Em vez de aprofundar o personagem, essas linhas narrativas o enfraquecem. O que antes era um retrato de um homem esmagado por responsabilidades se transforma em um ciclo de ruídos emocionais pouco produtivos.

Nesse contexto, a demissão de Tommy por Cami, dentro da lógica da trama, soa quase como um alívio. Para ele, mais do que uma derrota, parece um respiro. Para a série, menos uma ameaça do que uma oportunidade de reorganização. O gesto carrega sentido simbólico: pela primeira vez, o “homem que resolve tudo” é retirado do centro do tabuleiro. Mas essa mesma virada deixa claro um paradoxo inevitável: Landman sem Billy Bob Thornton simplesmente não existe.
E é aí que a temporada termina de forma curiosamente morna. Não há a explosão emocional da primeira. Não há um gancho que redefina o mundo da série. Há, sim, uma sensação de esgotamento estrutural. Como se o próprio modelo narrativo — esse universo onde tudo precisa passar pelo mesmo homem, sempre, a qualquer custo — tivesse chegado a um ponto de saturação.
A confirmação da terceira temporada não muda esse diagnóstico; apenas o torna mais interessante. Porque, se Billy Bob Thornton “é” a série, a pergunta já não é se ele fica — ele fica —, mas como a narrativa vai reinventar esse protagonismo sem repetir o mesmo ciclo. O arco da segunda temporada deixa claro que deslocar Tommy de sua posição de poder não destrói a história; ao contrário, pode salvá-la de si mesma.
Se Landman quiser recuperar a força da estreia, precisará fazer algo que o universo de Sheridan raramente se permite: abrir espaço para que o mundo não gire apenas em torno de um único homem. Não para torná-lo sensível, não para suavizar sua dureza, mas para devolver conflito real ao sistema que o cerca. Cami aponta esse caminho. A própria queda de Tommy aponta esse caminho.

O risco é outro: que a terceira temporada apenas o reinsira no centro, com um novo cargo, novos problemas e a mesma lógica de sempre. Isso garantiria continuidade, mas não renovação. E, depois de uma temporada correta, porém sem fôlego, talvez Landman precise mais do que manutenção. Precise de reinvenção.
O fim da segunda temporada, assim, não é trágico nem arrebatador. É um encerramento em tom baixo, quase administrativo. Funcional, mas sem impacto. O tipo de final que não frustra, mas também não deixa saudade. E, para uma série que começou tão confiante em sua própria brutalidade, isso talvez seja o sinal mais claro de que algo precisa mudar.
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