Até nós, mulheres, recorremos à ironia ao falar do papel de “resolve tudo” que a sociedade patriarcal empurrou para os ombros femininos. O humor vira defesa, válvula de escape, linguagem possível. Mas a verdade é que esse tema está longe de ser uma piada, ainda que a comédia siga sendo o caminho mais frequente pelo qual filmes e séries tentam endereçar o problema.
O sucesso de All Her Fault — e as inúmeras cenas em que a culpa feminina é explicitamente sublinhada — reforça justamente isso. O que há de mais perturbador na série não é o mistério em si, esse motor quase protocolar do suspense contemporâneo, mas a maneira como ele organiza, distribui e multiplica a culpa. Não a culpa como revelação final, mas como atmosfera. Como estado permanente. Como idioma emocional aprendido antes mesmo que qualquer fato seja apurado.
Na série, a culpa não nasce do crime. Ela o antecede. Está pronta, latente, esperando apenas um gatilho para se manifestar. É a culpa real, quando decisões objetivas podem, sim, ter consequências. É a culpa imaginada, quando a mente preenche lacunas com cenários de autopunição. É a culpa social, projetada por olhares, silêncios e expectativas de comportamento “adequado”. E é, sobretudo, a culpa psicológica — a mais corrosiva —, que não depende de provas, apenas de uma voz interna treinada para perguntar: “Onde foi que eu falhei?”


All Her Fault entende algo essencial: mulheres são educadas para acreditar que controle é responsabilidade. Se algo sai do eixo — um filho, um casamento, uma rotina, um dia comum — o erro só pode ter sido delas. Não é coincidência que a narrativa avance menos por pistas concretas e mais por estados emocionais. A investigação verdadeira não é policial; é interna. Cada personagem feminina carrega um inventário íntimo de decisões que poderiam ter sido diferentes. E esse inventário pesa mais nelas do que nos homens ao redor. Eles erram. Elas se culpam.
Esse mesmo mecanismo aparece, sob outra máscara, em I Don’t Know How She Does It. À primeira vista, trata-se de uma comédia leve sobre conciliar trabalho, maternidade e vida conjugal. Mas, por baixo da engrenagem de “rom-com profissional”, o filme opera exatamente sobre o mesmo território emocional: a culpa crônica feminina. Aqui não há crime, apenas algo quase tão imperdoável socialmente quanto: não dar conta de tudo com leveza, sorriso e eficiência absoluta.
A própria origem da história ajuda a entender isso. O filme adapta o livro de Allison Pearson, publicado em 2002, escrito a partir da experiência direta de uma mulher tentando equilibrar carreira, filhos e identidade num momento histórico em que a ideia da “mulher que pode ter tudo” havia se consolidado, sem que as estruturas tivessem mudado para sustentar esse “tudo”. O título já carrega a armadilha: I don’t know how she does it soa como elogio, mas funciona como cobrança disfarçada. Se ela consegue, por que você não?

Na versão estrelada por Sarah Jessica Parker, o tom é suavizado, conciliador, quase esperançoso. A culpa não explode; ela é administrada. A mentira do bolo caseiro não é rebeldia, é mecanismo de defesa. Não se trata de romper com o ideal, mas de sobreviver dentro dele sem ser punida. A protagonista não colapsa porque falha; colapsa porque continua funcionando. E funcionar vira obrigação.
Onde All Her Fault dramatiza o colapso, I Don’t Know How She Does It normaliza o esgotamento. A culpa vira piada, mas uma piada nervosa, reconhecível. Rimos porque nos vemos ali. A comédia funciona como anestesia, não como solução.
Essa fronteira entre piada e drama fica ainda mais clara quando entramos em Bad Moms. O filme nasce de outra energia. Seus criadores, Jon Lucas e Scott Moore, não partiram de um conceito abstrato, mas da observação direta do esgotamento das mulheres ao redor deles — esposas, amigas, mães esmagadas por um ideal impossível. A pergunta inicial era simples e brutal: quando foi que a maternidade virou uma competição?
Diferente de I Don’t Know How She Does It, Bad Moms não tenta organizar a culpa; tenta escancará-la até o absurdo. A protagonista não é irresponsável nem negligente. Ela faz tudo certo: e ainda assim está exausta. A transgressão do filme não é beber, xingar ou largar as obrigações por algumas horas. A verdadeira transgressão é admitir que o modelo é insustentável.
Há algo decisivo aí: a crítica não se dirige apenas aos homens ou a um patriarcado abstrato, mas à pressão entre mulheres. As “mães perfeitas” não são vilãs por acaso. Elas representam a internalização do ideal. Mulheres que acreditam genuinamente que controlar, fiscalizar e exigir é sinal de virtude. O riso nasce do reconhecimento desconfortável: muitas mulheres se veem tanto na exausta quanto na fiscal.

É nesse ponto que Big Little Lies entra como elo entre todos esses registros. Não é mistério puro, nem comédia declarada. É drama psicológico que entende a culpa como cola social. As mulheres daquela comunidade vivem cercadas por segredos, silêncios e performances de felicidade. A culpa ali não é apenas individual; é coletiva, compartilhada, normalizada. Mesmo quando vítimas, elas se perguntam o que poderiam ter feito diferente.
Psicologicamente, tudo isso responde a um mesmo mecanismo. Desde cedo, mulheres aprendem a associar valor a desempenho. São “boas” quando cuidam, organizam, antecipam, equilibram, suavizam. Quando algo falha, o cérebro não pergunta se a tarefa era impossível: pergunta por que ela não conseguiu fazer melhor. A pressão raramente se apresenta como violência explícita. Ela se manifesta como vigilância constante, comparação silenciosa, autocobrança permanente.
O sistema é eficiente porque dispensa um agressor visível. A culpa funciona sozinha. Ativa-se no silêncio, no espelho, na observação da outra. E justamente por isso se espalha. Mulheres reproduzem expectativas sobre outras mulheres não por crueldade, mas por sobrevivência dentro de um modelo que só reconhece quem parece dar conta.

É por isso que essa culpa se repete. Por que atravessa culturas, gêneros narrativos e gerações. Em All Her Fault, ela surge como devastação psicológica. Em I Don’t Know How She Does It, como humor administrável. Em Bad Moms, como rebelião caricata. Em Big Little Lies, como julgamento silencioso. O cenário muda; o script interno permanece.
Talvez, no fim, a distinção entre piada e drama seja apenas estética. A culpa é a mesma. O peso, o mesmo. O que muda é se a narrativa nos permite rir dela, afundar nela ou — no melhor dos casos — reconhecê-la como construção cultural, e não como falha individual.
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