Chegamos ao fim da temporada com as 24h mais determinantes para Tommy Norris. Chega de ser o faz tudo para os outros: se Cami não o quer, ele vai concorrer com ela. Ele já perdeu tudo antes, ele sabe melhor do que ela o que é ser milionário e depois, funcionário. E ele é o que Gallino sempre quis. Sim, veremos um novo Tommy na próxima temporada, mas antes, vamos a como chegaremos lá.
No fim das contas, Landman nunca foi sobre petróleo. Foi sobre permanecer. Permanecer em pé quando o corpo já pediu arrego, quando o mercado muda de humor, quando a família pesa mais do que o lucro e quando a violência — explícita ou estrutural — cobra juros diários. O episódio final da segunda temporada, “Tragedy and Flies”, não fecha uma história: ele reorganiza o tabuleiro.
Taylor Sheridan faz o que sabe fazer melhor: comprime tudo em um único dia escaldante no Permian Basin, como se o sol do Texas funcionasse também como uma lente moral. Nada ali é calmo, nada é gratuito. Cada decisão é tomada sob pressão, cada vitória carrega o gosto amargo de algo que precisou ser sacrificado.

Tommy Norris e a filosofia do “não hoje”
Tommy começa o episódio derrotado no papel: demitido por Cami Miller, sem cargo, sem empresa, teoricamente sem futuro. Mas Landman nunca acreditou muito em derrotas definitivas. O que existe são mudanças de posição.
Há algo profundamente revelador no diálogo de Tommy com o pai, T.L. Ele não fala apenas de trabalho. Ele fala de envelhecer, de perder o controle, de acordar um dia sem reconhecer quem está ao seu lado. É ali que o personagem se define mais uma vez: não como herói, nem como vilão, mas como alguém que escolhe ganhar apenas hoje. Amanhã a tragédia pode vir. Hoje, não.
Esse mantra — “not today” (tão Game of Thrones!) — ecoa o final da primeira temporada, quando os coiotes surgem novamente. Se antes eles simbolizavam a sobrevivência física após a violência do cartel, agora representam algo mais abstrato: a consciência de que o tempo está acabando, mas ainda não acabou.
Há uma reunião marcada com a Chevron naquela tarde — o tipo de oportunidade que qualquer personagem desse universo deveria agarrar sem pensar —, mas Tommy já não tem certeza se quer voltar a trabalhar para alguém. Não é soberba. É cansaço.
Dale, parceiro de duas décadas, entende isso antes de todo mundo. Sua lealdade não vem com discurso heroico, vem com constatação prática: Cami vai afundar a empresa. E ele fica com Tommy até o fim. Em Landman, fidelidade é sempre uma escolha consciente, nunca um gesto automático.


Cami, Nate e a oferta que chega tarde demais
Nate, como sempre, tenta manter tudo no eixo jurídico. Os contratos das terras de Cooper ainda não foram assinados, e há riscos sérios se Tommy insistir em assumir algo que a M-Tex já pagou. Falsidade de representação, problemas legais, consequências reais. Tommy não quer ouvir. Para ele, o problema já deixou de ser técnico: é existencial.
A ligação de Cami muda o rumo do dia. Ela chama Nate para Fort Worth. Ele acha que vai ser demitido; Tommy aposta em promoção. Pela primeira vez, os dois erram e acertam ao mesmo tempo. Cami realmente oferece a presidência, mas Nate escolhe sair. Ele enxerga o que ela se recusa a aceitar: aquela empresa não foi feita para durar. Foi feita para ser vendida. Se Cami quer levá-la até o fundo movida por intuição e luto, ele não vai junto.
A partir dali, Cami fica sozinha, e a série deixa claro que isso não é um acidente narrativo. A recusa de Nate em assumir a presidência não é um gesto pessoal: é um diagnóstico. Sem Tommy, aquela empresa não tem alma, nem rumo. Demi Moore constrói essa queda com uma contenção elegante; Cami não explode, ela afunda.
Cooper, Ariana e a violência que não se apaga
O arco de Cooper e Ariana é talvez o mais desconfortável do episódio. A série evita glamourizar o trauma. Ariana acorda coberta de marcas. Cooper, em modo protetor absoluto, insiste que ela não volte ao bar. Eles vão à polícia. O que parece um procedimento padrão se transforma em pesadelo quando Cooper é interrogado sem advogado.
Jonathan Reasner está morto. As câmeras de segurança mostram tudo: 17 socos. Mais do que o necessário. O risco é claro: Cooper pode ser acusado de homicídio.
Cooper pode ser gênio instintivo para encontrar petróleo, mas é excessivamente lento para as coisas mais obvias. Depois de surrar até a inconsciência um homem que ia agredir Ariana, obviamente ele deveria saber que precisava de um advogado. Mas não.. só Ariana entende antes dele e liga para Rebecca.
Isso: Rebecca. Como fechar a temporada sem mais um showzinho da advogada impertinente? Ela chega, domina a sala, ameaça processos, desmonta a autoridade do departamento e deixa claro que ninguém ali está limpo o suficiente para bancar uma cruzada moral. Só depois descobrimos o detalhe que explica o nervosismo policial: Reasner era fornecedor importante de pipeline. O caso nunca foi só sobre justiça, era sobre interesses. Sendo assim, o que é a morte de um traficante? Essa “moral” de Landman é complexa.
Como Reasner morreu no hospital de ataque cardíaco e nenhuma acusação formal foi feita, o caso é enterrado. Não porque foi justo, mas porque foi conveniente.
Ainsley e Paigyn: quando a série muda de marcha
O arco de Ainsley e Paigyn começa quase como caricatura porque Sheridan flerta com o desconforto cultural, com a provocação fácil, com o discurso que parece feito sob medida para irritar. Mas o final vira a chave. Paigyn percebe que os tornozelos de Ainsley não aguentam a carga e a ajuda sem ironia. As duas se reaproximam, decidem tentar a vida no dormitório novamente. É um arco pequeno, mas essencial.
Assim, quando Ainsley escolhe defender Paigyn diante da hostilidade dos outros adolescentes, Landman faz algo raro em séries desse universo: troca o sarcasmo por empatia. Não há discurso, não há lição de moral. Agora há contexto.

O pacto com o diabo (de novo)
Eu falei. Haveria o retorno de Gallino — agora operando sob outro nome (Danny Morell), outra fachada — sela o verdadeiro reset da série. Tommy sabe exatamente com quem está lidando. Não há ingenuidade, apenas necessidade.
Sem chão, Gallino é a última cartada de Tommy. No encontro com Dan, Tommy desmonta, peça por peça, a aposta de Cami no offshore. É arriscado demais. Ele oferece outra coisa: seis poços produzindo, direitos exclusivos de perfuração e um acordo claro. Cooper mantém o contrato original. Dan entra com mais 18 milhões. Primeiro 70% de retorno para ele, depois divisão igualitária.
O novo caminho não passa mais pela M-Tex. Tommy cria sua própria empresa: CTT Oil Exploration and Cattle. Antes de entregar o cheque, Dan deixa o aviso que ecoará na terceira temporada: se Tommy falhar, ele vai atrás da coisa que ele mais ama, e vai tomar tudo.
No jato particular, Tommy pede a Nate que registre a LLC e o nomeia tesoureiro. O mundo muda ali. Nada foi resolvido. Apenas adiado. Como sempre.
Família como estrutura de poder
A formação da nova empresa é quase um ritual. Cada personagem recebe um cargo, um lugar, uma função. É nepotismo justificado como sobrevivência coletiva.
Tommy no topo, Cooper ascendendo, T.L. como guardião simbólico. É um mundo fechado, defensivo, pronto para o ataque.


O verdadeiro final
O último diálogo entre Tommy e Angela concentra tudo o que a série quer dizer. A tragédia virá, mas eles viverão o presente como a única opção.
E Landman termina a segunda temporada exatamente oferecendo um adiamento e a dúvida de como Tommy vai sobreviver.
Nesse universo, adiar já é uma vitória.
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