The Knight of the Seven Kingdoms chega à HBO e redefine o que é contar histórias em Westeros

Depois de anos engavetado, com produção finalizada ainda mirando 2025, atravessando adiamentos e ficando guardado até finalmente estrear em janeiro de 2026, A Knight of the Seven Kingdoms enfim chegou aos fãs. E, contra todas as apreensões que costumam rondar qualquer retorno a Westeros, não desapontou. Pelo contrário: provou que havia ali um acerto de tom que só precisava de tempo, distância estratégica e coragem para existir fora da sombra imediata de Game of Thrones.

A série nasce de três novelas escritas por George R. R. Martin, The Hedge Knight, The Sworn Sword e The Mystery Knight, ambientadas cerca de 89 anos antes dos eventos de GOT. Sempre queridinhas entre leitores do autor, essas histórias acompanham a jornada de um cavaleiro errante, Ser Duncan, o Alto, e seu jovem escudeiro Egg. São contos menores no escopo, mas enormes em humanidade, moral ambígua e ironia, tudo aquilo que fez Martin se tornar Martin. Não por acaso, se dependesse de voto popular, essa adaptação teria vindo antes mesmo de House of the Dragon.

A HBO, no entanto, fez uma escolha calculada e acertada. Depois do final de Game of Thrones ter sido duramente rejeitado, o estúdio optou por afastar as tramas, esfriar o debate e permitir que o universo respirasse antes de convidar o público a voltar. O Cavaleiro dos Sete Reinos se beneficia diretamente disso. Não chega como correção de rota, nem como pedido de desculpas. Chega como outra coisa, um desvio consciente.

Ainda que se passe “apenas” 89 anos antes de GOT, a proximidade histórica é significativa. Egg, o garoto que acompanha Dunk, é Aegon Targaryen, futuro rei Aegon V, e irmão de Aemon Targaryen. Aemon não aparece nesta primeira temporada, mas seu pai e seus irmãos estão ali, em cena, o que ajuda a explicar por que esses contos ficaram tanto tempo longe da TV. Era preciso distância emocional, narrativa e simbólica para que funcionassem. Valeu a espera.

A trama dos livros, e da série, é simples no melhor sentido. Dunk é um homem comum tentando se tornar cavaleiro em um mundo que romantiza títulos e brutaliza quem não os tem. Egg é um menino curioso, teimoso e muito mais do que aparenta. Juntos, eles atravessam torneios, vilas e disputas menores que revelam algo maior. Westeros não é feita só de dragões e conspirações palacianas, mas de gente tentando sobreviver, manter alguma honra possível e não se perder completamente no caminho. É isso que os fãs sempre amaram nesses contos, o olhar para baixo, para a lama, para a estrada.

A adaptação foi acompanhada de perto por anos e ficou a cargo de Ira Parker, roteirista experiente, mas até aqui longe de grandes holofotes. O resultado mostra respeito quase reverencial ao material original. O texto confia nos silêncios, nas relações e na progressão lenta, algo cada vez mais raro em franquias ansiosas por impacto imediato.

E aí começam os elogios que realmente importam. O casting é preciso, quase cirúrgico. A adaptação é fiel sem ser engessada. A trama é “simples”, no sentido mais nobre da palavra, e profundamente envolvente. Não há dragões, não há grandes conspirações globais, não há disputas pelo Trono de Ferro. E isso é justamente a novidade dentro desse universo.

Os episódios mais curtos ajudam a manter o ritmo, e a ausência de rostos famosos também. Peter Claffey, que interpreta Dunk, sustenta o protagonismo com uma fisicalidade honesta e uma vulnerabilidade rara. Antes conhecido por trabalhos menores e pelo teatro, ele encontra aqui um papel que exige presença mais do que carisma óbvio, e entrega. Ao seu lado, Dexter Sol Ansell, que vive Egg, surpreende pela naturalidade e inteligência cênica. É difícil entrar em uma franquia do tamanho de GOT e segurar a atenção. A química entre os dois funciona, e funciona porque parece construída, não fabricada.

No episódio de estreia, acompanhamos Dunk tentando se afirmar como cavaleiro em um torneio que rapidamente expõe as hierarquias cruéis do mundo que o cerca. Egg observa, aprende, provoca. Há humor, tensão e aquela sensação constante de que a violência pode explodir a qualquer momento, não como espetáculo, mas como consequência. O episódio termina com um gancho discreto, porém eficaz, deixando claro que aquela jornada não será grandiosa, mas será transformadora.

Um dos maiores desafios era musical. A saída de um compositor fixo sempre assusta, especialmente quando o tema criado por Ramin Djawadi é praticamente um personagem da franquia. Ainda assim, a nova trilha funciona lindamente. Respeita o legado sem imitá-lo, cria identidade própria e entende que silêncio também é música.

E então chegamos ao único, e sério, problema. O pior momento de todo o episódio é, ironicamente, o mais barulhento e desnecessário. A menção direta a Game of Thrones, tanto ao citar a capital quanto ao uso explícito do tema central, culmina em uma piada escatológica literal, Dunk defecando em cena. É agressivo, grosseiro e completamente fora de tom.

Ira Parker chegou a rir dizendo que “espera que os fãs perdoem” a piada. Honestamente, não parece que ele queira perdão, e não há muito o que perdoar. A grosseria não é apenas gratuita, ela desrespeita o que veio antes no próprio episódio, que é brilhante mesmo com um final infeliz. Se a intenção era agradar Martin com uma metáfora grosseira de que estão, desculpem, “cagando” para GOT e HOTD, ou chamando as duas séries de “merda”, fazer isso ao som de Djawadi é indefensável. Foi ali que senti vontade de parar.

Vou continuar assistindo O Cavaleiro dos Sete Reinos. Porque o que ele constrói até esse momento é forte, delicado e raro dentro de uma franquia acostumada ao excesso. Mas fica registrado. George R. R. Martin amava D&D, e amava até deixar de amar. Ryan Condal ainda está em julgamento. Ira Parker, seu dia também virá.

O episódio se encerra retomando o foco na estrada, na dupla e na promessa de novos encontros e conflitos que não dependem de dragões para queimar. Se a série conseguir confiar nisso e resistir à tentação de se comentar demais, A Knight of the Seven Kingdoms pode se firmar como a adaptação mais honesta que Westeros já teve.


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