Com a estreia de A Knight of the Seven Kingdoms, Westeros retorna a um tempo anterior aos dragões, às grandes guerras dinásticas e à política exercida em escala continental. É um mundo mais íntimo, mais humano, onde escolhas pessoais ainda parecem pequenas, até revelarem seu poder devastador. Muito do que hoje é tratado como “spoiler” em Game of Thrones nasce justamente ali.
Há um momento emblemático em que Joffrey Baratheon, orgulhoso de seu conhecimento histórico, enumera fatos que se provariam decisivos tanto para House of the Dragon quanto para esta nova série. E poucos esquecem um dos instantes mais belos e silenciosos da temporada final: no episódio que antecede a Batalha de Winterfell, Podrick Payne canta Jenny of Oldstones, suspendendo o tempo e surpreendendo a todos. É nesse território — entre memória, canção e destino — que ressurge, com força renovada, uma das histórias mais tristes já cantadas nos Sete Reinos: a de Jenny of Oldstones.

As relações românticas em Game of Thrones e House of the Dragon raramente sobrevivem ao peso do dever, das alianças e da honra. Quando o afeto é verdadeiro, o preço costuma ser alto. Jenny of Oldstones não é uma canção de amor. É um lamento histórico. Uma memória cantada de quando alguém ousou escolher o coração e o reino nunca mais foi o mesmo.
Jenny, de Oldstones, ocupa em Westeros um lugar particular. Por ela, um príncipe abriu mão da coroa. Esse príncipe era Duncan Targaryen, primogênito do rei Aegon V, o Egg, preparado desde a infância para herdar o Trono de Ferro. A história de Duncan e Jenny mistura esperança, teimosia e tragédia, tornando-se uma das lendas mais melancólicas dos Sete Reinos.
Como herdeiro, Duncan era o Príncipe de Dragonstone e recebeu esse nome em homenagem ao melhor amigo do rei, Ser Duncan the Tall: o mesmo cavaleiro errante cuja juventude acompanhamos em A Knight of the Seven Kingdoms. O jovem príncipe herdou do xará não apenas o nome, mas a obstinação. Em uma passagem pelos Riverlands, apaixonou-se por uma garota estranha, doce e misteriosa chamada Jenny de Oldstones.

Jenny vivia entre ruínas antigas e dizia descender dos reis dos Primeiros Homens. Por isso, era ridicularizada, tratada como uma camponesa perturbada, talvez até como uma bruxa. Para Duncan, porém, ela era tudo. O amor foi recíproco, intenso e secreto, e exatamente por isso, explosivo.
Duncan já estava prometido à filha de Lyonel Baratheon, Lorde de Storm’s End, conhecido como The Laughing Storm e que se destacou no episódio piloto da nova série. Esse casamento não era um detalhe pessoal: era um acordo político que selava alianças, garantia estabilidade e reafirmava a autoridade do Trono. Ao se casar escondido com Jenny, uma plebeia, Duncan não apenas seguiu o coração, ele humilhou publicamente os Baratheon e quebrou a palavra do rei.
A reação foi imediata. Aegon V tentou anular o casamento e exigiu que o filho abandonasse Jenny. Duncan recusou. Convocado a uma assembleia decisiva, teve de escolher entre o amor e o Trono de Ferro. Escolheu Jenny. Abdicou da coroa, e o irmão Jaehaerys assumiu o lugar de herdeiro.
Para Lyonel Baratheon, isso era inadmissível. Não se tratava de romance, mas de honra, precedência e sobrevivência política. Lyonel levantou seus estandartes, reuniu vassalos e liderou uma rebelião aberta contra o Trono de Ferro, um desafio direto ao rei. A revolta foi pequena em escala militar, mas imensa em significado: mostrava que, se o herdeiro podia quebrar acordos por amor, todo o sistema de poder estava ameaçado.
Aegon V escolheu evitar uma guerra civil. A rebelião foi resolvida por meio de um combate singular. De um lado, Lyonel Baratheon. Do outro, Ser Duncan the Tall. A luta foi brutal, física, direta. Dunk venceu. A revolta terminou ali. Imagenemos isso agora que os vimos dançando juntos?
Lyonel não morreu. Não foi executado, nem destituído. Permaneceu Lorde de Storm’s End. A derrota foi simbólica e política, não fatal. Ele perdeu a luta, mas manteve a dignidade, e sobreviveu para ver as consequências fermentarem ao longo das gerações.

Para reparar o dano causado pela paixão do filho, Aegon V fez uma promessa decisiva: sua filha mais nova, Rhaelle Targaryen, se casaria com o herdeiro dos Baratheon. O casamento restaurou a aliança. Dessa união nasceria Steffon Baratheon, pai de Robert Baratheon. A ironia é cruel: a rebelião causada por Jenny of Oldstones está na raiz direta da queda final dos Targaryen.
Nesse rearranjo político, Jenny foi oficialmente aceita. Rhaelle gostava dela, e a antiga plebeia — agora Lady Jenny — tornou-se uma figura popular nos Sete Reinos, a primeira princesa sem sangue nobre. Por um breve momento, pareceu que o amor tinha vencido. Mas Westeros não recompensa esse tipo de ousadia.
A melhor amiga de Jenny era uma pequena mulher da floresta, conhecida por suas visões. Ela também anunciou a profecia da Canção de Gelo e Fogo, afirmando que o príncipe prometido nasceria da linhagem de Aerys e Rhaella Targaryen, filhos de Jaehaerys. Ao ouvir isso, Jaehaerys forçou o casamento dos filhos, mesmo contra a vontade de Rhaella. A profecia começava a moldar gerações.
Enquanto isso, Aegon V se deixava consumir por outra obsessão: trazer os dragões de volta aos Sete Reinos, extintos desde a guerra civil entre Rhaenyra e Aegon II. Em sua busca, recorreu a conhecimentos proibidos, viagens a Asshai e experiências perigosas. Convencido de ter encontrado um caminho, reuniu filhos e aliados em Summerhall para celebrar o nascimento iminente de seu primeiro bisneto, Rhaegar. Duncan e Jenny estavam entre os convidados.
O que aconteceu em Summerhall permanece envolto em mistério. Sabe-se apenas que havia sete ovos de dragão, em honra aos sete deuses. As chamas fugiram ao controle. O castelo foi consumido pelo fogo e reduzido a ruínas. Entre os mortos estavam o rei Aegon V, Ser Duncan the Tall, o príncipe Duncan… e Jenny. A lenda diz que, nas ruínas, ainda é possível vê-la dançando entre fantasmas.
Jaehaerys e seus filhos sobreviveram. Em meio às cinzas, nasceu Rhaegar. Anos depois, Rhaella daria à luz Daenerys. Rhaegar morreria em batalha contra Robert Baratheon, neto de Rhaelle — mas em segredo havia tido um filho com Lyanna Stark: Jon Snow, o encontro literal do gelo com o fogo. A profecia estava certa.

Revisitar a história de Jenny of Oldstones agora, depois de tê-la publicado pela primeira vez em 2023, faz ainda mais sentido com A Knight of the Seven Kingdoms em cartaz. A série nos lembra que, muito antes dos dragões e dos tronos disputados, Westeros já era governada por escolhas íntimas, silenciosas e humanas. E que algumas derrotas não matam, apenas atravessam gerações. Lyonel Baratheon sobreviveu à sua revolta. Jenny não. Mas o eco do amor dos dois ainda assombra Westeros.
Caso um dia a história de Duncan e Jenny chegue às telas, certamente será uma das mais belas no universo de Game of Thrones.
High in the halls of the kings who are gone
Jenny would dance with her ghosts
The ones she had lost and the ones she had found
And the ones who had loved her the most
The ones who’d been gone for so very long
She couldn’t remember their names
They spun her around on the damp old stones
Spun away all her sorrow and pain
And she never wanted to leave, never wanted to leave
Never wanted to leave, never wanted to leave
They danced through the day
And into the night through the snow that swept through the hall
From winter to summer then winter again
‘Til the walls did crumble and fall
And she never wanted to leave, never wanted to leave
Never wanted to leave, never wanted to leave
And she never wanted to leave, never wanted to leave
Never wanted to leave, never wanted to leave
High in the halls of the kings who are gone
Jenny would dance with her ghosts
The ones she had lost and the ones she had found
And the ones
Who had loved her the most
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