Como publicado na Revista Bravo!
O Brasil nunca esteve tão perto do centro do Oscar quanto agora, mas talvez a palavra mais precisa não seja proximidade. Seja permanência.
Ao se igualar a Cidade de Deus, com quatro indicações, O Agente Secreto entra para a história do cinema brasileiro não apenas pelo número de nomeações, mas pelo tipo de presença que representa. O filme concorre a Melhor Filme, Melhor Ator com Wagner Moura, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco. E o fenômeno não se limita a um único título. A indicação de Adolpho Veloso por seu trabalho em Train Dreams amplia o mapa dessa presença brasileira. Não se trata apenas de atores e diretores, mas de uma geração inteira de profissionais que passa a ocupar espaços técnicos e criativos na indústria global. A soma dessas indicações não é estatística. É afirmação.


É um feito raro para um país que, durante décadas, apareceu na Academia como lampejo, exceção ou promessa adiada. O que muda não é apenas o placar, mas o lugar simbólico ocupado pelo Brasil. Depois de anos em que as chances surgiam de forma esporádica, ver o país representado por dois anos consecutivos na principal premiação do cinema mundial altera a escala da narrativa. Para uma geração de espectadores, O Quatrilho parece quase um mito distante, uma lembrança vaga de quando torcer por um filme brasileiro no Oscar era um acontecimento isolado. Mais de trinta anos depois, a transformação estética, industrial e política do cinema brasileiro é evidente. O que antes era episódio começa a adquirir continuidade.
Durante décadas, acompanhamos, “uma batalha após a outra”, a presença de talentos brasileiros em Hollywood quase sempre como conquistas individuais. Diretores, atores, técnicos e músicos surgiam pontualmente, mas a sensação era de exceção, não de pertencimento. Até 2025, o Brasil ainda parecia um visitante ocasional da festa.
Essa história, porém, começa muito antes.
O primeiro brasileiro indicado ao Oscar foi Ary Barroso, em 1945, com a canção Rio de Janeiro. O dado impressiona não apenas pelo pioneirismo, mas pelo tempo: são 81 anos de aproximações, tentativas e frustrações. Desde então, o Brasil passou a aparecer de forma fragmentada, muitas vezes em coproduções ou em filmes estrangeiros sobre o país. Orfeu Negro venceu o Oscar de Filme Internacional em 1960, com alma brasileira, mas representando a França. O Pagador de Promessas, em 1963, foi o primeiro filme brasileiro indicado oficialmente na categoria de Filme Internacional. Ali nascia uma tradição de expectativa e frustração.
Nos anos 1980, o Brasil voltaria ao palco do Oscar por caminhos ambíguos. O Beijo da Mulher Aranha, dirigido por Hector Babenco, levou William Hurt ao Oscar de Melhor Ator em 1986. O discurso emocionado do ator, repleto de referências ao Brasil, reforçou o imaginário de um cinema brasileiro presente em Hollywood, mas o filme não era oficialmente brasileiro. Era mais um capítulo da relação paradoxal do país com a Academia: influência cultural sem centralidade institucional.


Nos anos 1990, o Brasil voltou ao Oscar com mais consistência. O Quatrilho foi indicado em 1996 e perdeu para Antonia, da Holanda. O Que É Isso, Companheiro? concorreu em 1998. Central do Brasil, em 1999, chegou como favorito emocional, mas foi atropelado pela força de A Vida é Bela e pela máquina de marketing de Harvey Weinstein. O filme levou Fernanda Montenegro à disputa de Melhor Atriz e consolidou Walter Salles como um nome global, mas confirmou uma regra cruel: o Brasil chegava perto, mas raramente vencia.
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, marcou uma ruptura em 2004. Ignorado na categoria de Filme Internacional, o filme conquistou quatro indicações em categorias centrais: Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem. Foi o momento em que o cinema brasileiro deixou de ser visto apenas como exótico e passou a ser reconhecido como linguagem cinematográfica de alto nível. Ainda assim, o impacto não se transformou em continuidade. O Brasil voltou às margens do Oscar, aparecendo de forma intermitente em documentários, animações e coproduções.
Nas décadas seguintes, a presença brasileira se espalhou por territórios específicos da premiação. O Menino e o Mundo foi indicado a Melhor Animação em 2016. Democracia em Vertigem concorreu a Melhor Documentário em 2020. Sérgio Mendes e Carlinhos Brown disputaram Melhor Canção Original com Real in Rio. Juliano Salgado, Petra Costa, Pedro Kos e Carlos Saldanha ampliaram o repertório brasileiro na Academia, mas sempre em áreas laterais.
Tudo muda em 2025.

Ainda Estou Aqui não apenas é indicado, mas ganha. Pela primeira vez, o Brasil sobe ao palco do Oscar como vencedor oficial. O país deixa de ser promessa e se torna acontecimento. Em 2026, essa energia não se dissipa. Ao contrário, se intensifica com a presença em cinco categorias no mesmo ano. Depois de décadas vivendo o Oscar como expectativa e frustração, o Brasil passa a experimentar algo diferente: continuidade.
A febre brasileira que tomou conta do Oscar no ano passado não foi um acidente. Ela retorna agora com mais força, mais diversidade e mais legitimidade. O que antes parecia milagre isolado começa a se desenhar como trajetória. Talvez o maior feito desse momento não seja o número de indicações, mas a mudança de status. Depois de 81 anos de aproximações, tentativas e frustrações, o cinema brasileiro finalmente parece ter encontrado algo mais raro do que uma estatueta: permanência.
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