Oscar 2026: Sinners lidera e Wagner Moura entra na disputa

Como publicado no Correio do Estado – Caderno B+

Saiu a lista do Oscar e, como quase todo ano, o primeiro impacto é a sensação de que muita gente ficou de fora. Depois, com alguma distância, fica claro que boa parte dessas ausências era, no fundo, previsível. O Oscar continua sendo esse jogo curioso entre surpresa e lógica retrospectiva.

Nesse cenário, Sinners nunca foi exatamente uma incógnita. O domínio do filme o coloca na liderança da temporada com nada menos do que 16 indicações, um número que não apenas impressiona, mas sugere consenso. Ryan Coogler não conquistou apenas espaço técnico e artístico; ele transformou seu filme em eixo simbólico da corrida, ocupando categorias centrais como Melhor Filme, Direção e Roteiro Original. Se esses números vão se converter em vitórias, são outros quinhentos.

Logo atrás surge One Battle After Another, com 13 indicações, consolidando Paul Thomas Anderson como a figura autoral mais influente da temporada. O filme confirma a tendência de 2026: o Oscar voltou a se apaixonar por obras que combinam ambição estética e densidade temática. Mais do que isso, ele encarna a ideia de prestígio que a Academia parece querer reafirmar neste momento.

Se o Oscar sempre foi uma fotografia do poder em Hollywood, as indicações de 2026 funcionam como um raio X. Não apenas mostram quem venceu a corrida, mas revelam quais narrativas a indústria decidiu legitimar, quais autores foram consagrados e quais filmes passaram a representar o espírito de seu tempo.

Frankenstein, Marty Supreme e Sentimental Value completam o núcleo duro da temporada, todos com nove indicações. São filmes muito diferentes entre si, mas unidos por uma mesma lógica: o prestígio voltou a ser medido pela assinatura autoral. E, nesse cenário, a presença de The Secret Agent entre os indicados não chega como surpresa. O que é, paradoxalmente, ainda mais significativo.

A lista de Melhor Filme é talvez a mais reveladora da década recente. Ao lado dos títulos já mencionados, aparecem Bugonia, F1, Hamnet e Train Dreams. A combinação é sintomática: blockbusters autorais, dramas literários, cinema político, épicos íntimos e experimentação estética convivem no mesmo espaço. O Oscar 2026 não escolheu um único caminho. Escolheu coexistências.

Entre os diretores, fica claro o retorno do cinema de autor. A lista desloca o centro do Oscar para algo menos industrial e mais autoral. Em 2026, a Academia parece ter decidido que estilo também é política. Mesmo com o crescimento de Hamnet e Sentimental Value, a percepção dominante é que a obra de Paul Thomas Anderson ocupa o lugar mais sólido no imaginário da temporada.

A categoria que mais nos interessa este ano é a de Melhor Ator, talvez a mais simbólica da corrida. Timothée Chalamet surge como favorito, mas Wagner Moura aparece como uma possibilidade real de ruptura. Eu não descartaria observar com atenção o azarão Ethan Hawke. Ainda assim, a presença de Moura nessa categoria não é apenas uma vitória individual. Ela representa uma mudança estrutural. O Oscar não está mais interessado apenas em performances consagradas, mas em narrativas geopolíticas, culturais e identitárias. Se Chalamet simboliza o herdeiro do star system e DiCaprio o poder clássico de Hollywood, Moura representa a expansão do centro de gravidade da indústria.

Entre as atrizes, o cenário é mais aberto. Jessie Buckley surge como favorita por Hamnet, enquanto Rose Byrne cresce impulsionada pelo reconhecimento em Berlim. Renate Reinsve avança de forma consistente, enquanto Emma Stone e Kate Hudson representam, cada uma à sua maneira, o retorno de estrelas ao centro da disputa. É uma lista que mistura prestígio autoral, reinvenção de carreiras e estratégias de posicionamento.

O avanço brasileiro como narrativa global é impossível de ignorar. O fato de O Agente Secreto disputar simultaneamente Melhor Filme e Melhor Filme Internacional não é apenas estatística. É simbologia pura. A indicação de Adolpho Veloso em Fotografia por Train Dreams amplia essa leitura. O Brasil não está apenas presente. Está ocupando territórios técnicos, artísticos e narrativos.

Nos bastidores, o jogo de poder é igualmente revelador. A Warner Bros. lidera com 30 indicações, seguida por Neon e Netflix. O recado é claro: o Oscar de 2026 é também uma disputa entre modelos de indústria. A Warner representa o poder tradicional, a Neon o cinema autoral curado e a Netflix o domínio do streaming. O Oscar virou o palco onde essas forças se enfrentam.

A introdução da categoria de Melhor Elenco e as novas regras de votação, que exigem comprovação de visualização dos filmes, revelam uma Academia em transformação. O Oscar tenta, finalmente, alinhar discurso e prática.

No fundo, as indicações de 2026 não são apenas uma lista de filmes. São o retrato de uma indústria que tenta se reinventar, negociar poder e redefinir o que significa prestígio no século 21. Talvez essa seja a verdadeira narrativa da temporada: não quem vai ganhar, mas quem passou a ser considerado digno de disputar.


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