Se fôssemos entrar no jogo viral de 2016 x 2026 usando os príncipes Príncipe William e Príncipe Harry como espelho, talvez o resultado fosse menos nostálgico do que melancólico. Os dois irmãos que um dia simbolizaram a harmonia fraternal idealizada por sua mãe, Diana, Princesa de Gales, hoje ocupam polos opostos não apenas por escolhas de vida, mas por leituras diferentes, e apenas aparentemente inconciliáveis, do passado. Curiosamente, em janeiro de 2026, ao depor no julgamento contra os tabloides, Harry me fez voltar a um dos pontos mais sensíveis do rompimento entre os dois: o entendimento e a contextualização dos últimos anos de vida de Diana.
Em tribunal, Harry afirmou que a imprensa continuou vindo atrás dele e que suas práticas transformaram a vida de Meghan em uma miséria absoluta. Em sua declaração escrita, descreveu como a vigilância constante o empurrou para um estado de isolamento e paranoia extrema, corroendo qualquer sensação de segurança. Não era apenas um relato pessoal. Era a descrição de um mecanismo. O de como a perseguição contínua produz medo, retração e desconfiança como efeitos previsíveis e, para ele, racionais.

A leitura de William sobre Diana segue um caminho mais ambíguo e, talvez por isso mesmo, mais doloroso. Em 2021, ao comentar a investigação que comprovou o uso de práticas ilegais para garantir a entrevista de Diana à BBC em 1995, ele afirmou que aquela apuração fraudulenta alimentou o medo, a paranoia e o isolamento vividos por sua mãe no fim da vida. Acrescentou algo essencial. Que esse estado gerou dor e trauma para muitas pessoas além da própria Diana. Para William, que já era adolescente e confidente direto da mãe, o escândalo não estava apenas na violação ética do jornalismo, mas nas consequências emocionais em cadeia produzidas por um ambiente de vigilância constante.
Esse detalhe costuma se perder e Harry, em geral, o ignora. William não nega que Diana tivesse razões para desconfiar. Mas ele viveu de perto como alguns desses medos, embora compreensíveis, eram factualmente infundados. Um dos exemplos mais citados é a convicção de Diana de que Charles mantinha um caso com a babá dos filhos, Tiggy Legge-Bourke. Investigações e documentos posteriores mostraram que isso não era verdade. Diana, porém, não tinha como saber. Em vida, acreditou plenamente e, movida por essa certeza, destratou e humilhou Tiggy de forma pública e privada. É plausível supor que é a episódios como esse que William se refere quando fala do impacto colateral da paranoia. Não como julgamento moral da mãe, mas como constatação do dano produzido quando o medo se torna totalizante.
Quase como uma provocação involuntária, por estar alinhado à sua própria luta pessoal, Harry adota outra ênfase. Ao falar de Diana, ele rejeita a ideia de que a confirmação de práticas ilegais a torne paranoica. Para ele, a revelação faz outra coisa. Prova que o medo era racional. O problema não era a desconfiança. Era o sistema que justificava essa desconfiança. Onde William vê um sofrimento que transbordou e feriu outros, Harry vê uma mulher que percebeu, antes de todos, que estava sendo caçada.
É aqui que a palavra paranoia precisa ser resgatada do uso moral que a empobreceu. No senso comum, paranoia virou sinônimo de erro, de exagero, de imaginação fora de controle. Mas paranoia, no sentido humano e histórico, descreve um estado de hipervigilância. A sensação constante de estar sendo observado, avaliado, ameaçado. Ela não exige que o medo seja falso. Exige apenas que seja permanente.

O sofrimento psicológico não invalida a realidade objetiva do perigo. Muitas vezes, ele a confirma. O problema é que sistemas de poder aprenderam a usar o adoecimento como arma narrativa. Quando alguém começa a se isolar, desconfiar e reagir com medo, esse comportamento passa a ser apresentado como prova de que a pessoa não era confiável. O trauma vira argumento contra a vítima. A reação vira deslegitimação.
Harry tenta desmontar exatamente essa lógica. Quando fala de isolamento, paranoia e medo de retaliação, ele não pede compreensão emocional. Ele afirma que o sistema cria o estado psicológico e depois o usa para desacreditar quem o sofre. Foi assim com Diana. Foi assim com Meghan. E, segundo ele, está sendo assim com ele.
E então, afinal, quem está certo? William ou Harry?
Os dois, e é justamente isso que torna essa discordância tão difícil de resolver.
William está certo ao afirmar que o medo de Diana teve efeitos colaterais reais, que alguns de seus receios eram factualmente infundados e que esse estado de hipervigilância causou dor a pessoas que não eram responsáveis pelo sistema que a perseguia. Ele viu de perto como o sofrimento não ficou contido nela. Ele aprendeu cedo que o medo, mesmo compreensível, pode transbordar e ferir outros. Essa é uma verdade ética incômoda, mas necessária.


Harry também está certo ao se recusar a aceitar que esse transbordamento seja usado para desacreditar a percepção central de Diana. Ele está certo ao dizer que a confirmação de práticas ilegais não transforma o medo em delírio, mas em resposta racional a um ambiente hostil. Ele insiste que adoecer sob vigilância não torna ninguém menos lúcido sobre o sistema que o oprime. E está certo em denunciar como o sofrimento psicológico costuma ser usado como prova contra a própria vítima.
O erro não está em nenhum dos dois. Está na exigência de escolher apenas um.
Diana podia estar certa sobre o mundo que a cercava e, ao mesmo tempo, errada sobre pessoas específicas dentro dele. Essas duas coisas coexistem sem se anularem. William olha para os danos causados quando o medo se espalha. Harry olha para a injustiça de chamar esse medo de erro. Cada um protege a mãe a partir de um lugar diferente da mesma ferida.
Talvez essa seja a resposta mais honesta. Não se trata de decidir quem venceu essa disputa moral, mas de reconhecer que a verdade que eles carregam é grande demais para caber em apenas um deles.
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