Como publicado na Revista Bravo!
The Beauty – Lindos de Morrer não disfarça suas intenções. Desde a premissa, Ryan Murphy escolhe o excesso, o grotesco e a metáfora literal para falar de algo que Hollywood e a sociedade conhecem muito bem, mas preferem tratar como comédia, fantasia ou promessa de consumo. Há ecos claros de A Substância e de A Morte Lhe Cai Bem, aquele retrato ácido dos anos 1990 em que a juventude eterna vinha acompanhada de corpos rachados e identidades corroídas. Murphy retoma esse imaginário, mas empurra tudo para o território do thriller global, da conspiração tecnológica e do horror corporal, substituindo o riso nervoso pela inquietação física.
A trama parte de um choque público. Modelos começam a morrer de forma brutal e inexplicável. Os agentes do FBI Cooper Madsen e Jordan Bennett são enviados a Paris para investigar o que parecia apenas mais um crime midiático ligado ao mundo da moda. O que descobrem, porém, é um mecanismo muito mais amplo e perturbador. Por trás das mortes existe uma droga chamada The Beauty, vendida como milagre, distribuída como promessa e absorvida como solução definitiva para a inadequação. Ela não apenas altera a aparência. Ela reconfigura o corpo por dentro, com um prazo de validade preciso. O processo é doloroso, consome o organismo, queima de dentro para fora e, no limite, leva à implosão literal. Murphy abandona qualquer sutileza simbólica. A metáfora é carne. A crítica é física.
O ponto mais inquietante da série não é apenas o horror, mas a lógica que o sustenta. The Beauty não é uma intervenção pontual, mas um produto. Uma tecnologia de aperfeiçoamento que promete o que a cultura contemporânea mais deseja, perfeição, pertencimento, validação. Em vez de tratar isso como fantasia futurista, Murphy ancora a história em algo reconhecível. A obsessão com procedimentos, a cultura da correção infinita, o mercado da juventude, a medicalização do corpo como projeto permanente. A diferença é que aqui a transformação não é apenas estética. Ela é contagiosa. A droga se espalha por contato íntimo, tornando a própria busca por beleza uma epidemia sexualmente transmissível. A crítica deixa de ser moral e passa a ser biológica. A obsessão vira doença social.

Esse gesto aproxima The Beauty- Lindos de Morrer de A Substância, mas também a radicaliza. Se naquele filme o corpo já era campo de disputa entre desejo e identidade, aqui ele se torna literalmente território de guerra. A promessa de ser melhor cobra um preço mensurável. Há um relógio interno, um tempo de duração. Não se trata de ficar mais jovem, mas de consumir a si mesmo em nome de um ideal que nunca foi neutro. O horror de Murphy não está no artifício. Está no reconhecimento.
Nesse contexto, a presença de Isabella Rossellini não é apenas casting de prestígio e a referência ao clássico A Morte Lhe Cai Bem (que ela estrelou como a “bruxa” que vende a juventude para Meryl Streep e Goldie Hawn). É comentário. Rossellini carrega em sua trajetória pessoal tudo aquilo que a série tensiona. Filha de uma lenda do cinema, modelo, atriz, rosto da Lancôme por anos, ela foi afastada da indústria quando envelheceu, justamente por não corresponder mais ao ideal que ajudou a vender. Anos depois, retornou ao centro do debate por ter sido descartada por esse mesmo sistema. Avessa a procedimentos, plásticas e correções, ela se tornou, sem buscar, um símbolo de resistência silenciosa a um mercado que transforma idade em falha. Em The Beauty – Lindos de Morrer, sua presença não é decorativa. Ela funciona como contraponto ético. Uma atriz que representa tudo aquilo que a indústria da beleza historicamente tenta apagar.
Murphy constrói esse universo com a ambição de um thriller internacional. A série se move entre Paris, Veneza, Roma e Nova York, transformando capitais da moda, da arte e do glamour em cenários de colapso. O que deveria ser vitrine de estética vira palco de decomposição. A escala global não é apenas visual. Ela reforça a ideia de que a obsessão por um padrão de beleza não é local nem passageira. É um sistema transnacional, econômico e cultural, que se reproduz com a mesma eficiência em passarelas, clínicas, redes sociais e telas.
O elenco sustenta essa engrenagem com escolhas precisas. Evan Peters assume o centro narrativo como Cooper Madsen, o agente que tenta impor alguma ordem a um mundo que implode por dentro. Rebecca Hall interpreta Jordan Bennett, sua parceira e contraponto intelectual, alguém que investiga não apenas os crimes, mas a lógica que os torna possíveis. Ashton Kutcher surge como The Corporation, o bilionário da tecnologia que encarna a face mais moderna do velho sonho da correção total. Anthony Ramos, como The Assassin, personifica a violência necessária para manter a engrenagem funcionando. Jeremy Pope representa o indivíduo deslocado que busca pertencimento e acaba capturado por um sistema que confunde transformação com redenção.
Ao redor deles, a série constrói um mosaico de participações que reforçam o comentário cultural. Bella Hadid, Meghan Trainor, Ben Platt, Vincent D’Onofrio, Jessica Alexander, Nicola Peltz Beckham e tantos outros não entram apenas como nomes conhecidos. Eles ampliam o espelho que a série oferece ao público. The Beauty- Lindos de Morrer não fala apenas de personagens. Ela fala de uma indústria que produz rostos, corpos e narrativas sobre o que significa ser desejável, aceitável e visível.
O gesto mais provocador de Murphy, no entanto, está na maneira como ele funde dois universos que raramente se encontram com tanta literalidade. A doença da estética e o imaginário da contaminação. A transformação corporal não é apenas procedimento, é vírus. A busca pela perfeição deixa de ser escolha individual e se torna algo que se transmite, que se impõe, que se infiltra nos vínculos mais íntimos. A beleza como epidemia. A aparência como patologia. Ao transformar o desejo em dor, o consumo em combustão e a promessa em colapso físico, Murphy constrói uma fábula brutal sobre o nosso tempo. Uma série que não apenas critica a indústria da beleza, mas expõe o mecanismo que lucra com a sensação permanente de inadequação.
É nesse território, entre espetáculo, horror e comentário cultural, que a série se estabelece. E é a partir dessa paisagem que se abre a conversa com seu elenco. A conversa abaixo com o elenco não é apenas um complemento promocional. Ele funciona como outra camada da própria obra. Uma oportunidade de ouvir, por dentro, como atores e criador articulam um projeto que trata a estética não como superfície, mas como poder, mercado e violência.

BRAVO: Como vocês acham que The Beauty reflete o atual cenário cultural?
Rebecca Hall
Acho que, de muitas maneiras, Ryan Murphy tem um faro para o espírito do tempo, para o que é atual, para o que todos estamos discutindo, e ele torna isso subversivo, provocador e ainda mais digno de debate. Acho que há muito a se dizer sobre essa busca pela perfeição e o que isso significa, e também sobre a mercantilização da beleza, porque penso que a beleza humana é um conceito conceitualmente complicado. Não é como a natureza. Não é como olhar para um nascer do sol ou algo objetivo. É subjetiva. Então a ideia de que você pode pagar pela perfeição e, com isso, está entregando a sua própria noção de beleza a alguém que está recebendo o seu dinheiro e talvez queira mais dele é algo complicado. O que isso significa? Para onde isso vai? Como isso se desloca? O que isso muda? Porque, francamente, acho que manter as pessoas em um estado de inadequação é mais lucrativo.
Ashton Kutcher
Acho que vivemos em um mundo em que os GLP-1 estão por toda parte. A demanda por Ozempic, Wegovy, Mounjaro e todos esses medicamentos, alguns para questões de saúde, outros apenas para resultado estético. E depois temos essa demanda crescente por cirurgia plástica, inclusive turismo para cirurgia estética, e pessoas se modificando para alcançar um visual, uma sensação, uma vibração que acham que lhes dará algum tipo de vantagem, ou talvez simplesmente as faça felizes. E você começa a se perguntar se isso é tão errado assim. E então você acrescenta a isso a edição genética, que já está acontecendo hoje, que pode torná-lo mais saudável ou corrigir, por exemplo, a anemia falciforme ou algum outro defeito genético. Você começa a juntar tudo isso em uma coisa só, e é uma injeção, e ela se chama The Beauty. E a pergunta é: o que você está disposto a sacrificar por isso? Que riscos você está disposto a correr? Acho isso incrivelmente contundente. E acho que Ryan, como já foi mencionado, sempre tem o dedo no pulso das decisões que todos nós tomamos diariamente. Que creme de pele vou usar? Que tipo de xampu estou usando? Todas essas coisas são decisões cotidianas. A série vai por baixo disso, explora, e faz você se questionar sobre si mesmo e sobre qual é a sua visão de mundo.
Anthony Ramos
Outro dia, meu stylist disse: temos uma sessão de fotos chegando, você devia fazer uma limpeza de pele. Cheguei lá e ele falou: ela deu uma “flush” no seu rosto, certo? E eu: o quê, eu estava inchado antes? E ele: um pouco. E tem Emsculpt, tem injeções de colágeno no corpo. Acho que hoje vivemos em um mundo em que isso virou aparelho, botox, lipo, Ozempic, e há tantas coisas disponíveis para nós que podem realçar nossa beleza ou nos tornar a pessoa que gostaríamos de parecer por fora. E acho que a sociedade muitas vezes nos diz como deveríamos parecer por fora. E, instintivamente, colocamos essa pressão sobre nós mesmos. Então isso faz parte da nossa cultura de uma forma muito grande, e acho que a série fala sobre isso em um nível profundo.
Evan Peters
Acho que também existe uma linha condutora em muitos dos projetos de Ryan, que é a ideia de que aquilo que faz você ser você, o que o torna único, é justamente o que o torna interessante e algo a ser celebrado. Acho que, no final, há alguns episódios que realmente reforçam isso. Não há ninguém melhor do que Ryan para transmitir essa mensagem. Isso faz você questionar.
Jeremy Pope
Eu amo uma obra de arte que faz o público se perguntar: o que você faria se existisse uma droga ou algo que pudesse tomar e que o fizesse se sentir a melhor versão de si mesmo? Acho que a série começa de forma muito vaidosa, física. Mas depois falamos de uma criança que talvez tenha uma doença e não tenha conseguido viver plenamente, e, como pai ou observador, o que você daria para ver alguém entrar em sua beleza e em sua luz? Há muitas coisas sendo projetadas sobre nós pelas redes sociais, pelas notícias. Acho que é uma conversa ativa sobre onde você se posiciona em relação à beleza, sobre sua perspectiva de si mesmo, o trabalho interior e o trabalho exterior.

BRAVO: Depois de atuar na série, a relação de vocês com o próprio corpo ou com a ideia de perfeição mudou?
Ashton Kutcher
Não sei se, para mim, isso veio depois de trabalhar na série. Acho que quando decidi fazer isso, pensei muito sobre o que é beleza. A série não tenta definir isso. Ela deixa que o público defina. Eu comecei a me perguntar: o que você considera belo? Para mim, é a imperfeição que é bela, porque a imperfeição é uma representação do potencial de algo. Todos somos imperfeitos e isso não importa. Tendo trabalhado como modelo e na indústria da moda, conheci o que eu achava que eram as pessoas mais bonitas do mundo, e cada uma delas conseguia encontrar algo que gostaria de mudar. Seja a aparência física, as escolhas que você fez ou a forma como se comporta, todos somos essas obras maravilhosas em progresso. E acho isso bonito. A série me fez encontrar esse lugar honesto em mim, no qual passei a aceitar minhas próprias imperfeições e a ser ambicioso em relação à mudança.
BRAVO: Evan e Rebecca: Qual é a dinâmica entre Jordan e Cooper?
Rebecca Hall
Eles trabalham juntos e são melhores amigos com benefícios. Ambos acham que não há nada além disso, embora isso seja uma mentira completa, e eles simplesmente se recusam a ser vulneráveis um com o outro. Há muita coisa não dita e eles deveriam simplesmente lidar com isso.
Evan Peters
Você acaba torcendo para que um deles diga: eu não quero que você veja outras pessoas, eu só quero ver você, eu te amo. Cooper é mais certinho, e Jordan é muito divertida e engraçada. Eles se equilibram.
BRAVO: Anthony e Jeremy: Qual é o impacto da relação entre The Assassin e Jeremy?
Anthony Ramos
Jeremy lembra The Assassin de si mesmo. Existe um nível de empatia que The Assassin sente por Jeremy e ao qual ele se conecta. Ele passa muito tempo sozinho. Ele é um assassino e faz isso sozinho. Ele vê um espírito semelhante nesse cara que, a princípio, ele deveria matar. Jeremy também o lembra de alguém que ele ama. Existe um nível de solidão e um vazio que Jeremy preenche na alma de The Assassin.
Jeremy Pope
The Assassin passou muito tempo sozinho. E o mesmo vale para Jeremy, que é descrito como um incel, em busca de conexão e afeto. Ele encontra alguém que o enxerga e aprecia a estranheza que ele traz. Nós escavamos a verdade desses humanos que alguns chamariam de vilões. Para eles, essas são as escolhas certas. Há um momento em que The Assassin pensa: eu preciso de alguém. E, para Jeremy, é como se dissesse: eu sempre precisei que alguém me visse pelo que eu sou.
BRAVO: Ashton, você vê The Corporation como um vilão ou como alguém que realmente acredita estar ajudando a humanidade?
Ashton Kutcher
Aprendi há muito tempo que você não pode julgar seu personagem. Quando você interpreta o personagem, precisa fazê-lo a partir da perspectiva de que ele acredita estar fazendo algo certo. Que acredita haver alguma necessidade benevolente em suas ações. Eu preciso olhar para o personagem como alguém que pensa que isso ajudará as pessoas a viver vidas melhores, mais felizes e mais plenas. Você pode olhar para isso e dizer que não é certo matar pessoas, mas todo chamado vilão consegue racionalizar seu comportamento.

BRAVO: Como foi filmar na Itália?
Anthony Ramos
A Itália foi minha parte favorita de filmar na Itália. A comida, a paisagem, a arquitetura, as pessoas. Estávamos todos hospedados no mesmo lugar, convivendo juntos. Isso mudou o visual e a sensação da série.
Rebecca Hall
Ficar irritada por ter um chamado às 4h30 da manhã e depois entrar em um táxi aquático e ver Veneza enquanto o sol nascia. Não foi uma experiência comum de ir para o trabalho.
Evan Peters
Pudemos filmar na Fontana di Trevi às três da manhã, sem ninguém lá.
Jeremy Pope
Fechar a Fontana di Trevi, ouvi-la em silêncio, absorver a arquitetura. Isso fez a série parecer verdadeiramente internacional.
Ashton Kutcher
Toda vez que vou à Europa sou lembrado de como a América é jovem. O que era considerado belo há mil anos mudou. Moda, arquitetura, materiais. E essa história precisava fazer parte da série.
BRAVO: Em que momento vocês perceberam que a história não é tão futurista quanto parece?
Ashton Kutcher
Hoje existem empresas tentando criar um medicamento que seja uma fonte da juventude. Vocês acham que todo mundo vai esperar pela aprovação do FDA? Não é algo tão distante assim.
Anthony Ramos
Com certeza não.
BRAVO: Evan, como é estar do lado do “bem”? E quais são os objetivos do seu personagem?
Evan Peters
É um alívio. Quando ele me apresentou a ideia, disse que haveria grandes sequências de ação e um romance complicado com Jordan. Ele disse que só queria que eu fosse normal, o que foi muito desafiador. No início, os objetivos são descobrir por que as pessoas estão explodindo, o que está acontecendo. Depois isso se torna pessoal. As apostas aumentam e ele precisa agir por conta própria e descobrir como fazer isso sem ajuda.

BRAVO: Como foi o trabalho de dublês e as cenas mais intensas?
Anthony Ramos e Evan Peters
Aprendemos a luta basicamente no dia, filmamos de três ângulos e rezamos. Também estávamos acrescentando momentos de personagem dentro da ação.
Jeremy Pope
Isso se tornou mais como um balé. Em vez de apenas representar o horror corporal ou a dor, tratava-se de expressar o que é habitar esse novo corpo. O treinamento e a equipe de dublês foram essenciais.
Ashton Kutcher
Minha cena mais difícil foi ficar sentado em uma banheira de hidromassagem e comer 27 fatias de pizza em um dia. (risos)
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
