Evan Peters: Com The Beauty, ele atravessa o abismo pelo lado certo

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Há algo de quase irônico em The Beauty. Para contar uma história sobre um mundo obcecado por corrigir corpos, Ryan Murphy escolhe como eixo narrativo justamente o ator que passou anos emprestando o rosto às suas criaturas mais perturbadoras. Evan Peters, sinônimo de excesso, ambiguidade e desconforto no universo Murphy, surge agora como Cooper Madsen, agente do FBI e condutor moral de uma trama que transforma a perfeição em doença social. Não é apenas uma virada de papel. É uma virada de sentido.

A relação entre Peters e Murphy sempre foi de risco. Em American Horror Story, o ator foi o laboratório emocional do showrunner: Tate Langdon, o charme tóxico da violência romantizada; Kai Anderson, o delírio político embalado por carisma; James Patrick March, a elegância macabra do predador; e, fora da ficção serial, o Jeff Dahmer de Monster, uma interpretação tão incômoda quanto decisiva. Em todos eles, o mal nunca foi simples: vinha atravessado por sedução, dor e vulnerabilidade. Ao longo de mais de uma década, Peters tornou-se o rosto do antagonismo sofisticado de Murphy. Por isso, quando The Beauty o coloca “do lado do bem”, a escolha não é casual. É quase um comentário sobre a própria obra.

Na nova série, Peters interpreta Cooper Madsen, agente do FBI enviado a Paris para investigar a morte brutal de modelos internacionais. Ao lado de Jordan Bennett, personagem de Rebecca Hall, ele descobre que o centro do pesadelo é um vírus sexualmente transmissível que promete aquilo que a nossa cultura mais aprendeu a desejar: perfeição. A diferença é que, em The Beauty, o preço não é simbólico; é físico. A transformação é dolorida, tem prazo de validade, queima por dentro e, no limite, faz a vítima literalmente explodir. Murphy abandona a fábula para abraçar o corpo. O horror não ilustra o argumento; ele é o argumento.

É nesse território, entre espetáculo, horror e crítica cultural, que Peters redefine sua posição dentro do universo Murphy. Depois de anos interpretando figuras que encarnavam o excesso e o abismo, ele passa a ocupar o lugar do olhar que tenta organizar o caos. Um personagem que não se apresenta como salvador, mas como alguém que hesita, investiga e escolhe. Um “mocinho” sem grandiloquência, e talvez por isso mesmo mais perturbador: num mundo que vende soluções absolutas, a dúvida vira resistência.

Em conversa com a imprensa, Peters reflete sobre essa virada, sobre a lógica moral de The Beauty e sobre o que significa interpretar, pela primeira vez em muito tempo, alguém que atravessa o horror pelo lado certo.

A seguir, o ator fala sobre Cooper Madsen, a parceria com Rebecca Hall, a estética de Ryan Murphy e o desconforto de viver num mundo obcecado por perfeição.

Miscelana: Depois de tantos personagens sombrios no universo de Ryan Murphy, como foi assumir o papel de Cooper Madsen em The Beauty?
Evan Peters: Foi um alívio. Quando Ryan me apresentou a ideia da série, ele falou de grandes sequências de ação e de um romance complicado com Jordan. Mas o que mais me marcou foi quando ele disse que só queria que eu fosse normal. Isso foi muito desafiador. Depois de tantos personagens extremos, ser alguém mais contido, mais centrado, foi quase um exercício novo para mim.

Miscelana: Quem é Cooper Madsen dentro da lógica da série?
Evan Peters: No início, o objetivo dele é simples: descobrir por que as pessoas estão explodindo, entender o que está acontecendo. Ele quer resolver o caso, encontrar respostas. Mas, com o tempo, isso deixa de ser apenas uma investigação profissional e se torna algo pessoal. As apostas aumentam, as estruturas institucionais deixam de bastar, e ele precisa agir por conta própria. Isso muda tudo.

Miscelana: O que mais te atraiu na proposta de The Beauty?
Evan Peters: Existe algo recorrente nos projetos de Ryan: a ideia de que aquilo que faz você ser você, aquilo que te torna único, é justamente o que deveria ser celebrado. Acho que a série reforça muito isso em alguns episódios. Ela faz você questionar o que significa ser diferente, o que significa ser belo, e quem decide isso.

Miscelana: A série fala muito sobre perfeição e imperfeição. Como você interpreta esse tema?
Evan Peters: Acho que a mensagem é justamente essa: aquilo que nos torna únicos é o que nos torna interessantes. A busca obsessiva pela perfeição pode apagar exatamente aquilo que nos define. The Beauty coloca isso em evidência de uma forma muito direta, quase brutal.

Miscelana: Como você vê a dinâmica entre Cooper e Jordan?
Evan Peters: Cooper é mais certinho, mais organizado. Jordan é muito divertida, mais espontânea, mais engraçada. Eles se equilibram. Existe uma tensão emocional ali, algo que vai além do trabalho. Você acaba torcendo para que um deles diga o que realmente sente. Eles funcionam como forças complementares dentro da narrativa.

Miscelana: O que mais te marcou nas filmagens internacionais da série?
Evan Peters: Filmar na Fontana di Trevi às três da manhã foi uma experiência surreal. Não havia ninguém lá. Ver aquele lugar tão icônico completamente vazio foi algo muito especial. Isso deu à série uma sensação verdadeiramente internacional, quase irreal.

Miscelana: Em que momento você percebeu que a história de The Beauty não é tão futurista quanto parece?
Evan Peters: Quando você olha para o mundo real, percebe que muitas das ideias da série já estão acontecendo. A tecnologia, a medicina, a indústria da beleza. Tudo isso está avançando muito rápido. A série exagera, claro, mas não inventa do nada. Ela só empurra um pouco mais longe algo que já existe.

Miscelana: O que você acha que o público leva de The Beauty?
Evan Peters: A série faz você questionar coisas básicas: o que é beleza, o que é identidade, o que vale a pena preservar em si mesmo. Ela não entrega respostas prontas. Ela provoca. E acho que Ryan Murphy é um dos melhores em fazer exatamente isso.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário