Como publicado na Revista Bravo!
Roma vestia preto. Mas o vermelho estava em toda parte.
Na Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, onde o funeral de Valentino Garavani reuniu estilistas, atrizes, editores de moda e admiradores, a despedida não foi apenas de um homem, mas de uma ideia de beleza. Tom Ford, Donatella Versace, Anna Wintour e Anne Hathaway estavam entre os presentes. Do lado de fora da igreja, fãs usavam acessórios vermelhos, enquanto alguns convidados quebravam o luto com detalhes na cor que se tornaria sinônimo do estilista. O vermelho Valentino não era apenas homenagem. Era linguagem.
A morte de Valentino, aos 93 anos, em 19 de janeiro de 2026, atravessou Hollywood como um luto simbólico. Para muitas atrizes, ele não era apenas um criador, mas alguém que as fazia sentir e parecer a melhor versão de si mesmas. A despedida em Roma foi, ao mesmo tempo, íntima e histórica. Um ritual de passagem para um estilista que sempre entendeu que a moda é menos sobre roupas e mais sobre memória.
Mesmo longe dos sets de filmagem e das primeiras filas de Hollywood, Valentino definiu por décadas o que o cinema entendeu como glamour. Nos tapetes vermelhos, onde a moda costuma buscar impacto, ruptura e espetáculo, ele escolheu a permanência. Seus vestidos eram clássicos, quase simples à primeira vista, mas de perfeição absoluta. Não competiam com as atrizes nem com os filmes. Amplificavam o momento.
Havia algo quase ritualístico na relação entre Valentino e o Oscar. Em Hollywood, dizia-se que ele era pé quente. Vestia mulheres que, minutos depois, se tornariam vencedoras. Julia Roberts subiu ao palco em 2001 usando um Valentino preto e branco de arquivo ao vencer por Erin Brockovich. Em 2005, Cate Blanchett recebeu o Oscar com um vestido de tafetá amarelo-pálido ao vencer por O Aviador. Antes e depois delas, Halle Berry, Gwyneth Paltrow, Jennifer Lopez, Anne Hathaway, Sandra Bullock e Reese Witherspoon recorreram à sua assinatura nos instantes decisivos de suas carreiras.


Valentino não vestia apenas estrelas. Vestia narrativas. Seus vestidos pareciam concebidos para o instante em que uma mulher atravessa o palco e se torna mito.
O criador que escolheu a permanência
Nascido em 1932 no norte da Itália, Valentino construiu sua formação entre Paris e Roma, mas foi na capital italiana que consolidou sua linguagem própria. Enquanto a moda se reinventava a cada década, ele escolheu a continuidade. O vermelho absoluto que se tornaria sua assinatura, as silhuetas longilíneas, os bordados minuciosos, a combinação de delicadeza e poder feminino. Tudo em sua obra parecia resistir ao tempo.
Ao lado de Giancarlo Giammetti, seu parceiro criativo e empresarial, Valentino transformou sua maison em uma instituição estética. O que oferecia a Hollywood não era apenas roupa, mas uma visão de mundo. A crença de que a beleza clássica ainda podia ser radical.
Valentino e o cinema
Valentino nunca foi um figurinista no sentido tradicional, mas esteve presente no cinema como poucos estilistas. Suas criações não funcionavam como adorno, mas como linguagem.
Em Night Watch, criou o guarda-roupa de Elizabeth Taylor, transformando vestidos elegantes em contraste simbólico com a fragilidade psicológica da personagem. O luxo não suaviza o medo, ele o torna mais visível.
Em The Taming of the Scoundrel, Ornella Muti surge como uma figura feminina forte e determinada, e o figurino Valentino, com destaque para um blazer vermelho, torna-se eixo visual da narrativa. A roupa deixa de ser detalhe e passa a ser afirmação de poder.
Décadas depois, o diálogo com o cinema autoral se intensifica. Em The Staggering Girl, dirigido por Luca Guadagnino, peças de alta-costura da maison aparecem como parte da arquitetura emocional do filme. Vestidos, capas e casacos traduzem memória, identidade e conflito entre passado e presente.

No cinema contemporâneo de grande alcance, a marca segue presente. Em Don’t Look Up, personagens usam Valentino como contraste entre elegância formal e o absurdo político da narrativa. Em Priscilla, de Sophia Coppola, os vestidos e ternos da maison ajudam a construir a atmosfera dos anos 1960 e 1970 e a identidade visual de uma jovem mulher que tenta existir ao lado de um mito.
Mas foi no documentário Valentino: The Last Emperor que o estilista se tornou personagem de si mesmo. Dirigido por Matt Tyrnauer, o filme acompanha os bastidores de sua carreira e revela o conflito entre o criador e o retrato que fazem dele. Valentino resistiu ao documentário, rejeitou versões, exigiu cortes, temeu a exposição. O que estava em jogo não era apenas imagem pública, mas o choque entre perfeição e vulnerabilidade.
O filme acabou se tornando o retrato mais honesto de um criador que sempre acreditou que a beleza deveria ser absoluta e que, paradoxalmente, se tornava ainda mais humano quando suas fissuras apareciam.
O vermelho como herança estética
Muito antes de se tornar símbolo, o vermelho foi um gesto fundador. Valentino apresentou seu primeiro vestido vermelho em 1959. A partir daquele momento, decidiu que haveria um vestido vermelho em todas as suas coleções.
O tom que desenvolveu, um escarlate com leve nuance azulada, tornou-se mais do que uma cor. Tornou-se linguagem. Um vermelho capaz de atravessar tons de pele, culturas e épocas. Um vermelho sensível, profundo, humano.
Décadas depois, o vermelho Valentino permanece como uma das raras cores que carregam autor, memória e emoção ao mesmo tempo. Poucos criadores conseguiram algo semelhante. Valentino não deixou apenas vestidos. Deixou uma cor como herança cultural.
Seus vestidos continuam contemporâneos porque nunca foram reféns do presente. E enquanto o cinema continuar precisando de imagens que sobrevivam ao tempo, haverá sempre algo de Valentino nos grandes momentos de Hollywood. Mesmo quando ele já não está na primeira fila do tapete vermelho, mas no lugar mais difícil de ocupar. O da eternidade.
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