Tempos Modernos completa 90 anos: legado e relevância de Chaplin

Lançado em 1936, Tempos Modernos,, pertence a uma categoria mais rara e inquietante no Cinema: a das obras que parecem avançar no tempo junto conosco, como se sua relevância fosse se renovando a cada crise econômica, a cada salto tecnológico, a cada sensação difusa de que o mundo ficou rápido demais e humano de menos. Noventa anos depois, o último suspiro do Vagabundo de Charlie Chaplin não soa como despedida, mas como advertência, e, paradoxalmente, como consolo.

Chaplin realizou Tempos Modernos em um momento de transição histórica profunda. O cinema falado já havia se consolidado, Hollywood acelerava sua industrialização interna, e o mundo ainda sangrava os efeitos da Grande Depressão. Era também um ponto de inflexão pessoal: o artista que havia dominado a era silenciosa percebia que o personagem que o tornara universal estava ameaçado não apenas pelo som, mas por uma nova lógica de produção e consumo que parecia engolir tudo, inclusive o indivíduo.

Não é casual que o filme se abra com a imagem de um rebanho de ovelhas, fundindo-se, em corte direto, com operários saindo do metrô rumo à fábrica. Chaplin nunca foi sutil no sentido convencional; ele era claro, direto, quase didático quando queria. Tempos Modernos nasce como sátira, mas cresce como diagnóstico. O riso aqui é uma forma de resistência.

O corpo como campo de batalha

A sequência mais famosa do filme — o Vagabundo apertando parafusos em uma linha de montagem até sofrer um colapso nervoso — sintetiza o que Chaplin compreendeu com precisão assustadora: a modernidade industrial não exige apenas força de trabalho, exige corpos dóceis, sincronizados, repetíveis. O corpo humano passa a ser tratado como extensão da máquina, e quando falha, é descartado.

Chaplin transforma esse processo em coreografia. Cada gesto mecânico do Vagabundo carrega humor físico, mas também desgaste, exaustão, alienação. O personagem não enlouquece por fragilidade individual; ele quebra porque o sistema não comporta humanidade. Quando ele é literalmente engolido pelas engrenagens, o gag vira metáfora visual definitiva do século 20, e, convenhamos, do 21 também.

O filme retorna obsessivamente a esse ciclo: trabalho, colapso, prisão; liberdade, fome, nova tentativa de trabalho; esperança, frustração, fuga. A prisão, aliás, surge como espaço paradoxalmente mais estável do que o mundo “livre”. Dentro dela há comida, rotina, previsibilidade. Fora, reina o caos econômico. Chaplin toca num nervo exposto da crise capitalista: quando a sociedade falha, a punição pode parecer mais segura do que a liberdade.

Ellen, a Gamin, e a reinvenção do afeto

Ao introduzir Ellen, vivida por Paulette Goddard, Chaplin desloca o filme do comentário social puro para algo mais íntimo e emocional. A Gamin não é apenas interesse romântico; ela é espelho, cúmplice, sobrevivente. Órfã, faminta, perseguida, Ellen entende o mundo moderno não como abstração, mas como ameaça concreta.

Há algo de radicalmente moderno na forma como Chaplin constrói essa relação. Eles não sonham com riqueza, ascensão ou sucesso. Sonham com um barraco simples, comida na mesa, um mínimo de dignidade. O famoso “sonho doméstico” imaginado pelo Vagabundo — com portas que não fecham e galinhas entrando pela janela — é deliberadamente precário. Não há ironia cruel ali, apenas lucidez: o sonho moderno foi reduzido à sobrevivência.

E ainda assim, Chaplin insiste na ternura. O amor entre os dois não é idealizado; é funcional, solidário, improvisado. Eles seguem juntos não porque o mundo melhora, mas porque, juntos, ele pesa um pouco menos.

Silêncio, som e a recusa em ceder

Tempos Modernos é, tecnicamente, um filme “part-talkie”, mas Chaplin faz questão de que o Vagabundo não fale. As vozes que ouvimos vêm de máquinas, gravações, alto-falantes, autoridades. A fala humana surge mediada pela tecnologia despersonalizada. Quando finalmente Chaplin “fala” em cena, é através da canção nonsense, misturando palavras em francês, italiano e puro som. Não é comunicação; é performance. Não é discurso; é corpo.

Essa escolha não é nostalgia nem teimosia. É posição estética e política. Chaplin compreendia que dar voz literal ao Vagabundo seria ancorá-lo em uma língua, um território, uma identidade fixa. O silêncio o mantinha universal. Em um mundo cada vez mais regulado por comandos, slogans e ordens, o Vagabundo resiste não falando.

Política sem panfleto

Desde seu lançamento, Tempos Modernos foi acusado de comunista, subversivo, perigoso. Foi banido na Alemanha nazista, incomodou setores conservadores, despertou debates acalorados. Chaplin, porém, nunca ofereceu soluções ideológicas fechadas. Ele apresenta situações, expõe absurdos, confia no espectador.

A crítica ao industrialismo não é doutrinária; é humanista. O problema não é a máquina em si, mas o uso da máquina sem consideração pela vida. Chaplin entendeu cedo algo que ainda tentamos formular: tecnologia sem ética amplia desigualdades. A obsessão por eficiência pode esmagar o que há de mais essencial: tempo, cuidado, pausa, erro.

Talvez por isso o filme tenha sido apropriado por correntes tão diversas ao longo das décadas. Filósofos franceses batizaram uma revista intelectual com seu título. Cineastas, comediantes, animadores e roteiristas reciclaram suas imagens. Tempos Modernos virou linguagem.

Um adeus que é legado

Há algo profundamente comovente em saber que este foi o último filme do Vagabundo. Chaplin sabia disso. Cada gag funciona como despedida amorosa, como se ele estivesse embalando sua criatura antes de deixá-la caminhar sozinha pela história do cinema.

A cena final — os dois caminhando pela estrada ao amanhecer — recusa o fechamento clássico. Não há triunfo, não há promessa concreta. Há movimento. Há insistência. “Nunca desista”, diz o Vagabundo. Não como slogan motivacional, mas como ato de teimosia existencial.

Noventa anos depois, Tempos Modernos segue nos olhando de volta. Em um mundo de algoritmos, produtividade tóxica, burnout, precarização do trabalho e vigilância constante, Chaplin parece menos um cronista do passado e mais um contemporâneo incômodo. Rimos, sim. Mas rimos com a sensação desconfortável de quem reconhece a própria rotina naquela engrenagem girando rápido demais.

Talvez essa seja a maior vitória do filme: lembrar que, mesmo quando tudo conspira para nos transformar em peças substituíveis, ainda é possível caminhar. Mesmo sem saber exatamente para onde. Mesmo cansados. Mas juntos.


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