Em A Knight of the Seven Kingdoms, série que desloca o universo de Game of Thrones do espetáculo da guerra para o território mais íntimo da honra, da política e das escolhas humanas, dois personagens rompem uma das imagens mais cristalizadas da Casa Targaryen: o cabelo prateado, os olhos claros, a aparência quase mítica que sempre funcionou como símbolo de poder e distância.
Príncipe Baelor “Breakspear” Targaryen e seu filho, Valarr, surgem como uma anomalia visual — Targaryen morenos — e, justamente por isso, revelam algo mais profundo do que genética: a fragilidade da ideia de pureza, a política do sangue e o destino de uma dinastia que nunca foi tão homogênea quanto quis parecer.
Baelor não é apenas um Targaryen diferente. Ele é, talvez, um dos príncipes mais sofisticados da história de Westeros. Filho do rei Daeron II, ele carrega no rosto o legado da Casa Martell. O casamento entre Daeron e Mylessa Martell não foi apenas uma união amorosa, mas um gesto político decisivo: integrar Dorne ao Reino dos Sete Reinos, não pela conquista, mas pelo sangue.
O corpo de Baelor é, portanto, um tratado político. Ele encarna o projeto de reconciliação entre Norte e Sul, dragões e sol, fogo e areia.

Mas em Westeros, aparência nunca é neutra. O fato de Baelor não corresponder ao ideal estético Targaryen o transforma em alvo silencioso de desconfiança e ressentimento. Seu apelido, “Breakspear”, nasce da guerra, mas sua existência é, por si só, uma ruptura simbólica. Em A Knight of the Seven Kingdoms, essa diferença visual ganha peso dramático. Enquanto Dunk observa torneios, códigos de honra e pequenas intrigas, Baelor representa um outro tipo de nobreza: menos teatral, mais ética. Não é o dragão da destruição, mas o dragão da conciliação.
Valarr herda essa ambiguidade. Também moreno, também deslocado do imaginário tradicional Targaryen, ele é o herdeiro de uma linhagem que nunca teve tempo de se consolidar. Se Baelor é o projeto político, Valarr é a promessa interrompida. Após a morte do pai no Torneio de Ashford, ele se torna Príncipe de Pedra do Dragão, mas mal tem tempo de assumir esse papel: morre pouco depois, vítima da Grande Primavera, a epidemia que devastou Porto Real e matou milhares de pessoas.
Em vez de dragões ou intrigas palacianas, é a doença que interrompe a continuidade dessa linhagem. Westeros não perde apenas um príncipe, mas uma possibilidade de futuro.

Com a morte de Valarr, a sucessão não segue a lógica da conciliação. O trono passa primeiro para Aerys I, irmão de Baelor, e, depois, para Maekar I, outro filho de Daeron II. Se Baelor e Valarr representam a diplomacia, a mistura e o projeto político, Maekar representa outra resposta ao caos: rigidez, disciplina, pragmatismo militar. A história não escolhe o dragão que negocia, mas o dragão que resiste.
Há ainda uma ironia mais profunda nessa genealogia. Baelor e Maekar são bisnetos de Rhaenyra Targaryen e Daemon Targaryen, o casal cuja guerra civil quase destruiu a própria dinastia na Dança dos Dragões. Se Rhaenyra e Daemon representam o auge da obsessão Targaryen pelo sangue, pelo poder e pela legitimidade, Baelor e Valarr representam o seu oposto: a tentativa de transformar o fogo em política, o dragão em diplomacia, a pureza em mistura.
É como se, ao longo das gerações, a linhagem de Rhaenyra tivesse sido obrigada a aprender a sobreviver: primeiro pelo fogo, depois pela política, depois pela disciplina.


Nesse ponto, a própria ideia de “Targaryen moreno” revela algo ainda mais complexo quando observada através da diferença entre livros e adaptações. Nos romances de George R. R. Martin, os Targaryen de aparência menos típica eram, sobretudo, personagens de cabelo escuro. A distinção nunca esteve na pele, mas no cabelo — um marcador genético recorrente em toda a saga.
Em House of the Dragon, porém, a série introduz uma camada nova ao transformar os Velaryon em uma família negra de cabelos platinados. No livro, os Velaryon eram brancos, o que tornava a questão da legitimidade dos filhos de Rhaenyra mais ambígua. Na série, ao contrário, a bastardia de seus filhos com Laenor Velaryon torna-se visualmente inequívoca: eles têm cabelo escuro, mas não herdam a aparência do pai negro, nem o cabelo prateado de Rhaenyra.



A adaptação desloca, assim, o eixo da prova genética. Em vez da pele, é o cabelo que se torna o principal marcador de legitimidade — exatamente como em Game of Thrones, quando Ned Stark descobre que todos os filhos legítimos dos Baratheon tinham cabelo escuro, enquanto os filhos loiros de Cersei revelavam sua origem Lannister.
Essa lógica, porém, contém uma armadilha narrativa. Como a própria Rhaenyra explica a Luke: eles são Targaryen. É raro, mas possível que um Targaryen tenha cabelo escuro, como Jon Snow, herdeiro legítimo de sangue valiriano. A aparência pode sugerir bastardia, mas não a determina.


É nesse ponto que Baelor e Valarr se tornam ainda mais interessantes. Diferentes de seus irmãos e primos loiros, eles também fogem ao estereótipo visual da dinastia, mas não carregam nenhuma suspeita de ilegitimidade. São Targaryen legítimos, e, paradoxalmente, os que mais parecem questionar, com o próprio rosto, o mito da pureza que sustenta a Casa do Dragão.
Talvez seja por isso que Baelor e Valarr sejam tão incômodos para o mito Targaryen. Eles provam que o poder não precisa ser loiro, nem mítico, nem isolado. Pode ser híbrido, político, imperfeito. E, paradoxalmente, mais humano.
Em A Knight of the Seven Kingdoms, esses dois Targaryen morenos não são apenas detalhes de elenco ou fidelidade ao cânone de George R. R. Martin. São uma tese visual. Uma lembrança incômoda de que o sangue dos dragões nunca foi tão puro quanto a lenda fez parecer — e de que, talvez, os melhores Targaryen tenham sido justamente aqueles que mais se afastaram do estereótipo.
No fim, Baelor e Valarr não representam apenas uma exceção genética, mas uma hipótese política que Westeros nunca teve tempo de testar. A história preferiu outros dragões: mais duros, mais rígidos, mais fiéis ao mito. Mas talvez, como tantas vezes na saga de Martin, o verdadeiro fracasso não esteja na queda dos monstros, e sim na morte prematura dos homens que poderiam ter sido reis.
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