Karine Teles, Tiradentes e a arte de continuar

Como publicado na Revista Bravo!

Cheguei dos Estados Unidos enfrentando nevascas, atrasos de voos e conexões improváveis, o suficiente para me impedir de estar pessoalmente na abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e de acompanhar de perto a homenagem dedicada a Karine Teles. A distância, paradoxalmente, tornou ainda mais evidente o que estava em jogo naquela noite: não apenas o início de um festival, mas a celebração de uma trajetória que dialoga profundamente com o momento atual do cinema brasileiro.

Em Tiradentes, sob dias de chuva persistente e tempo instável, público, artistas e realizadores se reuniram para dar início a uma edição atravessada por encontros, memórias e reflexões sobre o audiovisual contemporâneo. A Mostra reafirmou, mais uma vez, seu papel como um dos principais espaços de pensamento, risco e invenção do cinema nacional, um território onde o cinema não é apenas exibido, mas debatido, tensionado e reinventado.

A programação segue até 31 de janeiro, com entrada gratuita e 137 filmes. Nem mesmo as chuvas, que afetaram algumas sessões ao ar livre, conseguiram interromper o ritmo do evento. Há algo de profundamente simbólico nesse esforço de seguir apesar das intempéries, uma metáfora quase literal da lógica de persistência que define o cinema brasileiro.

Nesse contexto, a homenagem a Karine Teles ganha contornos ainda mais reveladores. Em um momento de reconhecimento internacional de artistas e obras brasileiras, sua trajetória, marcada por lucidez, inquietação e recusa ao glamour, funciona como espelho e contraponto. Celebra-se o sucesso, mas sem esquecer as fragilidades estruturais que ainda atravessam o fazer cinematográfico no país.

Karine protagonizou um dos discursos mais contundentes da cerimônia de abertura. Ao subir ao palco, relembrou sua primeira passagem pela Mostra, em 2007, quando ainda era espectadora e sonhava em ver um trabalho seu projetado naquela mesma tela. Quase duas décadas depois, o reconhecimento veio acompanhado de uma fala que recusou o tom celebratório esperado em momentos como esse.

Em vez de reforçar a imagem glamourizada da profissão, Karine escolheu expor a instabilidade que marca a trajetória de quem trabalha com arte e cultura no Brasil. Falou de carreiras imprevisíveis, da alternância entre períodos de trabalho intenso e longos intervalos sem projetos, das mudanças constantes no cenário político e institucional. Falou também do desgaste emocional de persistir em um campo que exige recomeços sucessivos. “Não é nada glamouroso, não é nada romântico”, afirmou, ao descrever a dureza de seguir criando.

Essa recusa ao glamour não é apenas retórica. Ela atravessa toda a trajetória de Karine Teles, construída entre o cinema independente, como Riscado e Benzinho, a televisão, em Pantanal e Vale Tudo, e algumas das obras mais emblemáticas do cinema brasileiro recente, como Que Horas Ela Volta? e Bacurau. Ao longo desse percurso, a atriz nunca se colocou no lugar confortável da consagração. Pelo contrário, sempre insistiu na ideia de que a carreira não é uma linha ascendente, mas uma estrada sinuosa, feita de curvas, descidas e retomadas.

Ao receber a homenagem, Karine falou de desistências pensadas, de escolhas condicionadas pela necessidade material, de projetos recusados por convicção artística e de períodos sem trabalho. Falou também da fama como algo secundário, quase irrelevante diante do que realmente a move: o processo, a lida, o ensaio, o pensamento, a filmagem. “Não tenho desejo de ascensão, mas de permanência”, disse. A frase, simples e radical, talvez seja uma das definições mais precisas do que significa fazer cinema no Brasil hoje.

Lucidez em meio ao otimismo

O impacto de sua fala esteve justamente na lucidez. Em um momento de relativo otimismo em torno do cinema brasileiro, impulsionado por prêmios internacionais, visibilidade global e a retomada de políticas públicas culturais, Karine lembrou que essas conquistas não eliminam as fragilidades estruturais do setor. Persistir continua sendo um desafio cotidiano para artistas, técnicos e realizadores.

Ao agradecer à Mostra pelo reconhecimento, a atriz também destacou o papel do festival como espaço de formação, debate e circulação de ideias. Tiradentes não é apenas uma vitrine de filmes, mas um laboratório de pensamento sobre o cinema. Ao conectar o reconhecimento individual a uma defesa coletiva de um campo cultural mais sólido, Karine deslocou o sentido da homenagem. Não se tratava apenas de celebrar uma carreira, mas de refletir sobre as condições que tornam essa carreira possível ou quase impossível.

Sua trajetória é a de uma atriz que nunca se deixou capturar pela lógica do estrelato, mas que se tornou central justamente por habitar as zonas de tensão do cinema brasileiro. Em Que Horas Ela Volta?, ela encarnou a elite progressista incapaz de reconhecer seus privilégios. Em Bacurau, deu rosto a uma lógica colonizadora. Em Riscado, transformou a própria angústia profissional em matéria de cinema. Em todos esses trabalhos, Karine construiu personagens que não confortam, incomodam.

Permanecer como gesto político

Talvez seja esse o ponto em que Tiradentes e Karine Teles se encontram com mais força: a ideia de permanência. Em um país onde políticas culturais são intermitentes, onde carreiras artísticas são atravessadas pela precariedade e onde a própria ideia de futuro é frequentemente ameaçada, permanecer deixa de ser apenas uma escolha individual. Torna-se um gesto político.

Na noite de abertura, em meio à chuva, aos encontros e às celebrações, o discurso de Karine funcionou como um contraponto necessário. Um lembrete de que o cinema brasileiro não se constrói apenas com prêmios, aplausos e manchetes, mas com insistência, trabalho invisível e uma dose constante de coragem.

A Mostra de Tiradentes segue até o fim de janeiro, projetando filmes, debates e sonhos. Karine Teles segue em sua estrada sinuosa, recusando o glamour e reivindicando algo mais raro: o direito de continuar. No fundo, talvez seja isso que o momento atual do cinema brasileiro nos pede para celebrar. Não apenas o auge, mas a permanência.


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