Love Story: o amor, o mito e a suspeita em torno dos Kennedy

Desde que Ryan Murphy anunciou que pretendia recontar a história de amor entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette, na onda do revival dos anos 1990, a reação foi menos curiosidade e mais desconfiança. Antes mesmo de existir como série, Love Story já existia como polêmica.

O casal, que morreu tragicamente em 16 de julho de 1999, quando o avião pilotado por John caiu no oceano próximo à ilha de Martha’s Vineyard, tornou-se um dos grandes ícones da última década do milênio. Não apenas por sua beleza, elegância ou influência cultural, mas porque os Kennedy ocupam, nos Estados Unidos, um lugar singular. São tratados como uma espécie de realeza sem coroa, uma aristocracia democrática que mistura poder político, glamour e tragédia.

O título escolhido por Murphy é deliberadamente romântico. A estratégia de lançamento também. A série estreia em 12 de fevereiro nos Estados Unidos, no FX e no Hulu, com três episódios, e segue com lançamentos semanais até o final, em 26 de março. Internacionalmente, chega ao Disney+ a partir de 13 de fevereiro. A proximidade com o Valentine’s Day faz parte do plano, mas também acentua a contradição. Poucas histórias foram tão intensas, prematuras e expostas quanto a de John e Carolyn. Foi amor, sem dúvida. Mas foi uma história de amor que realmente combina com a data mais sentimental do calendário cultural?

A controvérsia que cerca a série não diz respeito apenas ao casal, mas ao próprio gesto de recontar o mito. Não se trata apenas de narrar uma história conhecida, mas de disputar seu significado. Quem tem o direito de reinterpretar os Kennedy? A família, a indústria cultural ou o público que transformou esse sobrenome em narrativa coletiva?

John F. Kennedy Jr., herdeiro do lendário e nem sempre glorificado legado de John F. Kennedy, cresceu sob a sombra da tragédia que acompanha sua família. O menino que saudou o caixão do pai tornou-se, décadas depois, o príncipe da América. Bonito, rico e carismático, John parecia destinado a encarnar uma versão moderna de Camelot. Mas sua vida pessoal jamais foi blindada. Todas as suas relações amorosas foram atravessadas pelo olhar implacável da imprensa e pela influência decisiva de sua mãe, Jacqueline Kennedy Onassis, cuja presença moldou e, em muitos momentos, controlou sua vida afetiva.

Antes de Carolyn, outras mulheres já haviam experimentado o peso de se relacionar com um Kennedy. Entre elas, Daryl Hannah, atriz mais velha, independente e já famosa, cuja relação com John foi intensamente acompanhada pela imprensa. Daryl representava um tipo de mulher que confrontava o mito Kennedy de forma mais direta, visível, menos assimilável. Na lógica dramática da série, ela surge como contraponto a Carolyn: se Daryl desafiava o universo Kennedy, Carolyn foi absorvida por ele.

Jacqueline Kennedy Onassis chegou a conhecer Carolyn, mas por pouco tempo. Jackie morreu em maio de 1994, quando o relacionamento ainda estava em fase inicial. Não houve convivência prolongada entre sogra e nora, nem tempo para que essa relação se estruturasse. Jackie esteve presente mais como mito do que como personagem ativa. Mesmo ausente, continuou sendo uma força determinante na vida de John. Carolyn entrou nesse universo quando a figura materna ainda dominava o imaginário público e íntimo do herdeiro Kennedy, mas sem tempo suficiente para disputar esse espaço diretamente. Jackie foi menos sogra do que fantasma, menos pessoa do que legado.

Carolyn Bessette veio de outro lugar simbólico. Publicista da Calvin Klein, ela não nasceu sob os holofotes. Foi sugada por eles. Sua ascensão na moda coincidiu com a transformação de sua imagem em objeto de fascínio global. Minimalista, enigmática e avessa à exposição, Carolyn tornou-se paradoxalmente uma das figuras mais fotografadas dos anos 1990. Sua influência estética ultrapassou sua própria carreira. Hoje, cada mulher que cruza uma rua em um look minimalista e impecável carrega algo de sua herança cultural.

Na série de Ryan Murphy, John é interpretado por Paul Anthony Kelly, enquanto Sarah Pidgeon vive Carolyn. O elenco inclui Naomi Watts como Jacqueline Kennedy Onassis, Grace Gummer como Caroline Kennedy, Alessandro Nivola como Calvin Klein, Leila George como Kelly Klein, Sydney Lemmon como Lauren Bessette e Constance Zimmer como Ann Marie Messina. Criada por Connor Hines e produzida por Murphy ao lado de Brad Simpson, Nina Jacobson e D.V. DeVincentis, Love Story acompanha o casal desde o início do romance até o desgaste provocado pela exposição midiática, pelas pressões profissionais e pelas tensões familiares, culminando na tragédia que encerrou a história.

Desde as primeiras imagens divulgadas, a série enfrentou uma reação quase obsessiva. Figurinos, cortes de cabelo, gestos e detalhes foram analisados com rigor forense nas redes sociais. A pressão foi tamanha que a produção chegou a trocar a figurinista no meio das gravações. A família Kennedy também reagiu. Jack Schlossberg, sobrinho de John, criticou publicamente o projeto e acusou Murphy de explorar a tragédia sem consultar o clã. O episódio expôs uma tensão antiga. A história dos Kennedy pertence à família ou à imaginação coletiva?

Ryan Murphy defendeu o projeto como uma investigação sobre o preço da fama e a violência simbólica da cultura midiática. Como em outras obras de sua filmografia, ele não se limita a narrar fatos, mas a expor o mecanismo que transforma vidas reais em espetáculo.

Há, porém, uma pergunta que a série não pode responder, apenas sugerir. Se John e Carolyn tivessem sobrevivido, o casamento teria resistido ao tempo? Teriam se separado, reinventado ou seguido caminhos distintos? A tragédia congelou a relação em um ponto específico da narrativa, impedindo qualquer desfecho que não fosse mítico. A história deles nunca teve a chance de envelhecer.

No fundo, Love Story revela um paradoxo incômodo. John e Carolyn foram, ao mesmo tempo, um casal real e uma construção cultural. O público não se apaixona apenas por sua história, mas pela ideia que eles representaram. Uma América elegante, coesa e quase aristocrática, algo que parece ter se perdido. Talvez seja por isso que a série provoque tanto desconforto. Porque recontar a história de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette não é apenas revisitar um romance. É tocar em um mito que muitos prefeririam manter intacto.


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