Atualizado em 28/03/2026
Há famílias que pertencem à história. E há famílias que pertencem ao imaginário. Os Kennedy sempre estiveram nesse segundo território: aquele onde política, glamour, tragédia e ficção se confundem a ponto de se tornarem inseparáveis.
Décadas depois dos assassinatos que marcaram o clã, dos escândalos que o corroeram por dentro e das derrotas que o afastaram do poder, o fascínio persiste. Talvez nunca tenha diminuído. A estreia de Love Story na FX/Hulu/Disney e o desenvolvimento de uma série da Netflix sobre os Kennedy, concebida no molde de The Crown, são apenas os sinais mais recentes de uma obsessão que Hollywood nunca abandonou.
A pergunta, então, não é por que os Kennedy voltaram. Eles nunca foram embora.
É esse mesmo impulso que reaparece em histórias como Love Story, onde o fim se transforma em memória.


Hollywood sempre teve uma relação particular com dinastias. O cinema entende intuitivamente o que a política às vezes tenta esconder: que o poder é, antes de tudo, uma narrativa. Os Kennedy foram, talvez, a primeira família política moderna a compreender isso plenamente, e a encenar com perfeição cinematográfica.
John F. Kennedy não era apenas um presidente. Era um personagem. Jacqueline Kennedy não era apenas primeira-dama. Era uma imagem, uma estética, uma ideia de elegância que o século 20 inteiro tentou imitar. Robert Kennedy, Ted Kennedy, os filhos, os netos, todos pareciam viver sob a lógica de uma saga contínua, onde cada geração herdava não apenas privilégios, mas também um roteiro pré-escrito de grandeza e ruína.
Essa combinação é irresistível para a indústria cultural: beleza, juventude, ambição, idealismo, escândalo, morte precoce. Os Kennedy oferecem tudo o que uma boa série precisa. São, ao mesmo tempo, Camelot e tragédia grega.

Mas há algo mais profundo nesse interesse renovado. Em tempos de descrença na política, de lideranças opacas e de figuras públicas sem aura, os Kennedy representam a nostalgia de um momento em que o poder parecia ter estilo, propósito e dramaturgia. Mesmo que essa imagem tenha sido, em parte, construída — ou falsificada —, ela continua sendo sedutora.
Love Story não surge por acaso. Ao revisitar o imaginário romântico associado ao sobrenome Kennedy, a série toca em uma fantasia persistente: a ideia de que, em algum momento, política e emoção, Estado e amor, poder e humanidade estiveram alinhados. Já a aposta da Netflix em uma narrativa à la The Crown revela outra coisa: os Kennedy não são apenas história americana; são material global, exportável, compreensível em qualquer lugar do mundo como símbolo de uma aristocracia democrática: um paradoxo perfeito para o streaming.
Há também o elemento do pecado. Quanto mais se tenta cristalizar os Kennedy como mito, mais irresistível se torna explorar suas fissuras: os casos extraconjugais, as relações com a máfia, os segredos familiares, as culpas silenciosas, algumas delas deliberadamente apagadas da história oficial, como no caso de Rosemary Kennedy. Hollywood sabe que não existe narrativa mais poderosa do que aquela em que o brilho e a decadência caminham juntos.


No fundo, o fascínio pelos Kennedy diz menos sobre eles e mais sobre nós. Sobre nossa necessidade de heróis que pareçam maiores do que a vida, mas suficientemente humanos para falhar. Sobre nosso desejo de acreditar que o poder pode ser bonito, que a política pode ser épica, que a história pode ser contada como uma série, com protagonistas carismáticos, antagonistas claros e finais trágicos.
Os Kennedy continuam retornando porque nunca foram apenas uma família. Foram — e ainda são — uma ficção coletiva. E Hollywood, como sempre, sabe reconhecer quando um mito ainda rende boas histórias. Talvez seja por isso que continuamos voltando a essas histórias — sejam elas romances como Love Story, dinastias como os Kennedy ou tragédias reais que insistem em ser recontadas.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
