Por que os Kennedy ainda fascinam Hollywood

Há famílias que pertencem à história. E há famílias que pertencem ao imaginário. Os Kennedy sempre estiveram nesse segundo território: aquele onde política, glamour, tragédia e ficção se confundem a ponto de se tornarem inseparáveis.

Décadas depois dos assassinatos que marcaram o clã, dos escândalos que o corroeram por dentro e das derrotas que o afastaram do poder, o fascínio persiste. Talvez nunca tenha diminuído. A estreia de Love Story na FX/Hulu/Disney e o desenvolvimento de uma série da Netflix sobre os Kennedy, concebida no molde de The Crown, são apenas os sinais mais recentes de uma obsessão que Hollywood nunca abandonou.

A pergunta, então, não é por que os Kennedy voltaram. Eles nunca foram embora.

Hollywood sempre teve uma relação particular com dinastias. O cinema entende intuitivamente o que a política às vezes tenta esconder: que o poder é, antes de tudo, uma narrativa. Os Kennedy foram, talvez, a primeira família política moderna a compreender isso plenamente — e a encená-lo com perfeição cinematográfica.

John F. Kennedy não era apenas um presidente. Era um personagem. Jacqueline Kennedy não era apenas primeira-dama. Era uma imagem, uma estética, uma ideia de elegância que o século 20 inteiro tentou imitar. Robert Kennedy, Ted Kennedy, os filhos, os netos, todos pareciam viver sob a lógica de uma saga contínua, onde cada geração herdava não apenas privilégios, mas também um roteiro pré-escrito de grandeza e ruína.

Essa combinação é irresistível para a indústria cultural: beleza, juventude, ambição, idealismo, escândalo, morte precoce. Os Kennedy oferecem tudo o que uma boa série precisa. São, ao mesmo tempo, Camelot e tragédia grega.

Mas há algo mais profundo nesse interesse renovado. Em tempos de descrença na política, de lideranças opacas e de figuras públicas sem aura, os Kennedy representam a nostalgia de um momento em que o poder parecia ter estilo, propósito e dramaturgia. Mesmo que essa imagem tenha sido, em parte, construída — ou falsificada — ela continua sendo sedutora.

Love Story não surge por acaso. Ao revisitar o imaginário romântico associado ao sobrenome Kennedy, a série toca em uma fantasia persistente: a ideia de que, em algum momento, política e emoção, Estado e amor, poder e humanidade estiveram alinhados. Já a aposta da Netflix em uma narrativa à la The Crown revela outra coisa: os Kennedy não são apenas história americana; são material global, exportável, compreensível em qualquer lugar do mundo como símbolo de uma aristocracia democrática: um paradoxo perfeito para o streaming.

Há também o elemento do pecado. Quanto mais se tenta cristalizar os Kennedy como mito, mais irresistível se torna explorar suas fissuras: os casos extraconjugais, as relações com a máfia, os segredos familiares, as culpas silenciosas, as tragédias acumuladas. Hollywood sabe que não existe narrativa mais poderosa do que aquela em que o brilho e a decadência caminham juntos.

No fundo, o fascínio pelos Kennedy diz menos sobre eles e mais sobre nós. Sobre nossa necessidade de heróis que pareçam maiores do que a vida, mas suficientemente humanos para falhar. Sobre nosso desejo de acreditar que o poder pode ser bonito, que a política pode ser épica, que a história pode ser contada como uma série — com protagonistas carismáticos, antagonistas claros e finais trágicos.

Os Kennedy continuam retornando porque nunca foram apenas uma família. Foram — e ainda são — uma ficção coletiva. E Hollywood, como sempre, sabe reconhecer quando um mito ainda rende boas histórias.


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