No universo de A Song of Ice and Fire, quase todos os grandes destinos nascem de gestos grandiosos: guerras, profecias, dragões, assassinatos. A história de Aegon V, ou simplesmente Egg, é o oposto disso. Ela começa com um gesto pequeno, quase banal: um menino de cabeça raspada pedindo para ser escudeiro de um cavaleiro sem nome.
Mesmo para quem não é iniciado no mundo que George R. R. Martin constrói em The Hedge Knight, há algo claramente fora do lugar naquele garoto que Ser Duncan the Tall manda cuidar dos cavalos e que, pouco depois, aceita como escudeiro. Egg é letrado, irônico, exigente demais para alguém de origem humilde e carrega uma biografia nebulosa. Para quem já conhece o desfecho, sua identidade não é apenas um “plot twist”. A revelação é uma operação narrativa lenta, psicológica e política, uma das mais sutis e singulares de toda a saga.

Dunk não descobre quem Egg é de uma vez. Ele mesmo se define como pouco perspicaz, mas percebe gradualmente que há algo errado, algo grande demais para caber naquele menino insolente. Desde o início, Egg se comporta de maneira estranha para um camponês. Sabe ler e escrever, domina histórias da corte, genealogias e protocolos, reclama da comida e da bebida, fala com vocabulário refinado. Esse detalhe ecoa uma das cenas mais emblemáticas de Game of Thrones, quando Tywin Lannister percebe, pelo modo de falar, que Arya não poderia ser uma simples camponesa, mesmo sem identificar que ela era uma Stark. Em Egg, a mesma fissura se repete: a linguagem trai a origem.
Dunk interpreta tudo como inteligência precoce. O cabelo raspado, gesto simbólico e literal de fuga da identidade Targaryen, não desperta suspeitas imediatas. Apenas mais tarde, no torneio de Ashford, o segredo começa a ruir. Quando os Targaryen chegam, Egg muda. Deixa de ser apenas um garoto insolente e passa a ser alguém em perigo. Evita olhar para os príncipes, torna-se tenso, vigilante, quase invisível. Um plebeu temeria a família real, mas o medo de Egg é diferente. Ele não teme os Targaryen como alguém de fora, mas como alguém que pode ser reconhecido.
A série oferece uma pista significativa quando Maekar surge preocupado com o desaparecimento de dois filhos que deveriam ter chegado a Ashford antes do cortejo real. Ninguém os viu. Pouco antes, Duncan fora insultado pelo príncipe Daerion, bêbado, minutos antes de conhecer Egg. Daerion não reconhece o próprio irmão. Por que reconheceria? A invisibilidade de Egg é também política.

A revelação não acontece em uma conversa íntima entre Dunk e Egg, mas publicamente, no momento em que o cavaleiro entra em conflito com a família real. Ao agredir o príncipe Aerion Brightflame para defender Tanselle, Dunk é acusado de atacar um membro da Casa Targaryen, um crime de alta traição. Ele exige um julgamento por combate, e é nesse contexto que a identidade de Egg se torna impossível de ocultar. Quando os príncipes se reúnem, os olhares se acumulam sobre o garoto. No livro, o reconhecimento é gradual. Irmãos, primos e o próprio pai observam o menino até que alguém compreende o óbvio: aquele garoto é Aegon.
Não há melodrama. Apenas inevitabilidade. Egg não pode mais fingir. Confrontado, confirma: seu nome é Aegon Targaryen. Nesse instante, Dunk entende tudo. O menino que repreendeu, alimentou, protegeu e tratou como aprendiz é um príncipe.
A reação de Dunk não é reverência, mas profundamente humana. Ele se sente enganado, ridicularizado, quase usado pela nobreza. Tudo sugere que foi alvo de uma brincadeira cruel da aristocracia. Mas Egg não ri. Está assustado. Confessa que tudo o que queria era não ser príncipe, mas escudeiro, ver o mundo real, experimentar aquilo que os palácios nunca permitiriam. Como ex-escudeiro, Dunk percebe que não foi manipulado por arrogância, mas por desespero. E isso muda tudo.

A grande pergunta surge então: por que a Casa Targaryen permite que Egg continue ao lado de Dunk? Tecnicamente, nada impediria que o levassem de volta à corte. Mas, naquele momento, Egg é um príncipe periférico, distante da linha direta de sucessão, sem peso estratégico. Como filho mais novo de Maekar, é quase um detalhe político. A família acredita que pode seguir sem ele.
Além disso, ao enfrentar Aerion, Dunk expôs algo que os Targaryen preferiam esconder: a crueldade, o sadismo e o perigo representados por aquele príncipe. Punir Dunk significaria admitir publicamente essa verdade. Ao lutar com coragem no julgamento por combate, ele conquista o respeito de figuras como Baelor Breakspear e Maekar. Ao final, deixa de ser apenas um plebeu e passa a ser visto como um cavaleiro digno de confiança.
Baelor é o primeiro a compreender algo que outros não percebem. Dunk pode ser útil para Egg porque representa exatamente aquilo que a corte não pode oferecer: senso moral, experiência do mundo real, limites. Permitir que Egg continue ao lado dele torna-se, paradoxalmente, uma forma de educação política.
Egg se recusa a voltar para King’s Landing. Argumenta, implora, desafia. Impedi-lo à força seria humilhante para os Targaryen, pois significaria admitir publicamente que um príncipe fugiu da corte. Como sempre, Westeros prefere o silêncio ao escândalo. Oficialmente, Egg continua escudeiro. Extraoficialmente, todos sabem quem ele é, mas fingem não saber. Sem perceber, a família real cria algo potencialmente subversivo: um príncipe que conhece o povo.

A partir desse momento, Egg passa a viver uma existência paradoxal. É Targaryen, mas dorme na estrada, come comida pobre, limpa armaduras e aprende a dureza do mundo sob a orientação severa de Ser Duncan. Quando segue Dunk pelas estradas, ninguém imagina que aquele garoto será coroado. Mas é justamente essa experiência que o transforma em Aegon V. Ao se tornar rei, ele tenta mudar Westeros. E, por isso, Westeros o rejeita.
Egg cresce acreditando que o problema dos Sete Reinos é a aristocracia. No fim, porém, quem destrói seu projeto não são apenas os lordes, mas seus próprios filhos. Eles se apaixonam, desobedecem, recusam casamentos políticos e repetem o gesto de rebeldia que o próprio Egg praticou na juventude. Assim, a história de Aegon V deixa de ser apenas sobre poder e se torna uma reflexão sobre limite. Seu reinado termina em fogo. A paixão pela História e a obsessão Targaryen em ressuscitar dragões custam sua vida e a de seus mais queridos, incluindo Ser Duncan. O príncipe que quis entender o povo termina consumido pelo mesmo fogo que definiu sua casa.
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