Eu nunca entendi completamente o sucesso de crítica e público de Shrinking. As piadas com o processo analítico são, no mínimo, desconcertantes: um terapeuta que dá conselhos diretos e se envolve na vida pessoal dos pacientes não é exatamente uma subversão engraçada, mas uma caricatura que flerta com o irresponsável. Agora, a série parece avançar um passo além ao transformar o drama de um homem vencido pelo Parkinson em matéria-prima para o riso. É difícil não achar isso, no mínimo, problemático.
Saindo da minha bolha amarga e crítica, eu entendo o argumento. O humor sempre foi uma ferramenta poderosa para lidar com o trágico, o íntimo e o insuportável. Rir do que dói pode ser uma forma de sobreviver a ele. O problema não é o riso em si, mas o ponto de vista que o sustenta, o limite ético que ele decide ignorar e a linha tênue entre humanizar o sofrimento e banalizá-lo.

Em Shrinking, essa linha parece constantemente borrada. A série quer ser sensível, mas recorre a atalhos fáceis. Quer ser profunda, mas frequentemente se apoia em efeitos emocionais previsíveis. Quer ser ousada, mas faz isso simplificando aquilo que deveria ser tratado com complexidade. No fim, o que incomoda não é a existência de humor em torno da dor, mas a sensação de que a dor, ali, serve menos como experiência humana e mais como dispositivo narrativo.
Talvez seja por isso que Shrinking funcione tão bem para o público. Ela transforma o trauma em algo digerível, o sofrimento em algo consumível e a terapia em uma fantasia de respostas rápidas. Mas, justamente por isso, é difícil celebrar seu sucesso sem desconforto.
Se há algo que impede Shrinking de ser descartada como uma comédia menor, esse algo é o elenco. Nesta terceira temporada, Harrison Ford assume definitivamente o centro de gravidade da série.
Ford sempre foi um ator associado a personagens lacônicos, rabugentos e moralmente fatigados. Ao lado de Tommy Lee Jones, talvez seja um dos poucos intérpretes capazes de rosnar em cena e, ainda assim, produzir empatia. Em Shrinking, ele transforma Paul em algo que vai além do arquétipo do velho cínico. Há dureza, sim, mas também melancolia, dignidade e uma espécie de vulnerabilidade contida que Ford domina como poucos. É uma grande atuação, mesmo quando o personagem parece uma extensão da persona que o cinema construiu ao longo de décadas.

O paradoxo é que Ford entrega o tipo de trabalho que legitima a série, enquanto o roteiro insiste em permanecer em uma zona indefinida entre o drama e a comédia. Na terceira temporada, Shrinking continua sem se decidir sobre o que quer ser. Para mim, esse é o maior mistério: como uma série que nunca encontrou plenamente sua identidade estética, ética e tonal consegue sobreviver com tamanha estabilidade crítica e popular.
Narrativamente, a temporada atual tenta aprofundar seus conflitos. Jimmy enfrenta o vazio de se tornar um pai em fase de ninho vazio e a angústia de ver Alice tomar decisões de vida que ele não controla mais. Paul, por sua vez, encara novas etapas do Parkinson, um arco que culmina na participação de Michael J. Fox, ele mesmo convivendo publicamente com a doença. A presença de Fox carrega uma carga simbólica que Shrinking parece consciente demais de explorar, quase como se o peso histórico do ator fosse convocado para emprestar gravidade a uma série que raramente sabe sustentar o próprio drama.
E é aqui que o incômodo se intensifica. A série toca em temas reais, dolorosos e complexos como envelhecimento, degeneração física, luto, autonomia dos filhos e limites da terapia, mas insiste em tratá-los com uma leveza que não chega a ser libertadora, apenas superficial. Nem o talento de Harrison Ford, nem o impacto emocional de Michael J. Fox, nem o esforço do elenco conseguem, para mim, produzir o efeito que a série parece perseguir.
Nada em Shrinking me faz rir. E talvez o problema não seja o meu humor, mas a forma como a série confunde delicadeza com concessão, emoção com facilidade e humanidade com fórmulas reconfortantes.
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