Como publicado na Revista Bravo!
Não sei se penso mais no grito icônico “Kevin!” em Esqueceram de Mim, na dança ao som de Harry Belafonte em Beetlejuice, na passagem impagável pelo genial Schitt’s Creek ou na forma como roubou a cena no recente sucesso The Studio. A genialidade cômica de Catherine O’Hara era lendária, e sua morte, aos 71 anos, após uma breve e rara doença não oficialmente confirmada, encerra uma das trajetórias mais singulares da comédia contemporânea.
Em um gênero frequentemente associado ao riso imediato e ao efêmero, O’Hara construiu algo mais raro: personagens excessivos, às vezes grotescos, quase sempre excêntricos, mas atravessados por humanidade, melancolia e inteligência emocional. Ela nunca foi apenas engraçada. Foi, sobretudo, uma atriz que compreendia o humor como linguagem dramática.

Nascida no Canadá, Catherine O’Hara emergiu nos anos 1970 como uma das vozes mais inventivas do lendário SCTV, onde ajudou a criar e consolidar uma comédia baseada no improviso, na sátira e no absurdo como ferramentas de crítica cultural. Ali, também se formou uma parceria decisiva para sua carreira: o encontro com Eugene Levy, com quem construiria, ao longo de décadas, uma das colaborações mais sofisticadas da comédia norte-americana. Juntos, desenvolveram uma linguagem em que o exagero nunca anulava a emoção e o ridículo nunca excluía a dignidade.
Sua entrada no cinema americano ocorreu nos anos 1980, com participações em produções que a aproximaram de Hollywood, incluindo Depois de Horas, de Martin Scorsese. Em Beetlejuice, de Tim Burton, demonstrou de forma definitiva a capacidade de transformar o exagero em linguagem estética e voltou ao papel décadas depois, na sequência lançada em 2024. Em Esqueceram de Mim, tornou-se parte da memória afetiva de gerações ao interpretar a mãe desesperada que atravessa o mundo para reencontrar o filho, uma figura aparentemente simples, mas carregada de tensão emocional, culpa e urgência.
Ao longo dos anos 1990 e 2000, aprofundou sua identidade artística nos mockumentaries de Christopher Guest, como Waiting for Guffman, Best in Show e A Mighty Wind, consolidando um estilo baseado em personagens excêntricos, ridículos e profundamente humanos. Na televisão, passou por séries como Six Feet Under, Curb Your Enthusiasm e 30 Rock, antes de alcançar o reconhecimento definitivo com Moira Rose, em Schitt’s Creek, criado por Eugene Levy e seu filho Dan Levy.
Moira sintetiza o legado de O’Hara: aristocrática e patética, arrogante e vulnerável, ridícula e trágica. Ao interpretá-la, a atriz conquistou o Emmy e a consagração tardia que muitas vezes chega apenas às artistas que atravessam o tempo sem abdicar da própria singularidade. A parceria com Levy encontrou ali seu ápice, transformando o casal Johnny e Moira Rose em uma das representações mais complexas e sensíveis da comédia contemporânea.
Nos últimos anos, sua presença seguiu relevante e simbólica. Foi indicada ao Emmy por The Last of Us e participou de The Studio, sátira afiada sobre os bastidores de Hollywood, reafirmando sua afinidade com narrativas que desmontam o próprio espetáculo da indústria do entretenimento, como se sua carreira tivesse sido, desde o início, um comentário irônico sobre o sistema que a consagrou.
Ao longo de mais de cinco décadas, Catherine O’Hara transitou entre o cinema autoral, o mainstream hollywoodiano e a televisão de prestígio, sempre com a mesma assinatura: personagens que pareciam maiores do que a vida, mas que revelavam algo profundamente humano. Seu talento nunca esteve no riso fácil, mas na capacidade de expor, por trás do excesso, o medo, o desejo, a fragilidade e a solidão.
Fora das telas, viveu longe do espetáculo. Foi casada desde 1992 com o designer de produção Bo Welch, com quem teve dois filhos. Segundo o NY Post, paramédicos foram chamados à casa da atriz com urgência e a transportaram para uma unidade hospitalar próxima, mas ela morreu horas depois. O jornal afirma que O’Hara convivia com uma condição congênita rara chamada dextrocardia com situs inversus, em que os órgãos do tórax e do abdômen se encontram em posição invertida em relação à anatomia considerada padrão. Não está claro, no entanto, se essa condição teve qualquer relação com sua morte.
Catherine O’Hara deixa não apenas uma filmografia icônica, mas uma ideia de comédia que resiste ao tempo, menos como gênero e mais como forma de olhar o mundo. Talvez esse seja seu maior legado: provar que o humor pode ser profundo, político, melancólico e inesquecível, sem jamais perder a capacidade de nos fazer rir.
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