Como publicado na Revista Bravo!
Catherine O’Hara construiu sua carreira interpretando mulheres que jamais aceitaram a ideia de caber, fossem em gêneros, em expectativas, em limites de comportamento ou de idade. Sua comédia nunca foi sobre “punchlines”, mas sobre identidade. Sobre o desconforto de existir em um mundo que exige contenção quando tudo em você é excesso.
Antes mesmo de revisitar seus personagens mais icônicos, vale lembrar como Catherine O’Hara seguia absolutamente relevante até o fim. Em The Last of Us, sua participação foi breve, mas devastadora, uma mulher atravessada pela perda e pela memória, capaz de condensar em poucos minutos uma vida inteira de afeto e desalento. Já em The Studio, ela roubou a cena ao integrar uma sátira feroz sobre os bastidores de Hollywood, reafirmando algo que sempre definiu sua carreira: o talento para desmontar a própria indústria que a consagrou, expondo vaidades, egos e fragilidades com humor e precisão cirúrgica.
Esse domínio do desconforto, aliás, estava presente desde cedo. Em Depois de Horas, de Martin Scorsese, O’Hara interpretou Gail, a motorista de caminhão de sorvete tão sedutora quanto ameaçadora, uma figura que mistura erotismo, perigo e absurdo. Era um papel pequeno, mas revelador. Ali já estava a atriz capaz de transformar personagens excêntricos em experiências inquietantes, deslocando o riso para uma zona de tensão.
Talvez por isso seus personagens mais famosos sejam sempre maiores do que a vida, mas nunca vazios. Ao contrário: quanto mais extravagantes, mais reveladores.
- Moira Rose de Schitt’s Creek
Moira Rose é o ápice da brilhante trajetória de Catherine. Uma ex-atriz rica, decadente e performática que fala como se estivesse eternamente em cena, Moira poderia ter sido apenas uma caricatura. O que O’Hara fez foi transformá-la em um retrato dolorosamente humano do medo de desaparecer. Moira não performa por vaidade apenas, mas por sobrevivência. O sotaque inventado, os figurinos excessivos, as perucas quase absurdas são armaduras contra o esquecimento. Por trás do riso, há pânico. Por trás da arrogância, fragilidade. É por isso que Moira virou ícone e rendeu a O’Hara seu Emmy tardio e definitivo.
- Kate McCallister de Esqueceram de Mim
Décadas antes, ela já havia entrado no imaginário coletivo como a mãe que esquece o filho em casa e atravessa o mundo para reencontrá-lo. Mas O’Hara transforma Kate em algo mais profundo. Seu famoso grito de “Kevin!” não é apenas cômico, é existencial. É culpa, terror, amor absoluto condensados em uma única palavra. Poucas atrizes conseguiram tornar a maternidade tão intensa sem sentimentalismo barato. Kate McCallister virou uma das mães mais reconhecíveis da história do cinema porque O’Hara entendeu que o desespero também pode ser engraçado, desde que seja verdadeiro.
- Delia Deetz de Beetlejuice
Navegar com destaque em um universo singular como o de Tim Burton não é fácil e das personagens femininas que imediatamente vêm às nossas mentes vem a complexa Delia Deetz de Beetlejuice. Ela representa outro aspecto fundamental de sua obra: o excesso como estética. Delia é uma artista performática, autocentrada, deslocada e fascinante. Em vez de suavizar o grotesco, O’Hara o abraça. Ela entende que o universo de Tim Burton não pede naturalismo, pede compromisso com o absurdo. Delia não tenta ser normal, e é exatamente isso que a torna memorável. O’Hara inaugura ali uma persona que marcaria sua carreira: mulheres que não pedem desculpas por ocupar espaço. E vamos combinar que dublar Harry Belafonte nunca foi tão lendário como a cena do jantar. Graças à Catherine O’Hara.
- Cookie Fleck de Best In Show
Fiquei tentada em colocar Patty Leigh de The Studio aqui na lista, mas o olhar crítico sobre classe, ego e aparência atinge seu ponto mais cruel em Cookie Fleck, de Best in Show. Cookie é venenosa, controladora, obcecada por status e absolutamente hilária. O’Hara transforma cada frase em um pequeno ato de violência social, expondo o ridículo da elite americana sem jamais suavizar o desconforto. É uma das performances mais brilhantes da história da comédia improvisada porque ela nunca busca empatia fácil. Cookie não quer ser amada. Quer vencer. E O’Hara entende exatamente como tornar isso engraçado e perturbador ao mesmo tempo.
- Sally Owens de A Mighty Wind
Poucos lembrariam de A Mighty Wind, onde como Sally Owens, O’Hara entregou uma das personagens mais reveladoras de sua carreira. Aqui, o excesso dá lugar à melancolia. Sally é uma cantora folk marcada por frustrações, sonhos interrompidos e uma vida que não saiu como prometido. O’Hara canta, atua e emociona com uma delicadeza que desmonta qualquer ideia de que ela era apenas uma comediante excêntrica. Esse papel confirma algo essencial: sua grande força sempre foi a capacidade de alternar humor e dor sem avisar o espectador.
Ao observar esses personagens juntos, fica claro que Catherine O’Hara nunca esteve interessada em mulheres comportadas, equilibradas ou facilmente classificáveis. Ela preferiu aquelas que falham em público, que exageram, que falam demais, que vestem demais, que sentem demais. Mulheres que incomodam porque se recusam a desaparecer.
Seu legado não está apenas nos risos que provocou, mas na forma como ensinou que a comédia pode ser um território de complexidade emocional, crítica social e resistência estética. Catherine O’Hara não interpretou personagens para agradar. Interpretou para existir.
E talvez por isso continue tão viva.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
