Como publicado no Caderno B+
Há algo de paradoxal em People We Meet on Vacation. O filme é frágil como obra cinematográfica, previsível como narrativa e pouco ousado como comédia romântica. Ainda assim, funcionou. Não apenas funcionou, como se transformou em um dos títulos mais assistidos da Netflix, figurando no Top 10 mundial e consolidando-se como fenômeno entre o público jovem.
A explicação não está na qualidade do filme, mas na inteligência de sua fórmula. People We Meet on Vacation é, em essência, uma releitura contemporânea de When Harry Met Sally, com papéis invertidos e sensibilidade adaptada ao espírito do tempo. Aqui, Alex ocupa o lugar do neurótico, do analítico, do homem que racionaliza sentimentos. Poppy assume a energia expansiva, impulsiva e afetiva que, no clássico de 1989, pertencia a Harry. A dinâmica é familiar, quase confortável, mas raramente surpreendente.

A história acompanha Poppy e Alex, amigos de longa data que transformaram viagens anuais em ritual de intimidade. Durante anos, eles percorrem cidades, compartilham confidências e constroem uma relação que nunca chega a se definir como romance. Até que algo se rompe. O filme retorna a esse passado por meio de memórias fragmentadas, reconstruindo os momentos que levaram ao afastamento e à inevitável revelação do amor. A estrutura alterna presente e passado, mas sem grandes riscos narrativos. Tudo é calculado para conduzir o espectador ao desfecho esperado.
O filme nasce do romance homônimo de Emily Henry, publicado em 2021 e rapidamente transformado em best-seller. Henry construiu sua reputação explorando relações afetivas marcadas por ironia, melancolia e medo de intimidade, e seu livro traduz com precisão o imaginário sentimental de uma geração que ama com cautela e hesita em nomear sentimentos. A adaptação preserva essa atmosfera, mas dilui a complexidade emocional do texto em favor de uma narrativa mais palatável e visualmente sedutora.
Tom Blyth e Emily Bader lideram o elenco com performances competentes, mas raramente memoráveis. Blyth constrói Alex como um personagem contido, introspectivo, quase excessivamente racional. Bader dá a Poppy uma energia inquieta, expansiva, mas limitada por um roteiro que prefere a simpatia ao conflito real. A química entre os dois existe, mas não chega a produzir o tipo de tensão emocional que define as grandes comédias românticas. O elenco de apoio funciona como cenário humano, reforçando a sensação de deslocamento e nostalgia que o filme tenta construir, mas sem grandes destaques.
O maior mérito de People We Meet on Vacation não é artístico, mas cultural. O filme entende o público para o qual foi feito. Ele fala a língua de uma geração que prefere o reconhecimento à surpresa, a identificação à complexidade, o conforto à ruptura. Não há diálogos memoráveis, nem cenas destinadas a atravessar décadas, como em When Harry Met Sally. O que há é uma sucessão de momentos reconhecíveis, calibrados para viralizar nas redes sociais e gerar engajamento emocional.

Por isso, seu sucesso na Netflix é menos um mistério do que um sintoma. People We Meet on Vacation é fraco como reinvenção do gênero, mas eficiente como produto do seu tempo. Ele não reinventa a comédia romântica, apenas a traduz para um público que já não espera que o amor seja grandioso. E talvez seja justamente por isso que tenha conquistado o Top 10 mundial: porque oferece exatamente o que sua audiência deseja ver.
No fim, o filme se comporta como uma versão domesticada de When Harry Met Sally. Troca a inteligência afiada pelo conforto emocional, o conflito verbal pelo silêncio sentimental e a ambição estética pela eficiência algorítmica. Não é um grande filme, nem pretende ser. É apenas um retrato fiel de uma época em que o amor deixou de ser épico para se tornar administrável.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
