A história do castelo que virou o novo endereço de The White Lotus

Sendo The White Lotus o nome de uma rede de hotéis, os espaços nunca são neutros. No Havaí, o resort expunha a apropriação cultural; na Itália, mitos e ruínas espelhavam os conflitos dos hóspedes; na Tailândia, violência e trauma colidiam com a promessa de iluminação espiritual. A próxima — e talvez última — temporada, ambientada no sul da França, segue a lógica: o endereço histórico escolhido dificilmente será apenas cenário. Como sempre, o hotel deve funcionar como personagem e como sintoma.

Antes de se tornar o novo endereço da sátira mais incômoda da televisão contemporânea, o Château de la Messardière já havia vivido uma narrativa própria, marcada por afeto, perda, ostentação e reinvenção. Construído no século 19 por Gabriel Dupuy d’Angeac, um rico comerciante de conhaque, o castelo nasceu como presente de casamento para a filha Louise. Um gesto íntimo, pensado para celebrar um futuro doméstico, interrompido abruptamente pela morte precoce do genro.

Viúva, Louise foi obrigada a transformar a residência em hotel. Não por vocação estética, mas por sobrevivência. A partir daí, o edifício deixou de ser casa e passou a ser palco. Nos anos 1920, em plena era dos excessos, o Messardière se consolidou como endereço preferencial da aristocracia parisiense em veraneio no sul da França. Festas luxuosas, encontros discretos, privilégios tratados como paisagem. Como tantas construções associadas à elite europeia, o castelo também atravessou seu período de esvaziamento: mudanças de propriedade, abandono, esquecimento.

A grande restauração veio apenas em 1989, preservando o caráter histórico do edifício, mas incorporando novas camadas de estilo e função. Desde 2019, integrado à coleção Airelles, o Château de la Messardière voltou ao centro do luxo contemporâneo. Cercado por oliveiras e pinheiros, com vista dominante para a Baía de Pampelonne e diárias que hoje ultrapassam facilmente os €1.300, ele ocupa um lugar simbólico em Saint-Tropez: isolado o suficiente para sugerir exclusividade, visível o bastante para afirmar poder. Um espaço onde o luxo nunca foi neutro: apenas cuidadosamente encenado.

É exatamente esse tipo de ambiente que The White Lotus transforma em matéria-prima narrativa. Na quarta temporada, ambientada na França, o castelo será o centro da nova engrenagem dramática criada, escrita e dirigida por Mike White. E o elenco anunciado até agora reforça a ideia de uma temporada mais aristocrática, mais europeia e potencialmente mais sombria.

Entre os nomes já confirmados estão Helena Bonham Carter, cuja presença carrega um repertório inteiro de ironia, melancolia e excentricidade perfeitamente compatíveis com o espírito do lugar; Steve Coogan, especialista em personagens atravessados por vaidade, constrangimento e autoengano; Alexander Ludwig e AJ Michalka, além de Chris Messina, que se junta ao elenco em negociações avançadas. O grupo se completa, até aqui, com Caleb Jonte Edwards e Marissa Long, ambos com papéis mantidos sob absoluto sigilo.

Como manda a tradição da série, não há ainda confirmação sobre o personagem de ligação com temporadas anteriores, papel que já foi ocupado por Jennifer Coolidge, Natasha Rothwell e Jon Gries. O nome de Charlotte Le Bon surge como possibilidade recorrente nos bastidores, especialmente por sua fluência em francês e por conexões narrativas ainda em aberto, mas nada foi oficializado. Vamos especular as pontas abertas que poderiam voltar na conclusão em breve.

No fim, a escolha do Château de la Messardière não funciona apenas como cenário de luxo. Ela ecoa a própria lógica de The White Lotus: um lugar nascido do afeto, atravessado pela perda, moldado pela ostentação e continuamente reinventado para sustentar uma ideia de privilégio. Um espaço onde o passado nunca desaparece completamente, apenas observa, em silêncio, enquanto algo inevitavelmente começa a ruir.


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