Como Publicado na Revista Bravo!
A 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes se encerra com um retrato raro de convergência entre cinema, política, formação e público. Em um ano atravessado pelo tema da soberania imaginativa, Tiradentes voltou a funcionar como lugar de escuta e de disputa simbólica, reafirmando o festival não apenas como vitrine de lançamentos, mas como espaço ativo de construção de memória e pensamento crítico sobre o país.
O grande vencedor da Mostra Olhos Livres foi Anistia 79, documentário da cineasta Anita Leandro, que recebeu o Prêmio Carlos Reichenbach do júri oficial e, de forma ainda mais eloquente, também conquistou o Prêmio de Melhor Longa do Júri Popular. A escolha sintetiza o espírito desta edição. Ao se apropriar criativamente de um registro amador e expandir as possibilidades de cada fotograma, o filme articula forma e política de maneira indissociável. O júri destacou a potência do gesto ao deslocar o imaginário tradicional da luta contra a ditadura civil-militar, trazendo ao centro imagens de dois homens negros, um líder camponês e o cinegrafista, personagens historicamente pouco acessados pelo imaginário coletivo, e afirmando o cinema como ferramenta ativa de construção da memória.

No palco, Anita Leandro descreveu a recepção do filme como a experiência mais intensa de sua trajetória. Falou do silêncio atento da plateia diante de um tema difícil, quase como uma liturgia coletiva, e expressou o desejo de que o reconhecimento em Tiradentes ajude a garantir a circulação do longa nas salas comerciais. Não se trata apenas de uma vitória artística, mas da confirmação de que existe público para filmes que recusam atalhos narrativos e enfrentam o passado com rigor formal e densidade ética.
As demais premiações reforçaram a diversidade de olhares e procedimentos que atravessaram a programação. Na Mostra Foco, dedicada aos curtas-metragens, o júri oficial premiou Entrevista com Fantasmas, de LK, pela capacidade de articular cinema, cidade e memória com humor e absurdo, discutindo preservação, gentrificação das cidades e precarização do trabalho a partir de uma economia radical de meios. Já o Prêmio Canal Brasil de Curtas foi para Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, reconhecido por desconstruir estereótipos e retratar uma juventude emparedada por uma melancolia invisível, abrindo espaço para que corpos historicamente silenciados possam ousar sentir.
O Prêmio Helena Ignez de Destaque Feminino ficou com Gabriela Mureb, pela direção de Crash, um trabalho que propõe uma reflexão profunda sobre o uso do som e o modo de ver a imagem, operando uma síntese rara entre experimentação estética e posicionamento político. Entre os longas da Mostra Aurora, o Júri Jovem escolheu Para os Guardados, de Desali e Rafael Rocha, um filme que aposta no experimental como desvio da literalidade dominante e imagina outros caminhos possíveis para a realidade. Já a Associação Brasileira de Críticos de Cinema concedeu o Prêmio Abraccine de Melhor Longa da Mostra Autorias a Atravessa Minha Carne, de Marcela Borela, destacando o rigor formal da montagem e do desenho sonoro em diálogo com uma escrita fotográfica sensorial.

Essa centralidade da imaginação como gesto político atravessou também os debates curatoriais do festival. Em conversa durante a Mostra, Francis Vogner dos Reis, um dos curadores, fez questão de sublinhar que a temática anual não opera como um filtro rígido de seleção. A soberania imaginativa, segundo ele, não funciona como obrigação temática nem como corte imposto aos filmes, mas como uma proposição aberta ao diálogo com o público, com a crítica e com o próprio cinema brasileiro. A curadoria, nesse sentido, não parte do tema para escolher os filmes, mas reconhece, ao longo de um trabalho contínuo, inquietações que já circulam entre as obras, os realizadores e as edições anteriores do festival.
Francis destacou ainda que essas temáticas nascem de uma reflexão de longo prazo, alimentada pela experiência acumulada do evento e pelo contexto político e social do país. Mais do que responder a estímulos imediatos, elas buscam criar condições para que boas perguntas sejam formuladas. No campo do fazer cinematográfico, o curador chamou atenção para a diversidade radical de modos de produção presentes na programação. Filmes realizados de forma artesanal, com poucos recursos e ao longo do tempo, convivem com obras produzidas em regimes mais tradicionais, a partir de editais e equipes amplas. O que interessa, afirmou, é como cada filme inventa seu próprio modo de existir a partir das circunstâncias disponíveis e transforma isso em uma experiência sensível oferecida ao público.
Essa recusa ao previsível aparece como um dos motores centrais do cinema exibido em Tiradentes. A imaginação, nesse contexto, não está em repetir aquilo que já está dado, mas em tensionar formas, narrativas e expectativas. O problema não é partir do clichê, mas chegar a ele como fim. Ao contrário do cinema industrial mais convencional, esses filmes apostam no risco e no estranhamento, inclusive no direito do espectador de não se reconhecer imediatamente na experiência proposta.
A relação entre autonomia criativa e circulação reapareceu também nas conversas com profissionais do setor. Para Leonardo Lacca, preparador de elenco de O Agente Secreto, o percurso internacional recente do cinema brasileiro é menos resultado de estratégia e mais consequência de processos criativos consistentes. Segundo ele, não houve, na origem do trabalho, uma preocupação com prêmios ou campanhas, mas com a liberdade e a precisão do filme, permitindo que o reconhecimento surgisse de forma orgânica.
Lacca chamou atenção ainda para um aspecto frequentemente negligenciado no debate público, mas central para a credibilidade do cinema de época e do cinema autoral. Vocabulário, figurino, direção de arte e, sobretudo, os corpos importam. Marcas muito contemporâneas podem quebrar a verossimilhança de um filme ambientado em outro tempo, e palavras carregam camadas históricas e afetivas que o cinema precisa saber escutar. Às vezes, observou, uma palavra diz mais sobre um período do que conceitos mais explícitos.
Ao longo do festival, o reconhecimento internacional do cinema brasileiro apareceu menos como horizonte de desejo e mais como reflexo de um movimento que ainda precisa se resolver internamente. Há orgulho evidente pela circulação externa e pela atenção conquistada fora do país, mas a urgência permanece voltada para dentro, para os modos de produção, para a formação de público, para as políticas públicas e para a capacidade de o cinema brasileiro imaginar a si mesmo antes de buscar validação externa.

Os números ajudam a dimensionar a escala e o impacto dessa edição. Mais de 38 mil pessoas participaram das atividades ao longo de nove dias de programação gratuita, movimentando a cidade histórica e seu entorno. Estima-se que mais de dez milhões de reais tenham sido injetados na economia local, com a contratação de centenas de empresas mineiras e a geração de milhares de empregos diretos e indiretos. Foram exibidos 137 filmes brasileiros, vindos de 23 estados, todos em pré-estreia, distribuídos em 21 mostras e sessões especiais, além de uma intensa programação formativa e de debates que consolidaram Tiradentes como espaço estratégico de pensamento sobre o audiovisual brasileiro.
Ao final, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes deixa a sensação de um festival que cresce sem perder densidade, que amplia público e impacto econômico sem diluir o debate, e que insiste em afirmar o cinema brasileiro como campo de imaginação, memória e disputa política. Em um país em permanente negociação com seu passado e seu futuro, Tiradentes segue sendo um dos poucos lugares onde essas conversas acontecem com tempo, rigor e escuta real.
*Reporter viajou a convite da Mostra Tiradentes 2026
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
