Leonardo Lacca: o olhar por trás do elenco de O Agente Secreto

Como publicado pela Revista Bravo!

Preparador de elenco e ator, o diretor Leonardo Lacca construiu uma trajetória discreta, porém fundamental, no cinema brasileiro contemporâneo. Seu trabalho está diretamente ligado à construção de personagens complexos, à escuta atenta dos atores e ao entendimento do elenco como parte viva da dramaturgia, não apenas como execução técnica.

Ele esteve na 29ª Mostra de Cinema para acompanhar a circulação de O Agente Secreto, um dos filmes brasileiros mais comentados do festival, além de participar de encontros e conversas sobre processos criativos, direção de atores e os desafios do cinema nacional no cenário internacional. O longa, que vem sendo apontado como um dos títulos com maior potencial de projeção fora do país, colocou seu trabalho novamente em evidência.

Ele conversou com a Revista Bravo! sobre o trabalho e a expectativa do Oscar, poucas semanas antes de embarcar para a capital do cinema americano.

BRAVO! No trabalho de um filme de época, isso também entra no preparo de elenco?
Leonardo Lacca: Entra muito. Entra no vocabulário, nos elementos ao redor, na relação com a direção de arte, figurino, locações. O próprio roteiro vai criando esse direcionamento. E a escolha do elenco passa muito por isso também: que tipo de corpos habitavam o final dos anos 1970? Se um ator traz marcas muito contemporâneas — seja por estética, por tecnologia no corpo, por um tipo específico de treino — isso pode quebrar a credibilidade de quem está assistindo.
A linguagem é fundamental. Palavras, forma de observar, de se colocar no mundo. “Pirraça”, por exemplo, é uma palavra que carrega muito dessa época, desse espírito.

BRAVO! “Pirraça” virou quase uma obsessão para os americanos agora (Wagner Moura explicou o termo em uma entrevista com o The New York Times)…
Leonardo Lacca (Risos) Sim, porque é muito sonora, muito gostosa de falar. E ela traduz muita coisa. É uma palavra complexa. Às vezes eu acho até mais complexa do que “saudade”. Saudade ainda dá pra traduzir. Pirraça tem camadas, tem afeto, tem provocação, tem jogo. Talvez seja a nova “saudade”.

BRAVO!: Durante o processo, vocês já imaginavam que o filme teria esse impacto internacional?
Leonardo Lacca: Não. De verdade, não. Até porque nunca ouvi o Kleber (Mendonça Filho) verbalizar qualquer ambição do tipo “quero ir para o Oscar”. Isso simplesmente não existe. O desejo sempre foi fazer o filme da melhor forma possível, sem concessões, com liberdade. Trabalhar com pessoas incríveis, atores e atrizes que contribuíssem para um ambiente profissional e humano. O resto é consequência.

BRAVO!: Mas a campanha, os festivais, os prêmios… tudo isso foi acontecendo.
Leonardo Lacca: Exatamente. É um passo a passo muito orgânico. Você faz o filme, mostra, as pessoas respondem, convidam para festivais, ele ganha um prêmio, depois outro, surge uma distribuidora interessada, como a Neon, o filme começa a circular nos Estados Unidos, no Canadá. Nada disso foi previsto. Talvez, daqui pra frente, outros projetos já nasçam com essa dimensão mais concreta. Mas esse filme foi feito entre amigos, entre profissionais, para realizar a visão do Kleber da maneira mais honesta possível.

BRAVO! Você acha que há hoje uma abertura maior do público americano para esse tipo de história brasileira?
Leonardo Lacca
: Sim. E acho que tem a ver com o olhar. Durante muito tempo, o cinema brasileiro foi muito associado a certas imagens, certos temas. Hoje, quando o foco está mais nos personagens, nas relações humanas, na família, isso cria uma outra entrada. As pessoas se envolvem. Elas entendem o filme. Não existe essa sensação de “não entendi”. A gente também passou anos entendendo filmes americanos cheios de códigos culturais que não eram nossos. E a gente entendia, porque o cinema cria pontes.

BRAVO!: Você citou um exemplo curioso…
Leonardo Lacca: Sim, fraternidades americanas. A gente não tem isso aqui, mas todo mundo entende quando vê num filme. Se quiser, pesquisa depois. O mesmo vale para o nosso cinema. Eu tenho certeza de que alguém como o David Lynch entenderia perfeitamente certos símbolos de “O Agente Secreto”. E amaria. É uma pena que ele não tenha visto.

BRAVO! Como foi trabalhar com o Wagner Moura, que já tem uma trajetória internacional tão consolidada?
Leonardo Lacca: Ele não traz nada no sentido “indústria”. Pelo contrário. É um cara extremamente simples, horizontal, interessado no outro. Ele quebra qualquer hierarquia no primeiro contato. Isso foi muito importante porque evita que os outros atores fiquem intimidados. Wagner quebra o gelo. Ele cria um ambiente de conforto. Acompanhar o processo dele foi muito bonito. Ele se aprofunda no personagem, no roteiro, na história. O encontro dele com a Tânia, por exemplo, acontece muito pela intuição, pela humanidade. É muito potente.

BRAVO! Agora vem Los Angeles, temporada de premiações… como você está vivendo esse momento?
Leonardo Lacca Como celebração. Claro que a gente torce, mas o que já aconteceu é extraordinário. Cannes, prêmios, reconhecimento… eu estou celebrando o tempo todo. Não fico preso à expectativa de ganhar ou não ganhar. Se vier, vai ser incrível. Se não vier, já é incrível. Esse filme já viveu algo muito raro.

*Reporter viajou a convite da Mostra Tiradentes 2026


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