Como publicado na Revista Bravo!
Saio de Tiradentes com a sensação de que o cinema brasileiro vive um momento paradoxal. Nunca fomos tão vistos, comentados e celebrados fora do país e, ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a distância entre o sucesso pontual e a realidade cotidiana da produção independente. Aqui, esse descompasso não é ignorado nem maquiado. Ele organiza a conversa.
Os números da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes ajudam a dimensionar a força do evento. Foram 137 filmes brasileiros em pré estreia, vindos de 23 estados, mais de 38 mil pessoas circulando pela cidade ao longo de nove dias e mais de R$ 10 milhões movimentados na economia local. Tiradentes não é um festival pequeno nem autocentrado. É um evento que movimenta gente, dinheiro e ideias.
Mas os dados nunca são ponto de chegada. São ponto de partida. O que atravessou salas, debates e corredores foi uma percepção compartilhada. O Oscar é motivo de orgulho, sim, mas não resolve nada sozinho. Os filmes brasileiros que chegaram lá são importantes, amados e legítimos, mas não dão conta de representar o cinema independente como um todo. Eles são exceções dentro de um sistema que segue frágil, desigual e pressionado.

É por isso que Tiradentes mantém o discurso com os pés no chão. Não há clima de euforia nem de autopromoção. O festival segue cumprindo um papel menos confortável e mais necessário. O de espaço onde o cinema brasileiro se pensa estruturalmente. Onde se fala de política pública sem rodeios, de circulação sem ilusões, de sobrevivência sem romantização.
A preocupação mais imediata que atravessou a Mostra e foi formalizada na Carta de Tiradentes é clara. O impacto do streaming sobre o ecossistema audiovisual brasileiro. Não como inimigo abstrato, mas como força concreta que concentra recursos, visibilidade e poder de decisão. A pergunta que se impõe não é se as plataformas vieram para ficar, isso já está dado, mas sob quais regras, com quais contrapartidas e a serviço de que projeto de cinema.
Nesse cenário, Tiradentes reafirma sua função histórica. Enquanto prêmios internacionais celebram o excepcional, o festival insiste no essencial. O cinema brasileiro que se discute aqui não vive de picos de reconhecimento, mas de políticas consistentes, circulação justa e imaginação soberana. Não é um discurso confortável nem triunfalista. É um discurso necessário.
É a partir dessa perspectiva que a diretora Raquel Hallack fala. Mais do que um balanço da edição, sua reflexão aponta para o lugar que a Mostra ocupa hoje. Não apenas como vitrine, mas como espaço de formulação, escuta e disputa de sentido. A seguir, o papo exclusivo com a Revista Bravo!, na qual Raquel aprofunda as ideias que atravessaram esta edição e comenta os desafios concretos do cinema brasileiro diante do streaming e das políticas públicas.

BRAVO: Já estamos falando muito da próxima edição, a 30ª, mas como – e se – a edição atual, a 29ª, se diferenciou das anteriores?
Hallack: Olha, a gente tem um formato de realização que inclui atividades de formação, de exibição, de reflexão e difusão dos melhores frutos que estão nascendo aqui na Mostra Tiradentes. O grande diferencial são sempre os filmes. Então, cada edição, ela representa uma temática que está em discussão, esse ano é a Soberania Imaginativa. Para a gente entender esse recorte de filmes, foram 137 títulos vindos de 23 estados brasileiros, com o propósito de mostrar a pluralidade de conteúdos, a diversidade dessa produção contemporânea. A novidade sempre é esses filmes encontrando seus públicos.
BRAVO: E a praça e salas sempre lotadas, né? Tudo gratuito. Como é que é organizar? Está mais fácil 29 anos depois?
Hallack: (Sorrindo) Não, cada edição é uma e a gente começa sempre de novo. Lógico que a gente vai adquirindo um know-how de como fazer essa amostra ser materializada, mas o modelo de financiamento é leis de incentivo, então a gente escreve o projeto, propõe junto ao Ministério, às leis federal e estadual, vai atrás do patrocínio e chega aqui em Tiradentes, dotando a cidade de toda a infraestrutura. São três cinemas instalados e toda a parte também de equipamentos para dar conta da abrangência dessa programação que é oferecida para todas as idades. Tem atrações pra criançada, pra jovem, adulto, idoso. E essa diversidade é que faz esse desafio também todo ano, né? Colocando o cinema em diálogo com a edição, com a literatura, com a dança, com as artes plásticas, as artes cênicas. Então aqui a gente vê arte por toda parte e o filme brasileiro, o grande protagonista.
BRAVO: Qual é o maior desafio pra uma curadoria?
Hallack: É selecionar 137 filmes de mais de 1.500 filmes escritos. É achar esse recorte representativo de cada edição e que ele dê conta desse Brasil continental. Como que a gente pode trazer todo ano uma radiografia, uma cartografia da produção que está sendo feita por pessoas que estão chegando no cinema, sob condições diversas, de onde que elas vêm, que cinema que elas estão fazendo, quais são as novas narrativas, as novas estéticas. Então, esse conjunto que nos coloca todo ano a partir das inscrições e a gente chegar com essa seleção e, para isso, uma equipe curatorial com 10 profissionais para dar conta desse retrato que a gente apresentou aqui.
BRAVO: Que Brasil o festival projetou em 2026? Que Brasil que a gente está vendo nas telas?
Hallack: Aqui é o cinema brasileiro de vários Brasis, são várias histórias, várias realidades, filmes que é resultado de edital, filmes precários, filmes experimentais, filmes consagrados. Essa diversidade, essa produção vasta, plural, que faz com que Tiradentes seja um espaço também de troca, de conhecimento, de possibilidade de negócios. Aqui também começam muitas produções, inspirações, então esse Brasil imenso, ele se faz presente através dessas histórias que são contadas pelos filmes.
BRAVO: E a urgência – e prioridade – para regular o streaming?
Hallack: O Projeto de Lei já está há 9 anos sendo debatido no Congresso. Com essa retomada do Governo, o debate se intensificou e saiu daqui uma decisão unânime de quem participou do Fórum Tiradentes que é urgente e necessário que essa regulamentação seja votada urgente no PL que está no Senado. Mesmo que não seja o projeto de lei que o setor deseja, almejava, mas que se faz necessário, porque cada ano que essa regulamentação não acontece, o setor perde mais de um bilhão. Depois da regulamentação, tem todo um tempo para que essa lei passe a vigorar no país. Então o Fórum de Tiradentes sediou várias discussões, foi um dos eixos temáticos, a regulamentação das plataformas e é o primeiro item da prioridade do setor: essa regulamentação.
BRAVO: Como é que a arte brasileira consegue se contextualizar nessa briga de algoritmos?
Hallack: Sim, eu acho que aí vem esse contraponto dos algoritmos: a experiência, a vivência dentro dos festivais. A gente está aqui discutindo todas as possibilidades que envolvem o audiovisual, as transformações de consumo pós-pandemia, dos algoritmos, das plataformas, das telas contemporâneas e, ao mesmo tempo, vivendo a experiência da sala escura, a experiência de você estar com a família, com amigos, de você discutir o filme que você está vendo, de você entender as histórias que estão sendo contadas, quem está fazendo. Ter um pensamento crítico sobre o que está sendo exibido. Então, acho que esse conjunto entre o moderno, a nostalgia, a experiência, a vivência, tem sido transformador para quem se dispõe a viver essa temporada audiovisual.
*Reporter viajou a convite da Mostra Tiradentes 2026
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