Quando The Cure venceu o Grammy em 2026 com Songs of a Lost World, o reconhecimento soou histórico. Em mais de quatro décadas de carreira, aquele era o primeiro Grammy da banda, tardio, simbólico, quase deslocado no tempo. Mas o momento não foi celebrado. Robert Smith e os integrantes não estavam na cerimônia. Naqueles dias, acompanhavam o funeral de alguém profundamente ligado à trajetória do grupo, uma perda que tornava impossível qualquer gesto de euforia pública.
Nada poderia ser mais coerente com o álbum premiado. Songs of a Lost World nasceu de uma sucessão de lutos: a morte da mãe e do irmão mais velho de Smith, a perda do pai anos antes, o desaparecimento de amigos próximos, o envelhecimento como consciência permanente. Em entrevistas, Smith descreveu o disco não como um trabalho sobre superação, mas sobre conviver com a ausência, aceitar que certas perdas não se resolvem. O tempo, ali, não cura. Ele apenas se acumula.

Esse olhar maduro, quase filosófico, conecta diretamente o Cure ao The Twilight Sad. Não por acaso, Smith sempre declarou admiração pela banda escocesa e os levou em turnês conjuntas. Se o Cure escreve o luto com a distância de quem sobreviveu a muitas perdas, o álbum mais recente do Twilight Sad está do outro lado da experiência: ainda dentro do impacto, ainda sem linguagem estabilizada. James Graham canta como quem tenta nomear a dor enquanto ela acontece.
Entre esses dois polos — o luto já sedimentado e o luto ainda em combustão — a música aparece como uma ferramenta essencial. Não como cura, mas como permanência. É a partir desse eixo que se organizam estes dez álbuns: discos em que a perda não é apenas tema, mas condição estrutural da obra.
1. Songs of a Lost World — The Cure
Escrito a partir de perdas familiares profundas e da consciência do envelhecimento, o disco transforma o luto em estado permanente. Faixas como Alone, And Nothing Is Forever e Endsong recusam qualquer promessa de redenção. Não há catarse, apenas lucidez. O luto aqui não pede consolo; ele aprende a existir. Sem surpresa, a banda ganhou os Grammys de Melhor Performance de Música Alternativa por “Alone” e Melhor Álbum de Música Alternativa por Songs of a Lost World. Merecido.
2. It’s The Long Goodbye — The Twilight Sad
Nascido de crises ainda em curso, o trabalho do Twilight Sad lida com o luto sem distância suficiente para organizá-lo. Em Waiting for the Phone Call e Designed to Lose, a dor retorna em ciclos, sem narrativa, sem transcendência. É o luto cru, ainda procurando linguagem.

3. Skeleton Tree — Nick Cave
Gravado durante o choque imediato da morte do filho de Nick Cave, o álbum soa fragmentado, quase suspenso. Canções como Jesus Alone e Girl in Amber revelam uma linguagem quebrada, incapaz de simbolizar plenamente a perda. Aqui, o luto ainda interrompe o pensamento.
4. Ghosteen — Nick Cave
Três anos depois, Cave retorna ao mesmo luto, agora espiritualizado. Ghosteen transforma a ausência em presença constante. Em Bright Horses e Ghosteen Speaks, a música funciona como vigília, como tentativa de diálogo com o invisível. Não há fechamento, apenas escuta.


5. The Final Cut — Pink Floyd
Roger Waters revisita a morte do pai na Segunda Guerra Mundial e o colapso do ideal pós-guerra britânico. Diferente de The Wall, aqui não há grandiosidade épica, apenas desgaste. The Gunner’s Dream e Two Suns in the Sunset transformam o luto pessoal em acusação histórica. É o luto político, corrosivo, sem reconciliação.
6. In the Grace of Your Love — The Rapture
O álbum nasce do suicídio da mãe de Luke Jenner e de um colapso pessoal e criativo que quase dissolveu a banda. Diferente de outros discos de luto, porém, ele não escolhe o recolhimento. Em Miss You e Children, a perda é nomeada; em Sail Away, ela se cruza com paternidade e continuidade. A dor aqui vira movimento. O corpo dança para não desaparecer.
7. Carrie & Lowell — Sufjan Stevens
Escrito após a morte da mãe, o disco revisita uma infância marcada por ausência e silêncio. Em Fourth of July e Should Have Known Better, o luto é filtrado pela memória, pela culpa e pela tentativa de organizar o passado. Delicado e construído, é um álbum sobre elaboração tardia.
8. Blackstar — David Bowie
Gravado enquanto Bowie sabia que estava morrendo, o álbum transforma a própria morte em gesto artístico. Lazarus e Blackstar não pedem empatia: encenam a despedida. O luto aqui é antecipado, consciente, incorporado à obra como última forma de controle.


9. A Moon Shaped Pool — Radiohead
Após o fim de um relacionamento longo e o falecimento de sua ex-mulher, Thom Yorke escreve um disco de suspensão emocional. Em Daydreaming e True Love Waits, o luto é afetivo, silencioso, sem resolução narrativa. Um álbum sobre o que permanece quando o futuro imaginado desaparece.
10. You Want It Darker — Leonard Cohen
Gravado pouco antes de sua morte, o disco é um diálogo final com Deus. Em You Want It Darker e Leaving the Table, Cohen não negocia nem se revolta. O luto é teológico, grave, quase litúrgico. Uma despedida sem espetáculo.
O que une esses álbuns não é apenas a dor que os originou, mas a maneira como a música se transforma quando a perda deixa de ser episódio e passa a ser condição. Em todos eles, o luto não é resolvido, apenas habitado. A música não oferece saída, mas, de alguma forma, permanência.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
