Hamlet no cinema: quantas adaptações Shakespeare inspirou

Se existe um texto que o cinema nunca parou de revisitar, esse texto é Hamlet, não apenas por ser uma das obras centrais de William Shakespeare, mas porque oferece algo raro e desconfortável ao mesmo tempo: uma narrativa sólida o bastante para atravessar séculos e instável o suficiente para absorver as angústias específicas de cada geração. Hamlet resiste ao fechamento, à interpretação definitiva e à ideia de resposta clara, e talvez seja exatamente por isso que o cinema retorna a ele de forma quase obsessiva.

O sucesso recente de Hamnet no cinema reacendeu, inclusive entre os não iniciados no bardo inglês, a curiosidade sobre a história da peça que tem quase 430 anos e segue sendo uma das obras mais famosas e respeitadas da história do teatro. Considerando o peso cultural de Hamlet, é natural que a pergunta sobre sua inspiração volte à tona. E o cinema, claro, nunca deixou de se interessar pelo príncipe dinamarquês amargurado, hesitante e excessivamente consciente.

Não existe um número absolutamente fechado, mas o consenso crítico e acadêmico aponta para mais de trinta filmes diretamente baseados em Hamlet, realizados desde o cinema mudo até produções do século 21. Desses, algo entre quinze e dezoito adaptações costuma ser tratado como cinema em sentido pleno, concebidas para a linguagem audiovisual e exibidas comercialmente, enquanto o restante se divide entre registros teatrais filmados, versões televisivas e releituras híbridas. Ainda assim, o dado mais revelador não é a quantidade, mas o modo como cada versão escolhe responder a uma pergunta diferente, deslocando o centro da tragédia conforme o seu tempo.

Antes de chegar ao palco elisabetano e depois à câmera, Hamlet já era uma história em circulação, tão popular que foi o nome que Shakespeare deu a seu único filho, Hamnet, uma variação corrente de Hamlet na Inglaterra do período. A lenda do príncipe dinamarquês Amleth aparece em crônicas medievais escandinavas como um relato de vingança, astúcia e sobrevivência, no qual a dúvida não existe e a loucura é apenas estratégia. O gesto de Shakespeare não foi inventar a trama, mas deformá-la, introduzindo a hesitação, o adiamento, a consciência moral e a recusa da ação imediata. É essa fratura que transforma o mito em tragédia moderna e que torna Hamlet um desafio permanente para atores e cineastas.

As grandes adaptações cinematográficas de Hamlet

Se adotarmos um critério rigoroso, considerando apenas filmes pensados como cinema e que adaptam explicitamente a peça, com seus personagens, estrutura e conflitos centrais, chegamos a um núcleo relativamente estável em torno do qual a história crítica do Hamlet cinematográfico se organiza.

A versão mais expansiva é Hamlet, dirigida e protagonizada por Kenneth Branagh. Ao filmar o texto integral da peça, sem cortes e sem medo da duração ou do excesso, Branagh transforma o que poderia ser apenas reverência literária em escolha estética e política. Seu Hamlet não é apenas um homem atormentado pela dúvida, mas um príncipe inserido em uma engrenagem de poder feita de ritual, encenação, espionagem e vigilância constante. Os espelhos, os corredores intermináveis e a monumentalidade do espaço funcionam como comentário, sugerindo que o drama íntimo é inseparável de um Estado já corrompido.

Na outra ponta está Hamlet, de Laurence Olivier, o filme que moldou por décadas a leitura dominante da peça. Ao anunciar logo no início que se trata da tragédia de um homem incapaz de decidir, Olivier desloca o centro da narrativa para o interior do personagem, transformando a Dinamarca em uma extensão de sua mente. Escadas, sombras e espaços verticais constroem um labirinto psíquico no qual culpa, desejo reprimido e hesitação se tornam o foco principal.

A leitura mais explicitamente política surge em Hamlet, de Grigori Kozintsev. Na adaptação soviética, Hamlet deixa de ser apenas um indivíduo em crise e se torna um corpo em confronto direto com o poder. A Dinamarca é apresentada como um território militarizado, exposto ao vento, à vigilância e ao silêncio. A dúvida não é fraqueza, mas consciência, pois agir significa romper com uma ordem inteira.

Hamlet, de Franco Zeffirelli, condensa o texto e aposta em um Hamlet de ação. Interpretado por Mel Gibson, o personagem é físico, impulsivo e menos interessado em monólogos do que em reação. O ritmo acelerado traduz a tragédia para uma linguagem mais acessível, quase épica.

A esse núcleo somam-se Hamlet, que desloca o texto de Shakespeare para a Nova York corporativa contemporânea, com Ethan Hawke, transformando a dúvida em sintoma de alienação e adiamento constante, e Hamlet, com Nicol Williamson, que apresenta um personagem instável e corporal, desmontando a imagem excessivamente intelectualizada do príncipe.

Antes de Hamlet, Amleth

Se filmaram Hamlet repetidas vezes, o cinema também voltou àquilo que Shakespeare transformou. Prince of Jutland, também conhecido como Royal Deceit, adapta diretamente a narrativa registrada por Saxo Grammaticus e acompanha o príncipe Amleth na Jutlândia medieval. Interpretado por um jovem Christian Bale, esse herói não hesita. A loucura é máscara, a vingança é dever e a ação é inevitável.

Décadas depois, The Northman, de Robert Eggers, retorna à mesma origem com radicalidade ritual e violência física. Aqui, o mito é devolvido ao corpo, ao sangue e ao destino. Por contraste, o filme torna ainda mais evidente o gesto de Shakespeare: Hamlet nasce quando a vingança deixa de ser suficiente e o pensamento passa a corroer a ação por dentro.

Os filmes satélite

Há ainda um grupo numeroso de filmes que não adaptam a peça, mas se constroem a partir de sua arquitetura narrativa. The Lion King traduz Hamlet em mito de formação e oferece uma resolução afirmativa onde Shakespeare deixa ambiguidade. Ophelia reposiciona a narrativa a partir da personagem silenciada. Em The Bad Sleep Well, Akira Kurosawa transpõe a estrutura da tragédia para o Japão corporativo do pós-guerra. Rosencrantz & Guildenstern Are Dead desloca o foco para a margem da história e transforma a dúvida em absurdo existencial.

Mais recentemente, uma adaptação moderna ambientada em Londres, dirigida por Aneil Karia e protagonizada por Riz Ahmed, reinsere Hamlet em um espaço urbano atravessado por vigilância e tensão social, onde a hesitação deixa de ser apenas filosófica para se tornar também política.

Onde entra Hamnet

Hamnet entra nesse percurso não como adaptação da peça, mas como investigação de sua origem emocional. Ao deslocar o foco da tragédia para o luto privado de Shakespeare, o filme sugere que Hamlet talvez seja menos um exercício intelectual abstrato e mais uma elaboração artística da perda, transformando dor íntima em linguagem dramática.

Por que Hamlet não desaparece

Hamlet não sobrevive no audiovisual por insistência acadêmica, mas porque sua estrutura dramática continua funcional. O que muda é o estatuto da dúvida, às vezes psicológico, às vezes político, às vezes sistêmico, às vezes emocional. Separar adaptações diretas, versões filmadas da peça e filmes satélite não empobrece o debate, revela como Shakespeare escreveu menos um texto fechado e mais um modelo narrativo capaz de se infiltrar em quase qualquer época, linguagem ou formato.

Talvez por isso a pergunta nunca seja quantos Hamlets existem, mas por que continuamos precisando deles, mesmo quando fingimos que estamos falando de outra coisa.


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